Por Pe. Hermes A. Fernandes
Muito se tem comentado sobre a recente declaração do Papa Leão XIV a respeito da Teologia da Libertação. Há quem esteja cheio de revoltas, dizendo ser o papa um comunista. Há quem relativize tal declaração, tornando-a sem efeito ou sem sentido. Fato é que as palavras do Papa desconcertaram muitos dos que – pelas novas mídias – pretendem ser formadores de opinião, influencers católicos.
Lamentavelmente, parte destes influencers tendem a contestar o Magistério da Igreja, quando se fala de seu compromisso com os pobres, defendendo-os dos muitos sofrimentos que as desigualdades sociais lhes infligem. Todavia, as ideias de uma Igreja em Saída e a opção preferencial pelos pobres não se fazem novidade. Desde o Papa Leão XIII, com a Encíclica Rerum Novarum (1891), a Igreja deixou explícitas suas preocupações com as desigualdades sociais, consolidando sua Doutrina Social (DSI).
Os supracitados influencers, por canais digitais como o YouTube, Instagram, Facebook, sites e cursos online; comumente travam uma batalha hercúlea contra a Teologia da Libertação. Afirmam ser heresia, até mesmo satânica. Tais hipérboles não existiriam, se não houvesse algum motivo obscuro. Estes que digladiam contra a Teologia da Libertação, antagonicamente defendem uma Igreja reduto dos bem-nascidos. Onde a estética ofusca a ética. Onde o poder religioso se faz presente, negando a própria pedagogia de Jesus que nos aponta como caminho do Evangelho a solidariedade e a partilha, como sinais concretos de fraternidade e sororidade. Por que atacam a Teologia da Libertação? Porque precisam defender-se em razão de seus sonhos de poder. Agora, depois de décadas de debate, o atual Papa diz: “a Teologia da Libertação é uma grande escola”. Claro que sua fala tem todo um contexto. Todavia, seu contexto não deslegitima o texto. O Papa Leão XIV demonstra uma continuidade com a abordagem de Francisco e uma abertura para a importância da fé em temas como a pobreza e a exclusão, incentivando uma teologia que se encarne nas experiências concretas e na solidariedade, como se vê em suas palavras de que o Evangelho prega a libertação e que a Igreja não se exime de ajudar aos vulneráveis. Neste sentido, toda forma de acusação contra a Teologia da Libertação é desautorizada, deslegitimada. O Papa, sucessor de Pedro, confirma a importância e a efetividade desta teologia.
Se olharmos ao longo da história, veremos que Leão XIV não foi o primeiro a reconhecer a necessidade de uma Teologia da Libertação. Em 1986, por uma carta aos Bispos do Brasil, o Papa São João Paulo II disse: “Na medida em que se busca encontrar respostas justas – penetradas de compreensão para com a rica experiência da Igreja [no Brasil], tão eficazes e construtivas quanto possível e ao mesmo tempo consonantes e coerentes com os ensinamentos do Evangelho, da Tradição viva e do perene Magistério da Igreja – estamos convencidos, nós e os senhores, de que a TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO é oportuna, útil e necessária. Ela tem a capacidade de ser uma nova etapa – em estreita conexão com as anteriores – daquela reflexão teológica iniciada com a Tradição apostólica e continuada com os grandes Padres e Doutores, com o Magistério ordinário e extraordinário e, na época mais recente, com o rico patrimônio da Doutrina Social da Igreja, expressa em documentos que vão da Rerum Novarum à Laborem Exercens.”
Há quem, mesmo assim, quisesse relativizar a declaração de São João Paulo II, assim como têm feito com as palavras de Leão XIV. Como entender isso? Só pensando a partir dos saberes da saúde mental. A perseguição à Teologia da Libertação mais parece um sintoma claro de esquizofrenia, pelo qual se luta contra um inimigo imaginário. Ou, quem sabe, podemos reconhecer que estas pessoas estão fixas na primeira infância e ainda creem que há um Bicho Papão debaixo de suas camas. Sejamos sinceros e maduros: a Igreja não condena a Teologia da Libertação. Não e não! E ponto final! E quem não concorda com isso, limite-se a guardar sua opinião no mais profundo recôncavo de seu interior. Afinal, contestar dois papas, um deles canonizado, não é – pelo menos – uma atitude sensata. Em verdade, cheira à arrogância. Postura muito peculiar, própria dos fariseus. Não dos discípulos e discípulas de Jesus.
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