Deus nos chama a partir da história – Parte 3: Agar: a escrava a quem Deus olhou com misericórdia e se tornou mãe da resistência e da vida!

Por Karina Moreti


Como foi dito em nossa conversa anterior, precisaríamos voltar à história do nascimento de Ismael, e os acontecimentos que o cercam. Após falarmos em nosso primeiro texto sobre a vocação de Abraão[1], e em um segundo texto sobre sua esposa Sara[2], precisamos agora falar de Agar. Lembremo-nos que Sara não tivera filhos e seu marido corria o risco de ficar sem descendência, tendo seu nome apagado na história. Diante desta lancinante dor, Sara pede ao marido que tenha relações com sua serva e, por ela, tivesse um filho, salvando sua descendência. A extremidade desta escolha reflete a coragem de uma mulher, face à necessidade de se salvar a história do seu povo. Vimos anteriormente esta história pela perspectiva de Abraão e de Sara. Agora, precisamos dar voz à Agar e ver com seus olhos, a partir da perspectiva dos abandonados, essa história.

Agar era serva do patriarca e da matriarca, Abraão e Sara, como bem o sabemos. Também o sabemos que tinha origem egípcia. Uma serva que não se cala diante da servidão. Mesmo no lugar social em que se situava, não se anula, reconhece sua dignidade. Sua trajetória, marcada por tensões, rejeição e deserto; revela a grandeza de um Deus que vê, que escuta e que salva.



Se de um lado está Sara, esposa legítima de Abraão, marcada pela esterilidade e pela promessa de um filho (Gn 18,10-14), do outro está Agar, a serva estrangeira, fértil e fecunda, porém sem direitos. O contraste entre as duas mulheres ilumina a ação divina: Deus não se limita aos protagonistas esperados, mas se revela também à margem, na vida daquela que não tinha nome e direito à voz.

Sara é lembrada como mãe da promessa; Agar, como a mulher que experimentou a compaixão divina no deserto. Enquanto Sara representa a espera paciente da promessa, Agar representa o grito imediato da sobrevivência — e em ambas Deus se faz presente.

O episódio mais decisivo da vida de Agar acontece no deserto. Fugindo de Sara, grávida e sem rumo, ela é encontrada pelo Anjo do Senhor, que a chama pelo nome e lhe promete descendência (Gn 16,7-12). É nesse momento que Agar se torna a primeira pessoa na Escritura a dar um nome a Deus: El-Roi — “Deus que me vê” (Gn 16,13).

Mais tarde, definitivamente expulsa do clã e levando consigo Ismael, Agar vê o filho à beira da morte. Chora de dor, mas é escutada por Deus, que abre seus olhos para enxergar o poço de água e assim salvar a vida da criança (Gn 21,14-21). Agar, portanto, é guardiã da vida: protege o filho, mantém viva a descendência, e descobre que, não obstante o abandono humano, Deus não abandona.

Agar inaugura uma tradição que se repete em toda a Escritura: o deserto como lugar de encontro com Deus. Moisés encontra no Horeb a sarça ardente (Ex 3,1-12). Elias, esgotado, recebe alimento para continuar sua missão (1Rs 19,1-8). Israel aprende a confiar em Deus durante a travessia (Ex 16–17). Jesus é conduzido pelo Espírito para ali enfrentar as tentações, e assim confirmar sua missão messiânica (Mt 4,1-11).

O deserto, lugar de silêncio e ameaça, torna-se lugar de promessa e de revelação. Com Agar aprendemos que, mesmo na solidão mais profunda, no abandono mais lancinante, Deus continua a falar e a abrir caminhos de Vida.



Os Padres da Igreja reconheceram a força testemunhal da história de Agar. Vejamos:

Santo Agostinho, em sua obra A Cidade de Deus (XV,2), vê nela a figura da Antiga Aliança em contraste com Sara, mas não deixa de reconhecer sua dignidade como mãe de uma descendência.

Orígenes, na obra Homilias sobre o Gênesis, destaca que Agar, embora estrangeira e serva, é olhada por Deus no deserto, sinal de que a misericórdia divina não conhece fronteiras.

São João Crisóstomo, em suas Homilias sobre Gálatas, lê Agar como símbolo da escravidão, mas reforça a soberania de Deus que se manifesta mesmo através da fragilidade.

Na teologia contemporânea, Frei Jacir de Freitas Faria, teólogo e biblista, nos informa: “No âmago da historiografia de Agar, a mulher que complicou os rumos da genealogia abraâmica, garantindo, como visionária, o lugar de seus descendentes na história da Salvação, está a ação de Deus que ouve o grito dos indefesos que fazem uma experiência exodal, de libertação e proteção divina para sempre, assim como fez o Deus de Abraão com o seu filho Ismael. Para garantir genealogias em torno do patriarca, Deus muda o rumo da história sem romper os laços de pertença. E o que é mais provocador, Deus ouve grito de uma mulher estrangeira e apoia a sua rebeldia. Deus não aceita a opressão e a violência!”[3].

Agar aparece como uma mulher que, mesmo não revestida de poder, mesmo sem direitos, mesmo rejeitada; não deixou morrer a vida que carregava, nem a fé no Deus que a acompanhava. No ventre, guardou Ismael; no deserto, guardou a esperança. Sua resposta foi confiar, mesmo quando tudo dizia em contrário.

Se Sara é lembrada como mãe da promessa, Agar deve ser reconhecida como mãe do Deus que vê — testemunha de que ninguém está invisível aos olhos do Senhor, Iahweh. Através dela, aprendemos que a salvação não passa apenas pelos grandes nomes, mas também pelos marginalizados, onde Deus se revela como compaixão.

Agar não é uma personalidade secundária em Gênesis 16,1-15. Ela é a protagonista silenciosa da história da salvação, lembrada não por títulos ou glórias, mas porque ousou sobreviver, proteger e confiar. Sua experiência no deserto continua a ecoar: Deus vê! E porque Deus vê, há futuro, há vida, há esperança.


Notas

[1] Deus nos chama a partir da história – Parte 1: a vocação de Abraão e a nossa caminhada eclesial! (https://eclesialidade.org/2025/09/14/deus-so-nos-chama-a-partir-da-historia-a-vocacao-de-abraao-e-a-nossa-caminhada-eclesial/)

[2]Deus nos chama a partir da história – Parte 2: Sara, mulher de Abraão, testemunha de esperança, fé e amor! (https://eclesialidade.org/2025/09/21/deus-nos-chama-a-partir-da-historia-parte-2-sara-mulher-de-abraao-testemunha-de-esperanca-fe-e-amor/)

[3]FARIA, Frei Jacir de Freitas. Agar: o grito da escrava rebelde e visionária! (Gn 16, 1-15). In: https://franciscanos.org.br/vidacrista/agar-o-grito-da-escrava-rebelde-e-visionaria-gn-16-1-15/#gsc.tab=0, acesso em 27/08/2025.

Referências

AGOSTINHO. A cidade de Deus. Livro XV. 2. Tradução de J. Dias Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.


BÍBLIA de Jerusalém. 5. ed. São Paulo: Paulus, 2002.


BRUEGGEMANN, Walter. Genesis. Interpretation Commentary. Atlanta: John Knox Press, 1982.


CRISÓSTOMO, João. Homilias sobre a Carta aos Gálatas. In: MIGNE, J. P. (org.). Patrologia Graeca. Paris, v. 61, col. 611-622, 1862.

FARIA, Frei Jacir de Freitas. Agar: o grito da escrava rebelde e visionária! (Gn 16, 1-15). In: https://franciscanos.org.br/vidacrista/agar-o-grito-da-escrava-rebelde-e-visionaria-gn-16-1-15/#gsc.tab=0, acesso em 27/08/2025.


ORÍGENES. Homilias sobre o Gênesis. Tradução e notas de Lorenzo Perrone. Roma: Città Nuova, 1998.


VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2006.
WESTERMANN, Claus. Genesis 12–36: A Commentary. Minneapolis: Augsburg Publishing, 1985.


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