A Fé como Serviço e o Serviço da Fé! (Lc 17,5-10)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

O Evangelho do 27º Domingo do Tempo Comum está no bloco dos dez capítulos que compreendem a viagem de Jesus com seus discípulos à Jerusalém. A partir do capítulo 9 de Lucas, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para a Capital do poder religioso e político, Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão. Afinal, também eles serão responsáveis pela continuidade do anúncio da Boa Nova após a Ascensão e Pentecostes.

Muito se tem falado hoje em dia sobre fé. Infelizmente, uma grande parte dos pregadores de nosso tempo tendem a elencar a espiritualidade como uma exclusiva consequência da fé. Quanto maior a fé, maior a espiritualidade. Daí temos uma fé estética, com expressões rituais e litúrgicas, sem implicações éticas. O Evangelho da Liturgia do 27º Domingo do Tempo Comum, vem nos exortar de forma a entender que as consequências primeiras da fé não se fazem na espiritualidade. A fé nos leva ao compromisso com o Reino e ao serviço a ele, este Reino que promove a fraternidade e a sororidade. Neste movimento, a liturgia e o rito são consequentes da fé e da vida. O texto de Lc 17,5-10 nos introduz de forma elegante e eficaz nesta reflexão. Os apóstolos fazem um pedido dos mais importantes: “Aumenta a nossa fé” (17,5). Isso nos impele a compreender que não necessariamente se trata de um diálogo entre Jesus e seus discípulos e, sim, uma dificuldade que viviam as comunidades que tinham como missão manter vivo o anúncio do Evangelho.

Os discípulos e discípulas de Jesus viviam grande infortúnio na segunda metade do primeiro século. O Império Romano, após o ano 70 d.C., infligiu grande dor sobre judeus e cristãos daquele tempo. A destruição do Templo, assim como a cidade que o habitava, Jerusalém, forçou grande parte dos que ali estavam a fugir. Em situação de diáspora, desterrados de suas origens, os cristãos viviam como refugiados nas terras consideradas gentias, até às regiões da Síria e Ásia Menor. Se não bastasse a perseguição romana, os próprios judeus, também refugiados, combatiam as comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus. Assim, os que acreditavam no Messias Nazareno tinham como contexto o sofrimento do desterro, da perseguição romana e também a perseguição do judaísmo normativo. Haja fé para tanta penúria! Assim, as comunidades lucanas tomam dos lábios dos apóstolos em seu evangelho e pedem o Dom da Fé a Jesus. Isso porque a comunidade se reúne graças a uma fé, que significa compromisso com o projeto de Deus, plenamente realizado na palavra e ação de Jesus. A fé, no contexto em que viviam as comunidades lucanas, não se alienava do compromisso. Fé, nesta ótica, significa compromisso. Mas, pensemos, como aumentar o compromisso? Ou ele existe, ou não. Por isso Jesus compara a fé com um grão de mostarda, que é a menor das sementes. Diz Jesus: “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria” (17,6). Aqui vale uma pequena ironia: árvores não crescem no mar. Com isso Jesus diz que a fé, do tamaninho de um grão de mostarda, possibilita aos seus seguidores e seguidoras fazer coisas impossíveis. É nesta fé visionária e empoderada que se sustenta o caminhar das comunidades. No contexto do primeiro século e no nosso, a fé no Evangelho de Jesus nos empodera com a ousadia dos profetas.

As comunidades lucanas aproveitam o tema da fé enquanto compromisso, para introduzir um segundo tema muito importante no seguimento de Jesus, o serviço. A introdução do versículo 7 também nos impacta de forma provocativa. A metáfora se repete enquanto originalidade, deixando aquela “pulga atrás da orelha”. Vejamos: “Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: ‘Vem depressa para a mesa?’” (17,7). Na época de Jesus e seus apóstolos, um patrão chamar um empregado para sentar-se consigo à mesa é algo impensável. Não que Jesus queira justificar a escravidão. É preciso entender isso sob a ótica do tempo de Jesus. Na parábola apresentada, trata-se de um patrão pobre. Que tem um só empregado. Quem vai servir a mesa? Ele ou o empregado? Claro que o empregado. E mais: “Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado?” (17,9). Claro que não! O empregado fez o que deveria fazer, e pronto! Olhando a partir da perspectiva das relações humanas, neste contexto, relações trabalhistas, podemos nos escandalizar com as palavras de Jesus. Todavia, precisamos entender a partir da lógica da fé que nos impulsiona ao compromisso que desemboca no serviço. Neste contexto, enquanto seguidores e seguidoras de Jesus, enquanto quem se coloca na condição de servo tal qual o fez Jesus (cf. Mc 10,45), “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17,10).

Compreendendo esta parábola como mais uma das catequeses da Caminhada de Jesus para Jerusalém, onde o mestre aperfeiçoa seus discípulos para continuar o anúncio do Reino, entendemos que estas são exortações contra a tibieza e a vaidade. Jesus usa de um fato da vida daquele tempo para mostrar que os cristãos são servos do Altíssimo. Este serviço a Deus e seu Reino, não pode estar revestido de sentimentos vaidosos, subentendendo méritos e vantagens. Basta nos lembramos que servir à vontade de Deus não significa ir contra nossa própria vontade, pois a vontade de Deus é nosso desejo mais profundo. Em outras palavras, servir ao que Deus quer é servir ao que nós mesmos queremos. Quem ainda não compreendeu isso, ainda não conhece o Deus verdadeiro, porque ele é a fonte da liberdade e da vida. Servir a ele é encontrar a liberdade e a vida que tanto procuramos. E isso mereceria um prêmio especial? Não! Fazer parte do projeto de Jesus, construindo o Reino de seu Pai, já se constitui um privilégio inalienável. É fazer parte da família de Jesus, conforme podemos ver no Evangelho. “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50).

Em nossas comunidades somos atribulados por dificuldades que têm nesta perícope sua resposta sanativa. Muitos entre nós se deixam impressionar pelos ministérios que lhes são conferidos. Achando-se especiais, melhores do que os outros, verdadeiros referenciais de autoridade e santidade. A estes e estas, Jesus exorta à mudança de perspectiva, de converter-se ao evangelho-serviço: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17,10). Este testemunho de serviço e humildade não é fácil. Precisa-se de uma fé do tamanho de um grão de mostarda, capaz de realizar coisas impossíveis. É nesta dimensão mais pastoral do texto do Evangelho de hoje, que podemos atualiza-lo para nossas vidas. Não há desafio impossível a se realizar, enquanto construção do Reino de Deus. E, também, nenhuma destas realizações, mesmo que grandiosas, nos outorgam méritos e louvores. “Somos servos inúteis“!

Na fé que nos leva ao compromisso – e no serviço humilde – sigamos enquanto discípulas e discípulos de Jesus, anunciando seu Evangelho, amando sempre, perdoando sempre e nos colocando preferencialmente ao lado dos fracos, dos vulneráveis.


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