Por Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
A história que Jesus conta no Evangelho deste domingo[1] não é uma descrição pormenorizada das coisas futuras, uma caracterização do que será a salvação e a condenação. É uma imagem. E, por meio dela, Jesus faz o anúncio de sua boa-nova aos pobres, muitas vezes esquecidos pelos ricos e jamais vistos às portas, sempre à margem, contando apenas com as sobras e a com a bondade dos cães. Ao pobre, porém, Jesus jamais esqueceu. Deus o socorreu é isso o que significa o nome Lázaro e é isso exatamente o que Jesus faz reconhecer: o pobre não é um amaldiçoado, mas um querido por Deus —e cuidar do pobre é também cumprir com a justiça e com a misericórdia que Deus deseja.
Essa imagem de Jesus é também a marca de seu testemunho profético, que já é prenunciada no início do Evangelho de Lucas, quando maria – a perfeita serva – canta: “Encheu de coisas boas os famintos, mas despediu de mãos vazias os ricos”. Os ricos, que pensam poder comprar Deus, comprar a segurança, talvez se deem conta, finalmente, ao ouvir Jesus, que a riqueza não pode comprar a vida, o sentido, ou o que de fato enriquece a vida. Os ricos, que se acham abençoados, talvez entendam, ao ouvir Jesus, que a riqueza não é uma benção se ela serve apenas para fechar portas pesadas na cara dos pobres, se ela não é feita para fazer amigos; se com os celeiros cheios, esquece-se nas ruas os miseráveis. Se a riqueza serve para comprar roupas finas, promover festas esplêndidas, mas se jamais é usada para promover a justiça, ela está longe de ser uma benção.
É uma inversão escatológica o que Jesus anuncia. Mas escatologia, aqui, não diz respeito ao fim, o que vem só depois da morte. O Evangelho não glorifica a miséria, prometendo que a solução virá no futuro – como se sobrasse esperar essa solução vindoura, enquanto à injustiça, aqui nesse mundo, só caberia aceitar. O fim está posto não no derradeiro instante, nas no encontro com o pobre. Pois todo encontro com o pobre, jogado na sarjeta, todo estar em face da injustiça, é um derradeiro momento, é um instante de juízo, em que se decide nosso compromisso com o Reino de Deus, que pode ou não acontecer através de nossa ação. Não se trata de multiplicar culpas, de pôr o peso da injustiça do mundo nas nossas mãos, muitas vezes vítimas desse mesmo sistema esmagador – o do dinheiro injusto. Mas, sem culpa neurótica, trata-se de fazer pensar: temos visto o pobre e infeliz? Temos o ajudado? Temos lutado pela justiça?
Há quem diga que essa parábola não possa ser de Jesus: não há misericórdia, não há perdão para o avarento, que nem nomeado merece ser. Apesar de suas súplicas, ele continua sofrendo nos abismos! No entanto, mais uma vez é preciso insistir: não estamos diante de um relato de salvação/condenação, mas diante de um texto que interroga nossa ética. E talvez por isso seja importante marcar: o rico, mesmo em lugar de sofrimento não vê Lázaro, segue não o vendo, e segue apenas querendo pôr o pobre a seu serviço – a serviço de sua aflição, ele que não viu as aflições de Lázaro. A serviço de sua família… Mas, em todo caso, o pobre segue sendo apenas um instrumento. E não é assim que os ricos muitos vezes os veem? Não há arrependimento, conversão, mas a perpetuação de uma dureza de coração que estava lá, antes e depois, na história: antes quando o avarento não via o pobre; depois, quando nem sequer se dirige a ele, mas busca instrumentalizá-lo.
Cabe escutar Moisés e os Profetas, que outra coisa não fazem senão lembrar: “é preciso abrir a mão para o necessitado”, como afirma Dt 15,7-8, e ainda: “Deus abomina a exploração dos pobres”, como não se cansou de repetir o profeta Amós (Am 8,4-6). Se não for possível escutar esse bom-senso, esse arrazoado do coração, ora, mesmo que alguém ressurja dos mortos, não será suficiente.
E não é o que acreditamos ter acontecido com Jesus? E mesmo ressuscitando dos mortos, continuamos fechando ouvidos à sua palavra que ensina: “bem aventurados os pobres, porque deles é o reino de Deus”?
[1] Nota do Editor: O autor refere-se ao Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum, Lc 16,19-31.
Colaborou: Fique Firme
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