Por Pe. Hermes A. Fernandes
Segundo o Dicionário Aurélio, a palavra fetiche pode significar: “objeto a que se atribui poder sobrenatural ou mágico e se presta culto”. Usando como alegoria proposta para se refletir sobre a Eucaristia, vale sublinhar o conceito de fetiche como algo mágico e, assim, entender um equívoco comum em nossa Igreja hoje.
Ao instituir-se alimento para a Igreja, Jesus se refere ao conceito mais elementar, concreto e eficaz do alimentar-se. Ele se faz verdadeira comida e bebida. Portanto, aos que estão em comunhão com ele, se oferece como substância revigorante da caminhada cristã. Até aqui, em linhas panorâmicas, tudo bem. Cremos que cada cristão e cristã, ao se aproximar do altar, deva entender que está se alimentando de Jesus. Se é alimento, onde se justifica a adoração? Adorar, mesmo em seu sentido mais sagrado, não abriga em si o desejo real de Jesus ao instituir o Memorial de sua Paixão, Morte e Ressurreição; no seu corpo e sangue, na forma de pão e vinho. Celebrar a Eucaristia é banquete de vida. Neste, insere-se o sentido real do ser Igreja. Além de sustento para nossa vida cristã, também se faz partilha, experiência fraterna por excelência. O ato de comer estabelece uma relação com a Criação, com a terra, de onde provêm os alimentos. Isso significa que comer é entrar em comunhão com todo o Universo e seu Criador. Nesse caso, não se trata de consumir no sentido de “devorar”, mas de comungar com a realidade cósmica. Insisto: a Eucaristia remete a essa integração do ser com toda a Criação e com o Criador.
Ao dar-se como alimento, Jesus insere em nosso refletir e celebrar, a necessidade de comungar não só de sua vida divina e humana, como também com nossa própria humanidade. Daí o comungar infere de nós a solidariedade. E esta é outra dimensão do ato de comer, isto é, a solidariedade. Nossa subsistência depende da relação que estabelecemos com tudo o que existe, especialmente com os frutos da Criação e com nossos semelhantes. Consequentemente, a comunhão criatural desemboca-se na comunhão social. Nesse sentido, a refeição expressa um ato privilegiado do ser humano que deseja a relação e a comunicação interpessoais. A Eucaristia pode ser concebida como banquete fraterno. Não se come apenas os alimentos, alimenta-se, também, daqueles que compartem o mesmo pão e bebem do mesmo vinho. É uma partilha de vidas, esperanças e dores. Comunhão sacramental e histórica.
Daí podemos inferir o sentido mais profundo da mistagogia do comungar. O pão e o vinho consagrados concretizam o banquete de comunhão com as Pessoas Divinas. A função material desse banquete fica superada por sua função sacramental que tende a manifestar a união e a amizade dos seres humanos entre si e com a Trindade.
Ao pensarmos o acima apresentado, podemos ainda afunilar nossa reflexão sobre a comunhão. Geralmente, denomina-se “comunhão” o ato de receber e comer o pão e beber o vinho. Essa é a parte substancial do banquete eucarístico. Tal dimensão supõe comunicação, participação e partilha. A partilha supõe dar algo de si aos outros. Não se partilha só o que sobra, mas aquilo que se tem para viver: a mesa, a casa. Na Eucaristia, Jesus partilha seu Corpo e seu Sangue, dá a si mesmo como alimento e bebida para que todos tenham vida e vida em abundância. Jesus dá tudo de si para que a humanidade possa ter nele a vida glorificada e eterna. Ele reparte o pão da Palavra e o pão da Eucaristia. Jesus dá o pão e expressa, assim, sua entrega total para a nossa salvação. A ceia e o sacrifício da Cruz estão integrados. Jesus também faz circular o cálice com o vinho da nova e eterna aliança, mostrando com isso o derramamento do seu Sangue. O que se faz concluir que a Eucaristia anuncia todo o dinamismo da vida, a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo. Há um dar e um receber o pão e o vinho, a salvação, o amor de Deus. Ao dom oferecido corresponde a acolhida comensal no banquete salvífico. Aqui se sublinha o aspecto soteriológico do alimento eucarístico. Aqui também se revela o Mistério da própria pessoa do Cristo.
É pão, é vinho. É corpo e é sangue. É Jesus, consubstancial ao Criador e é, no pão e no vinho, substância criada. Parece um enigma. Não! Trata-se da sublime criatividade trinitária. Ele, Jesus, está contido e é. Na Eucaristia, quem está presente e se dá como comida é o Kyrios (Senhor), que nos oferece a comunhão com sua vida divina. Não é uma coisa que se torna presente diante de nós, mas é alguém, uma Pessoa Viva, que se faz alimento e se doa para dar vida plena a outras pessoas. É uma pessoa glorificada, e, por isso, seu Corpo pode se doar totalmente para a comunhão plena. Isso significa que não conseguiremos entender a Eucaristia partindo de nós, dos elementos pão e vinho, ou da comunidade reunida, mas somente através de Cristo mesmo, que se dá a nós como Ressuscitado. E, assim, sagrado e humano se abraçam em uma dança cósmica. Bailar possível, somente por aquele que ama até as últimas consequências. Aqui se infere e, mais, se aprofunda o aspecto alimento, partilha, solidariedade e salvação. Ele que tudo é, tudo faz, porque muito ama.
Diante de tão afável mistério, na perspectiva dele se alimentar e – assim – dele tomar parte, a adoração fica como que claudicante caminho. É vislumbrar o destino, sem nele chegar em verdade. Sem ultrapassar a linha de chegada de uma grande corrida. Adorar, sem participar de sua dimensão da comensalidade, é manter-se aquém daquele que se oferece. É compreender a Eucaristia como mágica, como alegoria da realidade. Como mero simbólico. É como manter os olhos fixos na fotografia de uma pessoa amada, sem poder estar com esse ente querido. Abraçar, sentar-se à mesa. Adorar a Jesus eucaristizado é como viver em constante luto de morte. Porém, Jesus ressuscitou. Está conosco e se dá como alimento para a jornada. Caminho de construção do Reino de Deus!
Eucaristia não é fetiche. Não é desejo irrealizável. É sonho que abraça a concretude da vida. É alimento real e eficaz para o viver cristão.
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