Silêncio de uma presença

Por Yuri Lamounier Mombrini Lira

Um dos grandes dilemas da teologia e uma das grandes perguntas da humanidade em todos os tempos é como explicar o silêncio de Deus, sobretudo naqueles momentos mais difíceis e cruéis da vida. Em alguns momentos, parece que nos perdemos de Deus ou que ele se perde de nós… A sensação de perder-se de Deus é uma das experiências mais traumáticas que o ser humano pode viver ao longo de sua existência e que muitos místicos chamam de “noite escura” ou de “desolação”. Nos momentos de sofrimento e de solidão, a sensação que temos é que nos perdemos de Deus; parece que quanto mais sofremos, mais Ele se distancia de nós.


Quantas vezes ao longo da vida exclamamos: “Será que Deus se esqueceu de mim?” ou, então, aos prantos, rezamos com o salmista: “Senhor, é a vossa face que eu procuro; não me escondais a vossa face… Não me esqueçais nem me deixeis abandonado, meu Deus e Salvador” (Sl 27). Na verdade, Deus sempre permanece conosco. Ele sempre está presente em nós e entre nós; somos nós que nos perdemos de Deus, que nos afastamos de sua presença e que nos esquecemos de seu amor.


Na cruz, Jesus não escapou dessa experiência frustrante. Também Ele se sentiu esquecido por seu Pai e gritou aos céus: “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?” (Sl 22). Esse grito que brota do coração e dos lábios de Jesus é o brado que surge no mais íntimo de cada pessoa quando se vê na escuridão, quando não consegue sentir mais a presença de Deus em sua vida. 


Quem de nós nunca experimentou essa angústia de se sentir perdido de Deus? Todos nós, algum dia, já atravessamos ou teremos de atravessar uma noite escura. No entanto, não nos esqueçamos do ditado que diz: “É na noite mais escura, que as estrelas mais brilham”. 


Depois de passarmos pelas noites traiçoeiras da existência, descobriremos que nunca estivemos sozinhos e que Deus nunca nos abandonou. Haveremos de perceber que era nossa dor que, por ser tão grande, não nos deixava perceber que Deus estava ali conosco, do nosso lado e em nosso coração. 


Quando fazemos memória do passado mais sofrido e nele reconhecemos a presença de Deus, a esperança e a alegria tomam conta de nós. Confirmamos o que afirmou o salmista: “mesmo se eu tiver que andar por um vale de sombra mortal, não temerei os males, porque estais comigo” (Sl 23). Não podemos nos esquecer de que somos buscadores de Deus. Embora muitas vezes nos percamos dele, Deus não se perde de nós. Ele não nos abandona. Nosso Deus está sempre presente! 


Descrevendo sobre o grito de Jesus na cruz, o teólogo Bruno Forte disse: “Na noite de entrega, que é também a da sua solidão absoluta diante do Pai, treva luminosa na qual confirma o ‘sim’ da sua liberdade radical, o Filho na carne se agarra totalmente Àquele que chama com o nome da confiança e da ternura: ‘Abbá’”1 . Há uma presença misteriosa na aparente ausência do Pai na hora da cruz; uma contradição, uma solidão que se transforma em companhia.


Comentando sobre a hora da cruz e sobre o abandono sentido por Jesus na cruz, Van Thuan escreveu: 

Grito misterioso de Deus que se sente abandonado por Deus. No auge de sua vida, Jesus tinha sido traído pelos homens; os seus não estavam mais com Ele; e agora Deus, aquele que Ele chamava de Pai, Abbá, cala-se. O Filho experimenta o vazio de sua ausência, perde a sensação da presença. A certeza de não estar nunca só (cf. Jo 16,32), de ser sempre atendido pelo Pai (cf. Jo 11,42), de ser instrumento de sua vontade dá lugar à súplica cheia de angústia. 

Jesus faz na cruz aquela experiência de vazio, de total abandono que muitas vezes enfrentamos em nossa vida. A ausência da presença misteriosamente se transforma em presença na ausência. Os místicos chamam essa experiência de “a noite escura da fé”. As noites escuras “são pequenas, ou não tão pequenas, noites da alma, que obscurecem em nós a certeza da proximidade da presença de Deus que dava sentido a toda nossa vida”2


E todos nós vivemos situações assim. Madre Teresa de Calcutá costumava dizer que, se um dia fosse santa, seria a santa da escuridão. Ela também viveu uma longa e dolorosa noite escura. No livro Elogio da sede, José Tolentino Mendonça comentando sobre a experiência de Madre Teresa escreveu: “Nós queremos amar a Deus por aquilo que Ele nos dá. Aprendemos, progressivamente, porém, como essa forma de ver se torna lugar de tentação. Madre Teresa de Calcutá dizia: ‘Quero amar a Deus por aquilo que Ele tira’”3.


Seguir Jesus de Nazaré é maravilhoso, pois ressignifica nossa vida. Mas o seguimento é exi-gente e não nos exime da noite escura.


1FORTE, Bruno. As quatro noites da salvação. São Paulo: Paulinas, 2012. p. 57. 

2VAN THUAN, François Xavier Nguyen. Testemunhas da esperança. São Paulo: Cidade Nova, 2022. p. 101. 

3MENDONÇA, José Tolentino. Elogio da sede. São Paulo: Paulinas, 2018.

Colaborou: Fique Firme


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