Por Karina Moreti
Em nossa jornada pelos testemunhos de mulheres e homens, chamados por Deus para – em comunhão com ele – construir uma linda história de aliança e mútuo amor, chegamos a Moisés. Muitos se lembram de sua fé e de seu encontro com Iahweh na sarça ardente. Claro que algo tão fantástico habitaria nosso imaginário por todo o sempre. Todavia, há mais do que maravilhas na história de Moisés e daquele período histórico. Era um tempo de sofrimento, quando o povo hebreu se via sob o braço forte dos trabalhos em sistema de corveia. E diante de suor, lágrimas e sangue derramados, o clamor daquele povo chegou aos ouvidos de Iahweh. Para cumprir seu projeto de liberdade e vida, convocou Moisés. No entanto, é importante recordar que Moisés não constrói a história de libertação do cativeiro egípcio sozinho. A realização da promessa de Iahweh foi um sonho construído em mutirão. E para beber destas águas de liberdade, convido ao leitor e à leitora a revisitarmos o Livro do Êxodo.
Após a migração de Jacó e seu povo para o Egito, na época em que seu filho José era primeiro ministro do Faraó, o povo hebreu viveu um tempo de paz e prosperidade (cf Gn 46,1–50,26). Os hebreus, que haviam sido fecundos, tornaram-se cada vez mais numerosos, a tal ponto que todo o vale do Nilo ficou repleto deles (cf. Ex 1,7). É neste contexto, após José do Egito, que começamos a jornada pelos caminhos de Moisés e do Povo de Deus rumo à libertação.
O início do livro do Êxodo nos informa que chegou ao poder no Egito um rei que não conhecera José. Este determinou a seu povo que tomasse medidas para que os hebreus não crescessem mais, pois eles seriam – em caso de guerra – um oponente forte, aliando-se aos inimigos do Egito (cf. Ex 1,8).
Não obstante os trabalhos forçados a que foram obrigados, os hebreus não se enfraqueceram. Ao contrário, continuaram a crescer em número, atemorizando ainda mais os povos da terra. Na esperança de frear o crescimento dos hebreus, o rei do Egito intimou as parteiras dos hebreus (interessante ressaltar que a Escritura Sagrada manteve a memória de seus nomes), Sefra e Fua. Tendo-as diante de si, ordenou-as a matar todos os recém-nascidos hebreus do sexo masculino. As sábias mulheres, tementes a Deus, deixaram as crianças viverem e justificaram-se ao rei do Egito, dizendo: “As mulheres dos hebreus não são como as egípcias. São cheias de vida e, antes que as parteiras cheguem, já deram à luz” (Ex 1,19).
Em razão do protagonismo das supracitadas parteiras em defesa da vida, o Faraó se viu forçado a ordenar que seu povo jogasse os filhos dos hebreus, quando meninos, no rio – logo após o nascimento. Em meio a esse contexto de assassinatos neonatais, nasceu Moisés. Sua mãe, após dar à luz, conseguiu esconder o pequenino durante três meses. Passado esse tempo, e não tendo como fugir das rondas egípcias, ela o colocou em um cesto de vime, calafetado com betume e piche, e o depositou nos juncos à beira do rio. Mais uma vez, a argúcia e o protagonismo feminino salvaram vidas e construíram historia.
O menino foi encontrado pela filha do Faraó, enquanto sua irmã Mirian observava tudo de longe. Com coragem e cuidado, Mirian permaneceu atenta para garantir que nada de mau acontecesse ao irmão. Ao ver que um bebê chorava, a filha do Faraó o encontrou e teve compaixão, decidindo adotá-lo como seu filho. Mirian então se aproximou e sugeriu que encontrassem uma ama de leite para cuidar dele. Assim, a própria mãe de Moisés pôde amamentá-lo e cuidar dele secretamente, garantindo sua proteção sob os cuidados da filha do Faraó. É… As mulheres bíblicas se agigantam em seu protagonismo em defesa da vida! Com isso, podemos perceber que a missão feminina é a de salvar. As parteiras, a mãe, a irmã e até mesmo a filha do Faraó, agem em benefício de preservar a vida. Algo impensável, se a situação tivesse se apresentado de forma diferente, pois podemos imaginar o que teria acontecido se quem encontrasse o menino fosse um filho do Faraó? Caminhemos mais adiante nesta história.
Quando adulto, Moisés se deparou com a injustiça de um egípcio maltratando um hebreu e acabou intervindo, chegando a matar o opressor. Temendo pelas consequências, ele fugiu do Egito e refugiou-se na terra de Madiã. Ali, casou-se com Séfora, filha do sacerdote Jetro. Em outros momentos o livro do Êxodo, o sogro de Moisés é chamado de Ragüel. E assim Moisés se estabelece como migrante, refugiado em Madiã, ocupando-se de cuidar de ovelhas.
Foi nesse período de silêncio e afastamento que Moisés se preparou para sua grande vocação. A vida em Madiã, simples e tranquila, foi um tempo de aprendizado, reflexão e fortalecimento da fé. Sem saber, ele estava se preparando para se tornar o líder que libertaria seu povo da escravidão e conduziria os hebreus à terra prometida.
Assim como a missão feminina se revelou na proteção e preservação da vida, a vocação de Moisés se manifestou na liderança e na libertação do povo hebreu. Deus o escolheu não apenas para sobreviver às ameaças do Faraó, mas para guiar um povo inteiro à liberdade e à terra prometida.
O chamado de Moisés, que mais tarde se revelaria no fenômeno admirável da sarça ardente (cf. Ex 3,1-6), mostra que sua vocação está profundamente ligada à justiça, à coragem e à fé. Ele se tornou um mediador entre Deus e o povo, assumindo enormes responsabilidades e aprendendo a confiar na direção divina, mesmo diante de desafios aparentemente impossíveis.
O protagonismo de Moisés soma-se ao de Mirian que não apenas protegeu Moisés no início de sua vida, mas continuou atuando como líder e profetisa durante a travessia do deserto. Ela guiava o povo com sabedoria, apoiava Moisés em momentos de dificuldade e conduziu cânticos de louvor a Deus após eventos importantes, como a travessia do Mar Vermelho. Assim, Mirian se mostra um exemplo de coragem, fé e serviço contínuo, demonstrando que o papel feminino na Bíblia se manifesta tanto na proteção da vida quanto na liderança da comunidade.
Dessa forma, podemos ver que, desde os primeiros momentos de sua vida, Moisés foi chamado a ser um instrumento de salvação e liderança. Sua história nos lembra que a vocação é um dom que se descobre e se cumpre através da confiança em Deus e do serviço aos outros. Por isso, a vida de Moisés continua a inspirar todos os que são chamados a liderar com coragem, fé e temor ao Senhor, rumo à terra da liberdade e da vida.
Sobre a autora

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
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