Por Pe. Robertos Carlos Marquez, SX
Quando abrimos o livro do Gênesis, não encontramos apenas relatos antigos, mas o eco vivo de um Deus que continua a falar ao coração humano. Entre tantas figuras, Abraão se destaca como aquele que, ouvindo a voz do Senhor, deixou para trás terra, segurança e vínculos familiares para seguir rumo ao desconhecido. Ele não sabia todos os detalhes do caminho, mas sabia em quem estava confiando. Sua vida tornou-se um sinal para todos os que, ao longo dos séculos, seriam chamados a caminhar pela fé.
O chamado de Abraão é mais que uma página da história da salvação: é um paradigma para todo discípulo missionário. Deus não o convidou a viver uma fé isolada, mas a ser origem de um povo, a abrir caminhos para que a bênção chegasse a todas as nações. Essa vocação — pessoal e comunitária ao mesmo tempo — continua sendo a marca do cristianismo autêntico: somos chamados para formar laços, para construir fraternidade e para anunciar o Evangelho com a vida, com gestos concretos de proximidade e cuidado. É essa mesma inspiração que percorre as páginas desta edição, onde encontramos testemunhos vocacionais e experiências missionárias que mostram como, ainda hoje, Deus chama e envia pessoas para serem sinais vivos da sua presença no mundo.

Em nossos dias, marcados pela pressa, pela fragmentação e por uma crise de pertencimento, o testemunho de Abraão nos provoca. Ele não se apoiou em garantias humanas, mas na promessa de Deus. E nós, tantas vezes cercados de recursos e informações, ainda hesitamos diante da entrega total. O Papa Francisco nos recordava que não existe futuro sem fraternidade, e que a missão nasce dessa proximidade real com as pessoas, com suas alegrias e dores, com sua história concreta. Ser missionário hoje é resistir à lógica do isolamento e acreditar que Deus nos chama para tecer comunhão, derrubar muros e construir pontes.
Responder ao chamado de Deus significa aprender a parar para escutar, deixar-se deslocar e viver com disponibilidade para servir. Significa também reconhecer que a fé é um dom que não podemos guardar para nós mesmos: ela se fortalece e se renova quando partilhada, na simplicidade de um abraço, na escuta silenciosa, na oração perseverante e no testemunho de vida. É aceitar que Deus pode nos pedir passos que parecem grandes demais, mas que se tornam possíveis quando nós nos apoiamos n’Ele.

Como Abraão, somos convidados a dar passos firmes mesmo quando o horizonte é incerto, confiando que “Deus permanece fiel às suas promessas”. Ao longo destas páginas, você encontrará histórias, reflexões e testemunhos que mostram que esse chamado continua vivo, atravessando gerações, culturas e fronteiras. Ele ressoa no coração daqueles que se deixam guiar pelo Espírito e que, com coragem, dizem “sim” à missão.
Que estas reflexões ajudem a cada leitor a identificar, no silêncio ou no ruído da vida, a voz de Deus que chama. E que, como Abraão, possamos responder com fé e disponibilidade: “Eis-me aqui, Senhor, envia-me!”.
Colaborou: Missionários Xaverianos
Deixe um comentário