Por Pe. Hermes A. Fernandes
Maria: a Bem amada de Deus. Do hebraico מרים, Miryam, que significa “senhora ou soberana”. Há também quem aponte como possível tradução “a puríssima”. Soberania e pureza cercam o nome daquela que foi a predileta, a amada de Deus; pois esta também pode ser uma possível tradução para nome Miryam: A Bem Amada de Deus. Traduzido livremente como Maria, do hebraico. Amada, escolhida como o ventre a abrigar o Mistério da Salvação. E se é para o Altíssimo tão cara, por que não seria para nós?
Maria se faz grande em sua pequenez. Não estava nos palácios herodianos aquela que seria a Mãe de Jesus. Assim como grande parte dos personagens bíblicos, a Mãe de Jesus veio do meio dos pobres. Em Nazaré da Galileia, Deus encontrou graça em uma jovem de nome Maria (cf. Lc 1,28). Bela e formosa, simples e humilde, encontra em Deus a graça por alimentar fidelidade e amor ao Deus da promessa. A sua participação nas festas (cf. Jo 2,1-10), na comunidade (cf. At 1,14) e no sofrimento (cf. Jo 19,26) aponta para uma inversão da lógica social do seu tempo. Ela vem “sintetizar” as mulheres profetisas do Antigo Testamento, cuja única honra era educar os filhos para a Lei. Maria faz sua parte, como protagonista na História da Salvação, que tem seu Filho, Jesus, como redentor.
Desde o tempo dos profetas que o povo de Israel esperava um Messias, mas um Messias que viesse glorioso e com forte exército para dominar o poder romano, o qual explorava e oprimia a maioria pobre e marginalizada. Mas Jesus pede que se trouxesse um jumento, animal usado para o trabalho e não para as guerras, e entra em Jerusalém aclamado como rei. Ele não aceita o poder da terra e vem revestido do amor. Essa experiência do amor de Deus anunciado por Jesus é a grande reviravolta para confrontar uma sociedade injusta. Enquanto César e seus servidores o viam como agitador político, Jesus dava o testemunho e sua Palavra anunciava um Reino de justiça e de vida para todos. Jesus vem anunciar que o maior sinal de sua messianidade é o amor. Esse amor desinteressado e exigente convoca cada pessoa a cuidar da vida, a cuidar do outro para que a vida prevaleça. O Messias, Servo Sofredor, realiza o Mistério Pascal em sua Vida, Morte e Ressurreição. Anunciando as promessas do Reino, redimindo nossas culpas, inspirando os primeiros discípulos para dar continuidade ao seu Mistério: a instauração do Reino de Deus. E em tudo isso, Maria participava, meditava e guardava em seu coração (cf. Lc 2,16-21).
Tanto participou do Ministério de Jesus e do nascer da Igreja que, em Apocalipse, é vista de forma análoga a ela, a Igreja. A mulher é Maria, Mãe do Senhor, parturiente da esperança que é Jesus. A mulher em Apocalipse também é a Igreja, parturiente do Reino.
O texto bíblico de Apocalipse 12 faz um apelo de resistência e esperança para os cristãos que sofriam em tempos de perseguição. Apocalipse é um termo grego que significa revelação ou tirar o véu, mostrar o verdadeiro sentido da história e recuperar a esperança. O objetivo do texto é oferecer consolação e esperança na vitória última do Senhor aos cristãos provados em sua fé. João, exilado na ilha de Patmos, quer se comunicar e não pode usar uma linguagem clara diante da perseguição do império romano. Por esse motivo, usa uma linguagem simbólica com a comunidade. Esta conhece os elementos que o autor do texto usa. Os protagonistas desse texto são a mulher, o dragão e a criança. A saber: a mulher é a força do ser e da vida; o dragão é o poder do mal, da destruição e da morte; a criança é a inocência, a origem, a possibilidade, a promessa (cf. BOFF, 2006).
De um lado, a mulher, que representa a humanidade, os que acreditam (cf. Lc 1,46). Do outro, o dragão, que tenta perseguir aqueles que acreditam no Reino de Deus para derrotá-los. O dragão acredita apenas no próprio poder. Quem vai ganhar essa luta? Humanamente falando, a mulher vai perder… Mas Deus intervém, coloca-se ao lado da mulher, e o dragão da maldade e da morte foi derrotado (cf. MESTERS, 1983).
Estes são elementos importantes a se compreender e, a partir daí, tidos como referência para alimentar a mística e a práxis; uma vez que muitos cristãos se encontram cansados e desanimados da sua ação pastoral, permitindo que os “dragões” da sociedade devorem a criança que quer nascer.
Quem hoje sofre as dores do parto ou se sente perseguido por algum dragão da sociedade? Hoje são muitos os “partos” sofridos, interrompidos, descuidados, por conta do descaso das autoridades e da sociedade para com grande parte da população: faltam atendimento médico e escolas, são altos os índices de pobreza, de violência, de corrupção, de maus serviços prestados por certos profissionais de saúde… O dragão revestiu-se da roupagem da modernidade, da globalização e do neoliberalismo. E o dragão dos poderes de morte continua a agir. Talvez muitos não consigam identificá-lo, e esse é o grande empecilho para que seja derrotado. As relações humanas devem estar pautadas nos valores da vida: para nós, cristãos, valores humanos, que primam pela dignidade que lhe é inerente. Porém, se os procurarmos na família, nos meios de comunicação, no mundo do trabalho, da educação, da política, da saúde e da economia, sentiremos sua ausência. E é justamente a ausência desses valores nos nossos relacionamentos que corrompe a fraternidade e a solidariedade nos mais diversos ambientes.
Por outro lado, há famílias e comunidades que resistem à força dos dragões da sociedade e pautam sua vida na ótica e modelo de Jesus de Nazaré, cuja memória foi exemplo para as comunidades perseguidas do Apocalipse.
A Igreja no século XXI não sofre aquelas perseguições do período de 81-96 d.C., durante o governo de Domiciano, embora sofra outros tipos de perseguição e violência em diversos lugares. Sofre, também, os males do descaso, da indiferença, do preconceito. O primeiro grande desafio dos nossos tempos é o da fidelidade ao Deus verdadeiro. Nas palavras de Jesus, encontramos o imperativo: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33).
E, diante de tantas dificuldades, o Evangelho da Liturgia da Solenidade da Bem-aventurada Virgem Maria da Conceição Aparecida, nos lembra a exortação da Mãezinha do Céu: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5b).
O Evangelho da Liturgia é Jo 2,1-11. O cenário é a celebração de um casamento. Maria ali estava como convidada e, quem sabe, colaboradora (Jo 2,1b-2). Tanto o é que percebeu o que acontecia no interior da casa, a falta de vinho (Jo 2,3). Uma informação que se pode inferir do relato joanino é que se tratava de uma festa em casa de pessoas simples, gente pobre, pois o vinho não foi suficiente. A preocupação de Maria, vindo a interpelar seu Filho, se fundamenta na necessidade de que os pobres precisam se organizar e, revestidos de fraternidade e sororidade, solidarizarem-se, construindo redes de partilha. O problema de um é de todos e todas. Para Maria pareceu inconcebível a humilhação que poderiam sofrer os anfitriões da festa. Ela interfere: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3b). E Jesus, mesmo ciente de que aquele ainda não era o momento de revelar sua messianidade, por sinais públicos de sua relação íntima com o Pai, atende sua mãe. Claro que a exegese nos aponta questões mais profundas em seu simbolismo. Outrossim, não podemos deixar de sublinhar a ação solidária de Maria diante da aflição dos que celebravam algo tão importante. As bodas, um casamento, na cultura do povo judeu no tempo de Jesus, simbolizava mais do que a união de dois corações apaixonados. É a celebração da continuidade de um povo, da descendência, do cumprimento das promessas de Iahweh a Abraão (cf. Gn 15,5-6). É neste contexto que Jesus realiza o primeiro milagre (sinal, na linguagem joanina), em Caná da Galileia, transformando a água em vinho.
Teologicamente podemos refletir que ele, Jesus, é o esposo que celebrará as núpcias com a humanidade. O casamento reflete o contexto da “Aliança” entre Israel e o seu Deus. A falta de vinho é a constatação de que a antiga “Aliança” tornou-se uma relação seca, sem alegria, sem amor e sem festa. As seis talhas com água: aqui se sublinha que são seis, número imperfeito, pois não se trata de sete, número que significa a plenitude de Deus. Estas seis talhas mostram a relação estéril do judaísmo normativo, onde a observância rígida da Lei, rompeu a relação íntima entre Iahweh e seu povo. Maria, a “Mãe”, percebe a dificuldade desta esterilidade. Portanto, Maria representa a Israel fiel, que esperava o Messias para transformar essa situação, atualizando o sentido da Lei, pela Misericórdia. Os “serventes” são os que colaboram com o Messias, que estão dispostos a fazer tudo “o que ele disser” para que a “Aliança” seja revitalizada.
Há um versículo, ou melhor, uma frase neste evangelho que incomoda muita gente. Quem não ficou com uma “pulga atrás da orelha” ao ler a resposta inicial de Jesus a sua Mãe? Vejamos: “Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: ‘Eles não têm mais vinho’. Jesus respondeu-lhe: ‘Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou’ (Jo 2,3-4). A “Hora” suprema de Jesus acontecerá na Cruz, quando ele faz de sua vida doada a Nova Aliança. No Mistério Pascal de Jesus se revela toda sua glória e messianidade. Todavia, Jesus antecipa a Hora, manifesta sua messianidade a pedido de sua Mãe. E os discípulos creram nele.
Voltando à Solenidade que estamos a celebrar, é bom lembrarmos que a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada no Rio Paraíba do Sul, em 1717, por três pescadores: João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia. Não obstante os vários revezes desta história, é inegável a constatação de que o encontro da imagem da Virgem no rio se insere em um contexto de muito sofrimento que era infligido aos pobres. Assim como Maria protagonizou com seu Filho no contexto de opressão romana, a Virgem Aparecida é encontrada em um contexto de muitos opróbrios, apontando a pessoa de seu Filho, Jesus, como quem ressignifica a história daqueles e daquelas que estão em sofrimento (cf. Lc 4,16ss).
A história da padroeira do Brasil sintetiza o gesto de amor de Jesus e de seu Pai por todos os que são afligidos por sofrimentos. Deus escolhe os pobres como seus prediletos. E hoje? O que isso nos implica?
Para ser verdadeira presença de Igreja, ser a “imagem” de Cristo no mundo de hoje, é preciso que nosso comportamento seja semelhante ao de Jesus Cristo, que recusou todas as tentações de dinheiro, prestígio, consumo e poder. Estas tentações provocam desigualdades e, na mesa de muitos, pode faltar o “vinho da festa”, ou seja, o sustento e a alegria. E neste caminho de discernimento e escolha pelos pobres, Maria de Nazaré nos aponta: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5b)
Na Exortação Apostólica Marialis Cultus, Maria é aquela que “aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus (cf. Lc 1,38): porque soube acolher a sua Palavra e pô-la em prática, porque a sua ação foi animada pela caridade e pelo espírito de serviço e porque, em suma, ela foi a primeira e a mais perfeita discípula de Cristo, o que, naturalmente, tem um valor exemplar universal e permanente”.
Pensando em todas estas questões, não podemos deixar de perceber Maria como íntima partícipe do Mistério da Salvação. Seu exemplo de fé, seu “sim” comprometido, não só nos inspira, impele-nos! Se Maria participou intimamente da palavra e ação de Jesus, seu Filho, devemos nós, com ela, construir o Reino, consequente destas palavras e ações.
Neste 12 de outubro, especialmente dedicado à Mãe de Jesus, celebrando-a como padroeira do Brasil, devemos voltar nosso coração à Nazaré. Reviver a história da Virgem e, com ela, sermos todos Bem amados do Pai. Sejamos imitadores de suas virtudes, revestidos de amor filial, companheiros no caminhar desta primeira cristã. Com a fé, a esperança e a coragem da Predileta do Pai; sigamos no caminhar e no ser Igreja. E, neste impulso de compromisso e profecia, não esqueçamos de rezar: Ave Maria, cheia de graça… É neste rezar que sintetizamos nosso viver eclesial. Em Maria vamos do Presépio à Cruz. Do nascer da Igreja, ao Reino Definitivo.
Referências
ÁLVAREZ, Carlos G. Maria, discípula de Jesus e mensageira do evangelho. São Paulo: Paulus, 2007.
BOFF, Clodovis. Mariologia social: o significado da Virgem para a sociedade. São Paulo: Paulus, 2006.
BUCKER, Bárbara P.; BOFF, Lina; AVELAR, Maria Carmen. Maria e a Trindade: implicações pastorais – caminhos pedagógicos – vivência da espiritualidade. São Paulo: Paulus, 2002.
CELAM. Documento de Aparecida (DAp). São Paulo: Paulus: Paulinas; Brasília: CNBB, 2007.
DOCUMENTOS DO CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium (LG). São Paulo: Paulus, 2004.
MESTERS, Carlos. Maria, a mãe de Jesus. Petrópolis: Vozes, 1983.
PAULO VI. Marialis Cultus (MC). São Paulo: Loyola, 1975.
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