Solidariedade com os pobres e marginalizados

Por Estevão Raschietti, sx

A solidariedade com os pobres e com os marginalizados hoje, precisa ir mais além dos pequenos gestos de caridade e de compaixão. Deve se tornar um projeto de vida integral para cada um dos discípulos e das discípulas missionários, que tem como premissa uma adesão incondicional ao Evangelho de Jesus, que por sua vez envolve uma peculiar visão de mundo, uma mudança de mentalidade, um despojamento pessoal. Papa Francisco uma vez disse que o cristão não se subtrair da centralidade dos pobres no Evangelho: essa é uma questão de fé que não se pode negociar.

Vamos, portanto, tentar endentes porque é os pobres representam uma questão de fé: quem são os pobres para os cristãos?

Escolhidos. No Êxodo, Deus escolhe os pobres, desce para libertá-los da escravidão, para fazê-los subir até a Terra Prometida. Essa dinâmica diz respeito à essência de Deus Amor e à sua missão no mundo como libertador dos oprimidos. O Documento de Puebla (1979) afirma que os pobres, “criados à imagem e semelhança de Deus para serem seus filhos, esta imagem jaz obscurecida e também escarnecida. Por isso Deus toma sua defesa e os ama” (DP 1142). A própria predileção por parte de Javé pelo povo de Israel corresponde a uma escolha de amor gratuito para com os indefesos e os pequenos. Deus não fica do lado do poderoso e do vitorioso, mas do lado dos vencidos e dos humilhados: “Se Javé se afeiçoou a vós e vos escolheu, não é por serdes o mais numeroso de todos os povos – pelo contrário: sois o menor dentre os povos! – e sim por amor a vós e para manter a promessa que ele jurou aos vossos pais” (Dt 7,7-8a).

Eleitos. O ponto de chegada dessa promessa por parte de Deus é representado pelas bem-aventuranças do Evangelho. A esperança dos pobres gravita em torno da imagem do Reino proclamado por Jesus. Os destinatários desse Reino são os famintos, os injustiçados, os oprimidos, os aflitos, os prisioneiros, os cegos, os surdos, os enfermos, os maltrapilhos. Essa boa notícia para os pobres é imediatamente notícia ruim para os ricos e os poderosos (cf. Lc 1,52-53). O Reino de Deus vem fazer justiça, ou seja, julgar e condenar, não somente salvar e libertar. No entanto, o anúncio de Jesus é dirigido a todos, convida à conversão e ao despojamento como condições essenciais para a entrada no Reino, cuida para que ninguém se perca, alegra-se pelo arrependimento de todo pecador. Rico tem que deixar de acumular e se tornar companheiro dos pobres. Mas isso é muito difícil (cf. Mt 19,16-26).

Chamados. Contudo, os pobres não simples objeto da misericórdia de Deus e de suas promessas. Eles são chamados a tornar-se sujeitos e protagonistas do anúncio e da realização do Reino, convertendo-se em Boa Nova para a Igreja e para toda humanidade. A Igreja na América Latina percebeu o potencial evangelizador dos pobres, “enquanto estes a interpelam constantemente, chamando-a à conversão e porque muitos deles realizam em sua vida os valores evangélicos de solidariedade, serviço, simplicidade e disponibilidade pa­ra acolher o dom de Deus” (DP 1147). O Documento de Aparecida também reafirma: “Dia a dia os pobres se tornam sujeitos da evangelização e da promoção humana integral: educam seus filhos na fé, vivem uma constante solidariedade entre parentes e vizinhos, buscam constantemente a Deus e dão vida ao caminhar da Igreja” (DAp 412).

Enviados. E tem mais. Os pobres não são apenas os destinatários e protagonistas do projeto de Deus. As vítimas das injustiças também são a manifestação por excelência de Deus, missionários e enviados como mensageiros do Pai, presença viva do Filho e “gerados” pelo Espírito, que na tradição cristã é chamado de “Pai dos pobres”. O Documento de Aparecida declara que “o encontro de Jesus Cristo nos pobres é uma dimensão constitutiva de nossa fé em Jesus Cristo” (DAp 272).  Para a Igreja, os pobres se tornam um “sacramento universal de salvação”, caminho necessário para Deus. “Fora dos pobres não há salvação – disse uma vez Dom Pedro Casaldáliga – fora dos pobres não há Igreja, fora dos pobres não há o Evangelho”.

Reconhecidos. A Igreja sente forte esse chamado do Senhor que, como diz o Documento de Santo Domingo, “nos pede que saibamos descobrir seu próprio rosto nos rostos sofridos dos irmãos” (DSD 179). Isso “desafia todos os cristãos a uma conversão pessoal e eclesial” (DSD 178), para “conseguir uma identificação cada dia mais plena com Cristo pobre e com os pobres” (DP 1140) e para que a nossa Igreja se torne sempre mais “companheira da caminhada de nossos irmãos pobres, inclusive até o martírio” (DAp 410).

Testemunhados. É necessário, portanto, que a Igreja se faça pobre a imitação dos pobres, redescobrindo na pobreza a sua maneira melhor de testemunhar e anunciar o Evangelho. “A pobreza evangélica une a atitude de abertura confiante em Deus com uma vida simples, sóbria e austera, que aparta a tentação da cobiça e do orgulho” (DP 1149). E a Conferência de Aparecida salienta: “os discípulos e missionários de Cristo promovem uma cultura da partilha em todos os níveis em contraposição a uma cultura dominante de acumulação egoísta, assumindo com seriedade a virtude da pobreza como estilo de vida sóbrio para ir ao encontro e ajudar as necessidades dos irmãos que vivem na indigência” (DP 559). Diante dos apelos dos pobres, a Igreja “sente a urgência de traduzir esse espírito de pobreza em gestos, atitudes e normas, que a tornem um sinal mais lúcido e autêntico do Senhor” (Documento de Medellín, Pobreza da Igreja, 7).

Assumidos. Além de ser sinal, a Igreja é chamada a assumir o compromisso de solidariedade com os crucificados da história e com suas causas. Ela é “firme e irrevogável” (DSD 178), diante da exigência do anúncio do Reino de Deus e da denúncia do anti-reino: o reino do pão não partilhado, da ganância, do poder, do privilégio, da acumulação, da ostentação, do prestígio. Os deuses do anti-reino exigem cultos e vítimas expiatórias. Os pobres são as vítimas desse anti-reino, porque a pobreza deles está diretamente ligada à riqueza dos outros que não querem partilhar.

A solidariedade com os pobres e marginalizados implica um deslocamento fundamental, em termos de perceber e questionar a realidade do mundo a partir das vítimas e dos injustiçados. Implica também, e sobretudo, a adesão a um projeto de mundo global mais justo e solidário, significativamente “outro” daquilo que temos diante dos olhos: sem agressões à natureza, tão brutalmente depauperada por esta nossa civilização industrial; sem prepotências pessoais, ou nacionais, ou imperiais, para possibilitar o diálogo e a paz entre povos e culturas; sem consumismos desenfreados que necessariamente produzem a fome e a exclusão. Um mundo sem Lázaros e sem Epulões. “Uma família de mais ou menos todos iguais”, como pedia generosamente o patriarca sertanejo da Ilha do Bananal.

Colaborou: Missionários Xaverianos


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