Deus nos chama a partir da história — Parte 5: Mirian, a Profetisa do Cântico de Libertação e Guardiã da Vida

“Cantai ao Senhor, que se cobriu de glória,
precipitou no mar o cavalo e seu cavaleiro!”

(Ex 15,21)

Por Karina Moreti

O livro do Êxodo desenvolve dois temas principais: a libertação do povo e a aliança feita no Sinai. Estes temas são interligados pelo caminho no deserto. E sempre que falamos em Êxodo, muitos se lembram apenas de Moises. Porém, será que ele fez tudo sozinho? Como vimos no texto anterior, Moisés teve o auxílio de muitas mulheres e chegou o momento de percorrermos o caminho da vida de Mirian. Vamos seguir em nossa jornada pelo mundo bíblico?

A história da salvação se constrói não apenas pelas grandes figuras masculinas. Os relatos bíblicos intercalam momentos, nos quais surgem mulheres que, com coragem, intuição e fé; colaboram ativamente na missão do projeto de Deus. Entre elas está Mirian, irmã de Moisés e Aarão, cuja presença protagoniza situações decisivas do Êxodo.

Mirian aparece pela primeira vez na história da salvação em Êxodo 2. Segundo o relato bíblico, a mãe de Moisés deposita o menino no cesto, confiando-o ao rio Nilo. Mas é a irmã, Mirian, que vigia de longe, atenta e pronta para intervir. Quando a filha do Faraó encontra a criança, a menina se aproxima com ousadia e sugere uma ama de leite hebreia — a própria mãe do bebê. Assim, graças à sua iniciativa, Moisés é salvo e preserva a identidade de seu povo. Mirian se revela mãe da vida e cúmplice da promessa.

Na travessia do Mar Vermelho, após a vitória de Deus sobre o faraó, o povo canta. E a Escritura é clara: “Mirian, a profetisa, irmã de Aarão, tomou o tamborim na mão, e todas as mulheres a seguiram” (Ex 15,20). O primeiro cântico de libertação da história bíblica nasce da voz de uma mulher. Com tamborim e dança, Mirian traduz a experiência da salvação em gesto comunitário, fazendo do corpo e da música um espaço de profecia.

No deserto, Mirian não desaparece. Ao contrário, participa ativamente das tensões da comunidade. Em Números 12, junto a Aarão, questiona a liderança de Moisés. Sua crítica lhe traz a lepra como castigo, mas o povo todo aguarda a sua purificação para seguir viagem. O texto sugere que, mesmo em situação de conflito, Mirian era indispensável: ninguém caminha sem ela!

Séculos depois, o profeta Miquéias recorda: “Eu te enviei diante de ti Moisés, Aarão e Mirian” (Mq 6,4). O próprio Deus inscreve o nome da profetisa na memória da salvação, ao lado dos grandes líderes. A missão de Mirian não se restringiu a episódios isolados, mas marcou a identidade de Israel.

Seu cântico singrou ao longo da história até desaguar no Magnificat de Maria. Ambas erguem a voz para proclamar a vitória de Deus: Mirian após a libertação do Egito; Maria ao acolher a encarnação do Messias. Mirian canta que o Senhor triunfou sobre o opressor; Maria anuncia que Deus “derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes” (Lc 1,52). Assim como Mirian foi voz profética das mulheres do Êxodo, Maria é a voz profética da Igreja nascente.

O refrão de Mirian é o primeiro hino de libertação na Bíblia, e o Magnificat é a sua plenitude. Ambos são cânticos de mulheres profetisas, que celebram a vitória de Deus e proclamam a justiça para os pobres e oprimidos.

Mirian nos ensina que a salvação é também guardada, celebrada e anunciada pelas mulheres. Ela vigia, canta, critica, espera e conduz. E sua voz permanece viva no Magnificat de Maria e em cada mulher que, na história, transforma o silêncio em profecia. Em tempos de escravidões modernas, de desertos pessoais e coletivos, precisamos novamente do cântico de Mirian: um louvor que nasce da esperança e se abre para a libertação.

É interessante observar que nos dois casos Deus é o protagonista absoluto. Mirian convida o povo e canta: “Cantai ao Senhor, que se cobriu de glória, precipitou no mar o cavalo e seu cavaleiro” (Ex 15,21). Maria, em sua visita a Isabel, exorta: “O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, e Santo é o seu nome” (Lc 1,49). A libertação não é obra humana, mas divina. Porém, é preciso que façamos a nossa parte.

Nos dois cânticos, a justiça divina inverte a lógica do poder: os opressores caem, os pequenos se levantam. Mirian celebra a derrota do exército do faraó, símbolo da violência e da escravidão. Maria anuncia que Deus derruba do trono os poderosos e exalta os humildes.

O canto não é algo pessoal; é voz de um povo. O cântico de Mirian é uma resposta comunitária. Ela não canta sozinha, mas lidera as mulheres em forma de dança e tamborim. Maria canta em nome de Israel e da Igreja nascente, tornando-se voz dos pobres de todos os tempos.

Mirian aponta para a libertação histórica do Egito: escravidão rompida, inimigos vencidos, caminho aberto no mar. Maria indica a libertação definitiva em Cristo, a salvação universal — promessa cumprida, misericórdia que se estende “de geração em geração” (cf. Lc 1,50).

Mirian nos deixa uma lição que atravessa milênios: a salvação é obra de Deus, mas se realiza na história quando somos capazes de responder com coragem, perseverança e louvor. Seu cântico não é apenas recordação de um triunfo passado; é convite a viver a profecia no cotidiano, a transformar desertos em lugares de encontro com Deus.

O refrão de Mirian e o Magnificat de Maria nos mostram que o canto é linguagem de liberdade. É um grito que nasce do profundo reconhecimento da ação divina, da experiência de sermos libertos e chamados a anunciar essa libertação ao mundo. Em ambos, a justiça de Deus inverte a lógica do poder: os opressores caem, e os humildes se levantam. Essa é a essência da profecia — proclamar a obra de Deus e exortar a comunidade a viver a fidelidade ao Senhor.

Assim, a memória de Mirian permanece viva. Ela não é apenas história antiga; é inspiração para cada mulher e homem que se dispõe a cantar a libertação no meio dos desafios, a ser guardião e guardiã da vida, a tornar presente no hoje a promessa de salvação. Que possamos ouvir o chamado que ecoa desde Mirian até Maria, e responder com coragem: cantar ao Senhor, reconhecendo que Ele se cobriu de glória e nos conduz ao caminho da vida.

Referências

AMBROSIO. Expositio Evangelii secundum Lucam. In: CSEL 32/4. Viena: Tempsky, 1902.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.

RADERMAKERS, J. Êxodo: Deus liberta o seu povo. São Paulo: Loyola, 1997.


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