A Fé e a Perseverança dos Pobres, como projeto de construção do Reino de Deus (Lc 18,1-8)

“Do Senhor é que me vem o meu socorro, do Senhor que fez o céu e fez a terra.”
(Salmo 120)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Mais uma vez, estamos diante de um texto do Evangelho de Lucas que está ligado ao contexto da viagem de Jesus com seus discípulos à Jerusalém. A partir do capítulo 9 de Lucas, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para a Capital do poder religioso e político, a Cidade Santa, Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão. Afinal, também eles serão responsáveis pela continuidade do anúncio da Boa Nova após a Ascensão e Pentecostes.

Dando sequência ao tema do Evangelho do 27º Domingo do Tempo Comum, que falava da fé que leva ao compromisso, neste 29º domingo, a liturgia nos apresenta o tema da perseverança na oração. No domingo passado fizemos uma pausa na sequência de Lucas para beber das fontes marianas, e celebrar nossa amada Mãezinha do Céu, Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Vivemos em tempos, nos quais as dores e desesperanças podem nos levar a esmorecer durante o caminho. Muito já nos foi dito e exigido. Tanto que muitas pessoas simplesmente desistem de tudo, desanimados na esperança pelos frutos da justiça. São muitas as misérias ao nosso redor, os discursos de ódio, as desigualdades sociais. E ainda fomos afrontados por legisladores que se dedicam herculeamente na defesa de seus intentos criminosos e se esquecem de que o direito e a justiça são imperativos divinos. O fardo que pesa sobre as costas de nosso povo é pesado, o caminho é árduo. E diante dos muitos desafios que a sociedade nos interpela, ainda temos religiosos e religiosas que, quando não se fazem insensíveis às dores dos pequeninos, lamentavelmente corroboram para a perpetuidade deste sistema de exploração, opressão e marginalização. Não seria a religião um caminho de libertação integral da pessoa humana? Ainda hoje vemos muitos pregadores insensíveis e vazios de Deus, pois não reconhecem nele o Pai que acolhe, ama e liberta seus filhos, como vimos na primeira leitura da liturgia, quando Moisés e o povo hebreu sentiam a proximidade dele na caminhada rumo à terra da liberdade e da vida (cf. Ex 17,8-13). São religiosos e religiosas que anunciam seus próprios reinos, e não o Reino de Deus. Somos chamados pelo Evangelho de hoje, em Lc 18,1-8, a confiar neste Pai libertador e a Ele clamar com ousadia e perseverança. Mais do que clamar, somos chamados a participar. Vivendo uma religião libertadora, concomitante com a história de Deus e a humanidade, uma história de amor que liberta. É isso que o Evangelho nos ensina. Primeiramente é preciso buscar a justiça com perseverança, sem nunca desanimar. Certos de que Deus é Pai e vai nos libertar com Justiça (cf. Lc 18,1-8).

Na catequese de Jesus, ambientada na caminhada dele com seus discípulos até Jerusalém, temos a Parábola da Viúva Insistente. Antes de se entrar na parábola propriamente dita, é bom lembrar que no contexto do povo israelita daquele tempo, as viúvas e os órfãos representavam os mais excluídos e marginalizados da sociedade. Em uma mentalidade do produtivismo e da descartabilidade da vida, um órfão era abandonado à própria sorte. Em verdade, toda criança era vista com certo desdém. Não tinha idade para produzir, sendo assim responsabilidade dos pais. E ainda se tinha certa imprevisibilidade sobre o destino de suas vidas, portanto, uma criança era uma incógnita. Não se sabe qual será o futuro de uma criança. Por isso, na cultura daquele tempo, crianças não eram sequer bem-vindas nas conversas familiares e sociais. Crianças ainda não eram consideradas membros da sociedade, sem autonomia financeira; portanto eram vistas como um estorvo. Agora, imagine um órfão? Marginalização e exclusão era seu destino. E as viúvas? Ora, visitando o Primeiro Testamento pelo livro de Rute, podemos nos lembrar de que às mulheres eram negados quaisquer direitos que configuravam o conceito de cidadania. Nem mesmo a herança deixada pelo finado marido lhe era de direito. Por isso, era preciso que um homem – filho, irmão ou parente próximo – assumisse a responsabilidade pela herança. É o que vemos na Lei do Levirato (cf. Dt 25,5-10) e a Lei do Resgate, por meio de um Göel (cf. Rt 4,1-7). Às mulheres era negado o direito à autonomia financeira e a gestão de seus bens. Cabia a um homem assumir tais direitos em caso da viuvez de uma mulher. De fato, a vida não era fácil para as mulheres, quanto mais em se tratando de viúvas.

A parábola (Lc 18,1-8) tem dois aspectos acumulados. Originalmente, nos chama a atenção para o juiz e o contrapõe a Deus: se um juiz injusto atende ao clamor de uma viúva insistente, quanto mais Deus, que é Pai e misericordioso. Certamente, Ele atende pressurosamente ao clamor de seus filhos. Além da afirmação de que Deus é misericórdia e compaixão, a parábola insiste na perseverança da oração como gesto de fé e confiança. Se em Lc 17,5-10 temos uma catequese sobre a fé que se traduz em compromisso e serviço, Lc 18,1-8 aponta para a oração que se traduz em confiança e ousadia. A oração não pode, nem deve ser alienada de nossa realidade. Há todo um profetismo em orar. Vejamos!

Primeiramente, lembrando-nos de como viviam as viúvas daquele tempo, devemos nos perguntar: quem são as viúvas de nossos tempos? São todos aqueles e aquelas que estão em situações, nas quais seus direitos são vilipendiados. E não são poucos os que se colocam nesta lancinante experiência. A parábola nos aponta que orar não pode significar olhar para o Céu e esperar que se faça o milagre. É preciso protagonismo. Há uma íntima ligação entre Lc 18,1-8 e Lc 11,5-12. Este paralelo nos aponta que Jesus exorta a uma oração militante. Não sob uma perspectiva passiva, à espera de que a solução de nossos problemas caia do céu. Não se trata de mera verticalidade, e sim horizontalidade. Orar aos Céus, com os pés bem firmes no chão. Nada de alienação! É fé compromisso e oração protagonista. Vamos mergulhar um pouco mais no texto lucano.

“Numa cidade havia um juiz que não temia a Deus, e não respeitava homem algum. Na mesma cidade havia uma viúva, que vinha à procura do juiz, pedindo: ‘Faze-me justiça contra o meu adversário!’” (Lc 18,2-3). Nestes versículos iniciais, podemos inferir que a viúva pleiteava seus direitos. Trata-se de uma situação desesperadora: a viúva está no seu direito, mas ninguém lhe faz justiça. Ela recorre ao juiz, mas esse é corrupto e a única arma dela é a insistência. Esta é a arma dos pobres! Resistir, insistir, pelejar, não perder a esperança. Por isso a parábola somatiza as ideias de oração e justiça. Estes conceitos não podem ser separados. Há uma necessidade inerente de oração e ação na causa dos pobres. Há profecia na oração dos pobres, pois esta clama por justiça, fraternidade e paz. Será que Deus lhes negará tais dons? Claro que não! O próprio projeto de Deus é justiça, pela qual a equidade se faz possível, construindo um mundo mais fraterno, pela solidariedade e partilha.

Aqui se apresenta um problema, que se faz claro na parábola: Deus precisa de homens e mulheres para que seu projeto de liberdade e vida chegue a bom termo. E esta é uma dificuldade apontada na parábola. Tanto para o tempo de Jesus, quanto para o nosso. O juiz da parábola não queria atender o clamor por justiça da viúva (Lc 18,4). Em nossos tempos, há quem queira que a justiça se cale diante dos muitos males que nos assolam. Vimos recentemente uma grande parte do Congresso Nacional apresentar uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que limitava a ação do judiciário, favorecendo a impunidade dos parlamentares que incorrem em crime. Absurdo, não? Pois é! A justiça sempre se faz ameaçada por oportunistas que conspiram contra o direito dos órfãos e das viúvas, contra o direito dos vulneráveis. Se a parábola de Jesus fala de um juiz corrupto, nossa realidade aponta para legisladores que agem em causa própria, buscando legitimar a espoliação dos direitos dos pobres, pois todo ato de corrupção e desonestidade reflete nos pequeninos. São os espertalhões que ficam cada vez mais ricos, à custa dos pobres, que ficam cada vez mais pobres. A estes, os pobres, esta parábola cai bem. Não desistir dos seus direitos. Importunar os corruptos. Clamar a Deus por justiça e agir concretamente para que ela se realize. Viver uma fé-compromisso e uma oração-protagonista. É assim que a justiça do Reino poderá se fazer realidade. Quando os pobres se organizam e clamam por seus direitos, com ousadia e perseverança. É esta a provocação que nos faz Jesus. Este é o desafio que Ele nos propõe por esta parábola: “mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” (Lc 18,8). E a fé do discípulo e discípula de Jesus se traduz em compromisso com seu Evangelho e serviço ao próximo, sobretudo aos vulneráveis. Esta resposta cabe a cada um de nós. Com nossas palavras e ações, devemos responder afirmativamente, afinal Ele mesmo nos disse em outra exortação do Evangelho: “em primeiro lugar busquem o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33).

Será que vamos desistir de trabalhar, com ação e oração, a fim de que a justiça triunfe sobre a injustiça, trazendo liberdade e vida para os oprimidos e explorados deste mundo? A resposta está dentro de cada um de nós. Sigamos firmes, enquanto seguidores e seguidoras de Jesus, impulsionados por uma fé-compromisso e fortalecidos pela oração-protagonista, construindo o Reino de Deus, na expectativa do Reino Definitivo.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑