Por Karina Moreti
O caminho da História da Salvação se constrói no caminhar de seus personagens. Alcançamos Josué que se encontra no limiar de uma travessia. Moisés faleceu. O povo que vislumbrou a aliança e viveu durante anos no deserto, encontra-se diante de uma nova etapa: a terra prometida. Porém, este chão não é um prêmio. É um chamado!
Josué é o símbolo da continuidade do chamado de Deus. Ele é o discípulo de Moisés que aprendeu a escutar a voz de Deus em outro tempo. Moisés sempre pôde falar face a face com Iahweh na Tenda do Encontro. Josué aprende a ouvi-lo no cotidiano da caminhada, na dúvida, na responsabilidade e no silêncio da ausência.
“Assim como estive com Moisés, estarei contigo: jamais te abandonarei, nem te desampararei” (Js 1,5) – essa promessa sustenta a nova geração. Josué permanece fiel quando o extraordinário já passou, quando o deserto cede lugar à vida comum. É sua vocação! Deus mantém seu chamado, mas agora é o tempo da maturidade da fé. Se Moisés apresentou ao povo hebreu a liberdade, Josué ensina este povo a iniciar uma sociedade de mulheres e homens livres.
Como observou Gregório de Nissa, “a fé verdadeira não consiste em ver o mar se abrir, mas em atravessar a terra firme da obediência”[1]. É esse o terreno onde Josué pisa — o chão sagrado do cotidiano.
O Livro de Josué apresenta Jericó como o primeiro grande desafio da entrada na terra prometida: muralhas intransponíveis, sete voltas, trombetas, e enfim o grito do povo que faz cair os muros (Js 6,1–20). Mas a história e a arqueologia moderna mostram outro quadro.
Escavações em Tell es-Sultan, identificada como a antiga Jericó, revelam que a cidade foi destruída por volta de 1550 a.C. e permaneceu praticamente desabitada por séculos[2]. No período atribuído à entrada de Israel – o Povo Hebreu – (por volta de 1200 a.C.), não havia ali muralhas nem traços de ocupação significativa[3].
Esses dados não enfraquecem a fé; ao contrário, iluminam seu sentido. O episódio das muralhas pertence mais ao campo da memória teológica do que ao da crônica militar. A Escritura não descreve eventos como um registro jornalístico, mas como leitura de fé. Não se trata de historiografia, mas memórias afetivas do Povo de Deus. Este povo, olhando para trás, reconhece que Deus abriu caminhos onde tudo parecia fechado.
Como afirma Francisco Orofino, “a Bíblia é o espelho no qual o povo vê sua história com os olhos de Deus”[4]. Jericó é, portanto, símbolo, sacramental do amor de Deus pela humanidade. Amor que se traduz em aliança, confiança e coragem. E os muros desta cidade sendo derrubados simbolizam o medo que paralisa. O fechamento que impede o novo. É o muro que se ergue entre a promessa e a confiança.
Orígenes, através da leitura mais espiritualizada do texto, dizia: “Cada um de nós tem em si uma Jericó a ser derrubada — nossos pecados, nossas vaidades, nossas resistências à graça”[5].
Nesta perspectiva, podemos concluir que a conquista de Jericó não é uma vitória externa, é sim uma conversão interior. Deus age nas ruínas, transforma o medo em coragem e faz nascer promessa onde só havia silêncio. Mais tarde a literatura profética nos ensinará esse reiventar da história a partir da fé no livro de Ezequiel, na visão da planície de ossos (cf. Ez 37,1-14).
É preciso lembrar que Josué não é um guerreiro sedento de vitórias, não é um conquistador ambicioso; é apenas um homem. Um homem de escuta. Sua força está na obediência à Palavra. A ele, Deus repete: “Sê firme e corajoso” (Js 1,6). Sua coragem, não nasce da espada, mas da fé. É a coragem de continuar caminhando, mesmo que o caminho pareça incerto. É a firmeza de confiar quando tudo parece em ruínas.
Josué compreende o mistério: a terra prometida não é posse, é presença. Antes de passar pelo Jordão, Josué encontra um mensageiro de Deus e escuta: “Descalça as sandálias dos seus pés, porque o lugar em que pisas é santo” (Js 5,15). O texto ecoa a experiência de Moisés diante da sarça ardente (Ex 3,5).
A Palavra de Deus é para ser encarnada na vida do povo. As muralhas de Jericó devem ser observadas com os olhos da fé. É preciso lembrar que estes muros que devemos derrubar são as estruturas excludentes — sociais, religiosas, econômicas. São as muralhas que se erguem contra a dignidade dos pobres, dos órfãos e das viúvas, contra a justiça e a vida.
A cidade de Jericó e suas muralhas é a representação de tudo o que nos impede de ser feliz, de entrar na terra da promessa — nossas prisões interiores, nossos medos de começar de novo, nossas fidelidades frágeis. Deus não está preocupado com muros externos. Ele nos convida a derrubar o que nos impede de amar e servir.
A verdadeira conquista da cidade é espiritual. É o povo aprendendo a confiar em Deus. Mesmo que a terra ainda não seja sua. É a fé amadurecendo, deixando de ser um grito de desespero para tornar-se escuta silenciosa.
Para Carlos Mesters: “A Bíblia não é um livro de respostas prontas, mas um espaço de encontro entre a fé e a vida. É ali que descobrimos que Deus está do lado dos que lutam por libertação”[6]. Quando se fala em terra prometida significa muito mais do que um simples território, ela é: direito, vida compartilhada, convivência fraterna e justa. A queda das muralhas é reabrir o espaço da comunhão – em nós e entre todos, formando a Casa Comum.
Deus não age apenas em gestos grandiosos. Ele trabalha na continuidade da vida é isso que nos revela o chamado de Josué. O Deus de Moisés é o mesmo Deus de Josué, porém se manifesta de modo diferente. A revelação não se repete; ela se renova.
Josué não é um “novo Moisés”. Ele é chamado a ser fiel ao mesmo Deus do tempo da promessa. Sua missão não é libertar, mas permanecer, manter e renovar. Sua vocação não é abrir o mar, mas atravessar o rio. Ele é o guardião da escuta, o homem do “ainda”.
Nós também somos chamados a continuar a história do chamado em nossas próprias travessias, em nossas próprias histórias, em nossas próprias vidas. Quando tudo parece concluído, Deus continua chamando. Quando as muralhas já desabaram e o silêncio reina, Ele nos convida a permanecermos fiéis.
Essa é a essência do chamado: reconhecer que todo chão é sagrado. A santidade não está na vitória, mas na escuta. Não está na posse, mas na comunhão.
O chamado de Josué revela um Deus que não cessa de agir. O mesmo Deus de Moisés mudou seu modo de se revelar. O tempo do deserto dá lugar ao tempo da construção. Josué é chamado não para repetir, mas para continuar. Deus se revelou no fogo para Moisés. Para Josué, Ele se apresenta no chão — na rotina, na terra pisada e vivida. A santidade é presença, não é só milagre, é trabalho!
A missão mudou, não é mais a libertação do povo, mas sim onde este povo irá habitar. É momento de cuidar, consolidar, distribuir a terra (Js 13–21). Seu serviço é o da fidelidade cotidiana. Nosso dia a dia! “A terra prometida não é prêmio, mas tarefa”, dizia Santo Agostinho[7]. A promessa não é só esperança de espera. Ela é convite à responsabilidade!
Gregório de Nissa via nisso o amadurecimento da fé: “Moisés viu Deus no fogo; Josué o reconheceu na terra. A fé amadurecida aprende que toda terra é santa quando nela se faz justiça”[8].
Deus nos convida, como convidou a Josué, a compreender que a promessa não é território, é relação, é vida! A terra prometida é a experiência de caminhar com Deus — de confiar quando tudo parece vazio, de celebrar quando as muralhas caem, e de permanecer quando o silêncio de Deus se faz morada.
Assim também é nossa vocação. Somos chamados a continuar o que outros começaram: a libertação que Moisés iniciou, Josué concretiza; o que ontem foi graça, hoje se torna compromisso. A Bíblia deve ser vivida nas comunidades que se caminham para concretizar o sonho de Deus no mundo!
Senhor da história, Deus Libertador!
Tu que conduzes o povo pelos desertos da vida, ensina-nos a ouvir tua voz como Josué.
Que saibamos atravessar o medo, derrubar os muros do coração, e reconhecer que o chão que pisamos é santo, porque Tu caminhas conosco.
Amém.
Referências
- GREGÓRIO DE NISSA. Homilias sobre a Vida de Moisés. São Paulo: Paulus, 2011.
- KENYON, Kathleen. Excavations at Jericho. London: British School of Archaeology in Jerusalem, 1981.
- LOPES, Daniel. A conquista de Jericó sob o olhar da arqueologia e da história. Revista Teológica Adventista, v. 12, n. 2, 2020.
- OROFINO, Francisco. Josué e a Memória da Terra Prometida. In: CEBI. Relato dos estudos sobre o Livro de Josué. CEBI Nacional, 2022.
- ORÍGENES. Homilias sobre Josué. São Paulo: Paulus, 2005.
- MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. A individualização do sujeito e os desafios da leitura bíblica hoje. CEBI, 2021.
- AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. São Paulo: Paulus, 2012.
- GREGÓRIO DE NISSA. Homilias sobre o Cântico dos Cânticos. São Paulo: Paulus, 2015.
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