O Concílio Vaticano II e nós | Por Marcelo Barros

Neste 11 de outubro, comemoramos os 63 anos daquele dia memorável no qual o Papa João XXIII, com 2500 bispos do mundo inteiro, patriarcas orientais e observadores de outras Igrejas cristãs, inaugurou o Concílio Ecumênico Vaticano II, com o objetivo de promover a renovação da Igreja. O critério era voltar às fontes da fé (o Evangelho de Jesus) e atualizar-se para dialogar com a humanidade de hoje.

O Concílio publicou 16 documentos principais. Entre eles, quatro constituições que definem nova visão sobre a Igreja, sobre a Revelação Divina, sobre a Liturgia e sobre a missão no mundo de hoje.  Fez também nove decretos, dos quais um dos mais importantes foi sobre o Ecumenismo, ou seja, a relação da Igreja Católica com as outras Igrejas e a busca da unidade. Emitiu ainda três declarações: uma sobre a Liberdade Religiosa, a outra sobre o valor e significado para a fé das outras religiões e, finalmente, uma sobre o papel da educação no mundo. Todos esses documentos tiveram importância fundamental para o caminho que a Igreja Católica percorreu nos anos seguintes. No entanto, mais do que documentos, o Concílio propôs um espírito, ou seja, uma mística que se baseia na permanente conversão ao Evangelho e ilumina uma interpretação amorosa das doutrinas e leis para melhor dialogar com a humanidade.

Esse mesmo espírito atuou na 2ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano em Medellín, Colômbia (1968). Ali também, mais do que os documentos escritos, a grande novidade foi o espírito de diálogo e de abertura ao mundo que marcou a conferência. Foi um verdadeiro Pentecostes para a Igreja latino-americana. Experiência espiritual única, que, ao longo das décadas posteriores, nunca mais se conseguiu retomar.

Infelizmente, imediatamente depois do Concílio, no Vaticano, mas também em muitas dioceses, por toda parte do mundo, bispos, padres e grupos católicos sentiram-se obrigados a cumprir as orientações do Concílio, mas sem se converter ao seu espírito. Na liturgia, mosteiros e catedrais adotaram o novo ritual da Missa, assinado pelo Papa Paulo VI, mas o usaram e usam sem renunciar às pompas hierárquicas e ao mundanismo espiritual do antigo ritual. Ainda hoje, continuam discussões sobre o valor do ritual antigo (do Papa Pio V). No entanto, a imensa maioria de bispos, padres e assembleias celebrantes seguem as fórmulas do ritual que foi feito a partir da renovação do Concílio, mas o celebram com o mesmo clericalismo, as mesmas pompas mundanas, vindas das cortes medievais pagãs e com a mesma velha teologia sacrificial do Missal do Concílio de Trento. É claro que não é a mesma coisa. O atual Missal Romano prevê um caráter mais comunitário e dá mais valor à leitura bíblica. No entanto, a liturgia continua com uma linguagem profundamente distante da vida (a atual versão do Missal ainda é pior do que a anterior) e dualista na linha do neoplatonismo que tomou conta da teologia litúrgica anterior ao Concílio.

Isso é compreensível porque a forma que a liturgia toma depende da nossa compreensão de Igreja. Nesse aspecto, algumas propostas fundamentais do Concílio foram ignoradas. O Concílio tinha apontado para o direito das Igrejas locais serem Igrejas próprias e não apenas filiais de uma multinacional da fé. Tinha revelado que a missão da Igreja diz respeito à inserção cultural, social e política no mundo. Até agora, apesar dos esforços do Papa Francisco, essas propostas foram ignoradas. Elas supõem conversão espiritual e não apenas organização jurídica e organizacional.

Os pontificados de João Paulo II e Bento XVI deram força aos grupos inimigos do Concílio Vaticano II. O Papa Francisco procurou, de todas as formas, reconduzir a Igreja Católica ao espírito do Concílio e a continuar as suas intuições fundamentais. Desde o início, se apresentou como bispo de Roma e primaz da unidade. Marcou o seu pontificado pelos gestos de simplicidade e abertura ao mundo. No entanto, no mundo eclesiástico católico, conseguiu pouco.

Suas propostas fundamentais de colocar a Igreja em saída a partir das periferias do mundo e tomar a Sinodalidade (caminhar juntos) como forma normal da Igreja ser não parecem ter tomado forma adequada quase em nenhum lugar do mundo. Como ocorreu com o Concílio,  as dioceses obedecem às normas e fazem sínodos. Constituem equipes para trabalhar no que denominam de “pastorais da ação social transformadora”, dando, claramente, a entender que o conjunto da pastoral não tem essa linha e que a divisão entre espiritual e social ainda permanece. Em Roma, como nas diversas dioceses, o desafio é como continuar o processo da Sinodalidade sem mudar em nada o Direito Canônico e a compreensão de ministério hierárquico como poder sagrado. Algum dia, se darão conta de que não existe círculo quadrado e camelo não passa pelo fundo de agulha.  

Tantas décadas depois, agradecemos a Deus a graça daquele evento extraordinário que foi o Concílio Vaticano II. Realmente, significou um novo Pentecostes e uma verdadeira primavera para a Igreja.

Neste 11 de outubro de 2025, nós, embora nos sintamos meio órfãos do Concílio Vaticano II e da Conferência de Medellín, renovamos a fé na caminhada das comunidades eclesiais de base e das pastorais sociais e nos comprometemos em continuar dando a vida para cumprir, hoje, o que, em 1968, os bispos católicos da América Latina propuseram: “Que se apresente cada vez mais nítido, na América Latina, o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida com a libertação de toda humanidade e de cada ser humano em todas as suas dimensões” (Med. 5, 15 a)

Colaborou: Site do Frei Gilvander Moreira


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