“Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!” | Reflexão sobre Lc 18,9-14

“O pobre clama a Deus e ele escuta: o Senhor liberta a vida dos seus servos.”
(Salmo 34/33)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Entre as muitas catequeses presentes no Evangelho de Lucas, o tema da humildade e a denúncia da prepotência se fazem recorrentes. A parábola apresentada na Liturgia deste 30º Domingo do Tempo Comum se encontra no contexto da viagem de Jesus com seus discípulos à Jerusalém. A partir do capítulo 9 de Lucas, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para a Capital do poder religioso e político, a Cidade Santa, Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão.

Lc 18,9-14 nos apresenta uma parábola. Como tema central temos a arrogância daqueles que se acham especiais, privilegiados, puros e santos; e aqueles que são vistos como escória, marginais, pecadores públicos, indesejáveis. Entre os personagens da parábola, temos duas classes de pessoas que representam as aqui apresentadas. Os propensos puros e santos e os rotulados como pecadores indesejáveis. Respectivamente, fariseus e publicanos.

Antes de adentrarmos propriamente à parábola, é útil que conheçamos seus personagens. Quem são os publicanos? Quem são os fariseus?

Publicanos


Podemos compreender a relação de rejeição aos publicanos, entendendo o contexto histórico em que estavam inseridos. No século I d.C, os publicanos eram os responsáveis por coletar impostos em nome das autoridades romanas. Para entender melhor a atividade de cobrança de impostos no império romano no século I d.C., usaremos um termo moderno, diremos que era uma atividade “terceirizada”. As autoridades romanas firmavam contratos com indivíduos ou grupos, que lhes permitiam cobrança de impostos da população de certa área geográfica. Esses cobradores de impostos, conhecidos como “publicanos”, eram responsáveis por coletar os impostos da população local, devendo entregar às autoridades romanas certo valor previamente fixado pelo estado. Eles estavam autorizados a usar táticas agressivas para realizar essa atividade (ANDRADE, 2025) .

No contrato, os publicanos estavam autorizados pelo império a cobrar dos contribuintes um valor superior ao estipulado e ficar com o excedente para si, isso seria a renda dos publicanos, que se enriqueciam com facilidade. Esse tipo de acordo tornava o processo de coleta de impostos altamente oneroso para o povo. Por isso, os cobradores de impostos eram odiados pelos judeus, porque exploravam o povo, se enriqueciam à custa dos mais pobres e fortaleciam a máquina opressora do império romano (ANDRADE, 2025).

Diante do exposto, podemos identificar que os publicados eram duplamente odiosos aos olhos do povo. Primeiro, por trair aos seus, aliando-se à ocupação romana, os opressores. Segundo, por aumentar o sofrimento gerado pelos tributos, já que podiam cobrar mais que o requerido pelo império, salvando o lucro dos cooptados pelo opressor. Trair o povo de sua origem e lucrar com sua desgraça.

Fariseus

A origem deste movimento tem como ponto de partida a classe trabalhadora. O surgimento deles provém dos “piedosos” que pertenciam a luta armada de Judas Macabeu. Eles provinham na época de Jesus das camadas sociais dos artesãos, pequenos comerciantes e gente pertencente à classe média.

Os fariseus entram para a história do judaísmo na época de Alexandre Janeu (103-76 A.C). Todavia, podemos dizer que as origens dos fariseus remonta o tempo de Esdras, sacerdote. Os fariseus neste tempo se identificavam com os hassidim e o próprio Esdras, período pós-exílio entre 458 a.C. e 444 a.C. Nesta época de reconstrução do Templo de Jerusalém e da cidade, os hassidim acreditavam que além do Templo era necessário reconstruir uma vida espiritual, capaz de animar as pedras que eram erguidas do Templo. Buscam o estudo da Lei, fazendo a vontade de Deus e se esmeravam na oração.

Quanto às atitudes políticas dos fariseus, conseguiram manipular o povo e exerciam autoridade sobre ele. Aparentemente se apresentavam como partido das massas populares e contra a aristocracia, o que não se confirmava em suas práticas. O povo, sem alternativa, os respeitavam, pois possuíam peso político sem exercerem o poder. Tinham características de serem nacionalistas e de odiarem os estrangeiros. Na época de Jesus, eram moderados e aceitavam a política da convivência imposta pelos conquistadores romanos. 

Aprofundando a questão, entendendo os fariseus no tempo de Jesus, precisamos nos atentar para o contexto histórico e a forma com a qual os fariseus aparecem nos evangelhos, sobretudo Mateus e Lucas. Mateus apresenta críticas mais severas aos fariseus. Precisamos ter consciência de que Mateus escreveu esse texto cerca de 50 anos depois da morte de Cristo, por volta do ano 80. Durante esses anos aconteceram muitas coisas na vida da Palestina. O Templo de Jerusalém foi destruído e com essa tragédia se perdeu tudo o que era relacionado com a vida dos judeus. O sacrifício, o sacerdócio a ideia de religião se construíam ao redor do Templo, enquanto afirmação da identidade de Israel. Quando acontece a guerra do ano 70 d.C., muitos dos que estavam ligados ao poder religioso do Templo, foram obrigados a se refugiar na região norte da Galileia, na Síria e na Ásia Menor. Neste contexto de diáspora, não tendo mais o Templo, o Sacerdócio e a Cidade Santa como referenciais da religião judaica, com a intuição do Rabino Yochanan ben Zakai, não tendo mais sacrifícios e sacerdócio, o povo judeu manteve sua identidade ao redor dos preceitos da Torah. Todavia, a Torah era rodeada por um tipo de “cerca”, que eram as ‘mitzvot’ (613 leis), preceitos práticos, as atitudes que precisavam ser observadas 24 horas ao dia, pequenos detalhes que garantiam a santidade do povo. Era isso que identificava, a partir da destruição do Templo, o povo judeu: não mais Jerusalém, o templo, o sacrifício ou o sacerdócio.

Os cristãos, nesse período, já haviam começado a criar a própria identidade. Mas não eram alheios à vida dos judeus. A destruição do Templo provocou neles um duplo sentimento. Por um lado leram esse fato como uma punição divina contra Israel, que não reconhecera Jesus como Messias. Chegaram inclusive a pensar em uma substituição dos “prediletos” de Deus. Antes Iahweh havia escolhido os hebreus como seu povo, mas por causa da desobediência mudou de ideia e agora o havia abandonado, elegendo a Igreja. Os cristãos colocaram ao centro da própria vida a figura de Jesus, sublinhando o seu ensino como elemento vital da própria vida. Isso é colocado em contraste com a centralidade da Lei vivida pelos judeus daqueles mesmos anos. Com isso, coabitando as duas correntes religiosas na situação de diáspora, acontecem muitos conflitos. Mesmo que, tanto cristãos como judeus, estivessem sob a perseguição de Roma após o ano 70 d.C., o judaísmo normativo se posicionava como caçador dos hereges, dos discípulos do profeta galileu. Esta perseguição mais acirrada do judaísmo influencia profundamente a redação dos evangelhos escritos neste contexto.

No Evangelho de Lucas, os fariseus recebem a mesma tonalidade crítica de Mateus, acrescentando-se clara denúncia ao que se refere à xenofobia e à ausência total de misericórdia nas palavras e ações dos que se auto definiam “separados”. Ao se colocarem enquanto uma classe espiritualmente privilegiada, entendendo-se mais fiéis à Lei do que os demais, atacavam de forma violenta tudo o que acreditavam conter violações da vontade de Deus. Como eram nacionalistas, diante do contexto de ocupação romana e tendo suas origens no mais inflamado nacionalismo, eram intolerantes a tudo que não fosse genuinamente israelita. Com isso, tinham verdadeira ojeriza a pessoas e costumes estrangeiros. Além disso, fomentavam a necessidade de observância dos mínimos detalhes do que se constava nas escrituras levíticas e deuteronômicas. Geravam exclusões significativas na religião e na sociedade, pois as pessoas mais pobres não tinham condições básicas para observar literalmente os preceitos. Em síntese, primavam por uma religião do aparente, da estética, dos sinais externos, uma vez que efetivamente o judaísmo sofria sob o braço forte romano. Todavia, como queriam proteger as tradições e sobreviver ao poder invasor, eram inclinados às dinâmicas de manipulação para a manutenção do poder religioso. O que era claramente contradizente com as virtudes que anunciavam. Falavam de pureza, mas eram capazes das mais torpes ações para manter a influência sobre o que restava da antiga Israel eleita. Isso justifica as palavras mais veementes de Mateus e a análise mais profunda e denunciadora de Lucas.

A parábola de Lucas 18,9-14

“Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros…” (Lc 18,9). Já nas primeiras palavras, Lucas e sua comunidade deixam claro o que se pretende. Já se falou muito sobre esta parábola e, certamente, ninguém simpatiza muito com a figura do fariseu. Claro que isso não está tratado na parábola, mas em todo o contexto dos quatro Evangelhos. Aqui em Lucas, o fariseu não é passivo de crítica por rezar de pé, pois essa era a posição corporal mais usada na oração judaica. As palavras dele também não são imediatamente reprováveis. Afinal, a Lei exigia um só dia de jejum por ano, e o dízimo não era exigido sobre todas as posses. O problema do fariseu, e de muitos de nós, é o que está escondido por trás da oração e das atitudes. Os objetivos, as pretensões. Ainda mais: quais sentimentos motivam tais palavras e ações. A oração e a prática religiosa devem harmonizar-se com a ética na vida. E aqui, somos convidados a avaliar o fariseu pelo que ele não diz e não faz. Vejamos a oração do fariseu: “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda” (Lc 18,11-12). Em sua oração, não diz nada acerca de suas fragilidades, de seus pecados. Ele só leva em conta seus possíveis méritos, suas virtudes. Pior ainda: se compara ao publicano, um pecador público, achando-se mais especial, digno e santo. Acredita que Deus o escuta de forma especial e ignora o pecador (cf. Jo 9,31). Diante de Deus, o fariseu não tem como ser justificado (perdoado), porque sequer tomou consciência de suas fragilidades e confessou seus pecados. Vive ofuscado pelo brilho de sua arrogância e cego para a realidade humana, da qual faz parte. Diante de sua arrogância, acreditando na sua condição de religioso puro e fiel, menospreza aos que estão ao redor, a ralé pecadora. E, com isso, entra em contradição com o próprio Deus, ao qual diz servir. Somos todos pequenos grãos de areia, diante do oceano da misericórdia de Deus.

Lucas dá especial atenção à dialética entre pecado e misericórdia. Quanto mais a pessoa jazia no erro, mais prazer teve Deus em abraçá-la e restaurar sua vida. O que se pode verificar na Parábola do Filho Pródigo (cf. Lc 15,11-32), na Parábola da Ovelha (cf.. Lc 15,1-7) e da Moeda Perdidas (Lc 15.8-10). O evangelho lucano vai além: coloca os pecadores públicos, os impuros, os indesejáveis – alvos da discriminação e marginalização do judaísmo normativo – como protagonistas, enquanto paradigmas das virtudes evangélicas. Um exemplo claro é a Parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10,25-37). Lucas contrapõe a lógica dos líderes religiosos, com a lógica de Jesus. Como nos afirmou o Papa Francisco, a quem guardamos saudosa memória, “o nome de Deus é Misericórdia”.

Continuemos um pouco mais no texto: “O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!'” (Lc 18,13). O cobrador de impostos vê bem a si mesmo. Só tem olhos para seus pecados. Não busca justificar-se, ou elogios às possíveis virtudes. Seu único pedido a Deus é por perdão, por misericórdia. E, segundo o Salmo 51 (ou 50), no versículo 19, Deus ouve o pecador arrependido e o perdoa.

Isto posto, percebemos que a parábola coloca em cena dois extremos da sociedade judaica: o fariseu, que se acredita justo e perfeito; e o cobrador de impostos, que era considerado marginal por seu ofício de arrecadar impostos para o Império Romano, o opressor. Contudo, vale perguntar: como pode alguém, vivendo em um sistema injusto, gabar-se de sua justiça? A forma com a qual os fariseus tratavam as pessoas, não era revestida da ideia divina de justiça. Correspondia a um legalismo cego, punitivo e excludente. Dentro de um sistema assim injusto, somos todos coniventes, todos injustos e, consequentemente, pecadores. Aqui se entende que a arrogância do fariseu, achando-se melhor que os outros, corrobora para sua condenação, não sua justificação. Afinal, o evangelho mateano é categórico em afirmar: “Pois eu garanto a vocês: os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu!” (Mt 21,31).

Em nossas Comunidades

Compreendendo a parábola de Lc 18,9-14 e seus personagens, somos levados a pensar em quais implicações esta perícope pode ter em nossas vidas.

O fariseu e o publicano são dois paradigmas. Duas formas de ser e agir na Igreja e na sociedade. De um lado temos pessoas que se acham verdadeiros religiosos, testemunhas de virtude. Assim como os fariseus, querem ser os “separados”. Fomentam a ideia de uma classe de pessoas especiais, que caminham sob a sã doutrina, buscam a pureza espiritual, a “renúncia ao mundo”. Estão sempre com o olhar e as mãos voltadas ao alto, bradando: “ou santos ou nada”. Desprezam tudo o que se refere à secularidade, às questões do mundo e da sociedade. Querem uma teologia e uma eclesiologia angélicas, fundamentadas em um dualismo doente. São os cidadãos do céu, os santos e puros. Todavia, são os mesmos que excluem e marginalizam pessoas, tais quais os fariseus. Tratam os que não estão em seu meio como pecadores, hereges, abominações. Elogiam suas pretensas virtudes, apontando aos que estão ao seu redor. Gritam por justificar seu modo de viver, condenando aos que não estão no seu séquito à excomunhão. Quem não está com eles, é herege, impuro, marxista, sacrílego e outras classes de adjetivos vexatórios. Interessante é que confessam-se discípulos e discípulas de Jesus, mas não percebem que no Evangelho dele, do Mestre do Amor, nada há que corrobore tais pensamentos, palavras e ações como próprias ao discipulado. São cristãos e cristãs contra o Cristo. Espalham o que Jesus ajuntou. Pedras de tropeço. Dizem-se anunciadores do Evangelho, vivendo o anti-evangelho. A estes, vale as exortações da iracúndia de Jesus: “Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão! Assim também vocês: por fora, parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça.” (Mt 23,27-28).

Diante deste arrogante jeito de ser cristão, símile aos fariseus, a figura do publicano se faz paradigma positivo. A humildade do pecador na parábola nos aponta uma chave de entendimento, pela qual, percebemos que precisamos nos livrar dos complexos de superioridade pelos quais muitas vezes somos tentados. A religião-poder e a religião-prestígio matam nosso compromisso com o Evangelho. Quem busca reconhecimento por suas virtudes, valendo-se delas como autorreferencialidade, esquece-se de que não são nossos méritos que nos qualificam na condição de discípulos e discípulas de Jesus. Tal qual o Cristo, precisamos escolher o último lugar e nos colocar na condição de servos (cf. Mc 10,45). Por isso, vivamos nossa vida evangelizando a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética; animada por uma espiritualidade Pascal, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao Reino Definitivo. Tudo isso com humildade e ternura, “pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 18,14).

Comunidades Eclesiais em oração

Deus Eterno e todo Poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e, para merecermos alcançar o que prometeis, fazei-nos amar o que ordenais.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.
Amém!


Referência

ANDRADE, Aíla Luzia Pinheiro de.  Como compreender a atividade dos publicanos e por que eles eram tão odiados?. In: https://www.fiquefirme.com.br/20-como-compreender-a-atividade-dos-publicanos-e-por-que-eles-2025, acesso em 20/10/2025.


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