Deus nos chama a partir da história – Parte 7: Raab, a mulher marginalizada que abriu as portas da libertação!

Por Karina Moreti

Em nossa última parada na caminhada junto ao povo de Deus, conhecemos Josué que depois de ouvir a voz de Iahweh nas margens do Jordão, entendeu que a verdadeira conquista da Terra Prometida não seria feita pela força, mas sim pela fé. Sabemos que as muralhas de Jericó não eram de pedra, eram obstáculos internos — erguidos pela desconfiança, pelo medo, e pelo fechamento do coração.

Chegamos às portas da cidade de Jericó. São enviados dois espiões para sondar a cidade a ser conquistada, e é aqui que nos é apresentada Raab. Segundo o texto, uma mulher estrangeira (não israelita), prostituta, que habitava sobre o muro. Quando o texto sagrado nos informa que esta mulher “habitava em cima do muro”, pode nos significar que vivia em uma situação de fronteiras, no sentido concreto e alegórico. As fronteiras de Raab se inserem em sua condição.  Enquanto mulher, dentro de mais uma sociedade patriarcal, enquanto profissional do sexo, enquanto aquela que era usada pelos homens da sociedade dos bem-nascidos, mas não havia quem lhe saudasse afetivamente nas praças. Uma mulher marginalizada, usada, como tantas de nossa atual sociedade. A vida de Raab era constante fronteira. Vivia no pêndulo entre a dor, o medo e a esperança. Sua história revela um Deus que derruba barreiras interiores antes de transformar a realidade exterior, e que escolhe as margens para inaugurar o Reino. De marginalizada à colaboradora do Projeto de Deus. Antes que falássemos do resgate da dignidade do feminino, nosso amado Deus já nos apontava o caminho. Lugar de mulher, é todo lugar. Inclusive, no projeto de salvação. Na construção de uma nova sociedade de homens e mulheres livres.

Lembra-se que acima mencionamos um arquétipo atribuído à Raab, eternizado nos relatos bíblicos e nos sermões? Repetimos o que se diz, referindo-lhe a alcunha de uma profissional do sexo, quando o relato bíblico se refere a ela como uma prostituta. Não abandonemos a ideia do senso comum imediatamente, na tentativa de salvar o texto bíblico. Precisamos sempre falar das muitas formas de marginalização que as sociedades infligem às mulheres que precisam vender seus corpos, fazer as vontades mais vis do masculino e ainda sofrer o descarte das sociedades patriarcais. Aproveitemos Raab para denunciar os milênios de opressão, violência e marginalização que pesam sobre as costas das profissionais do sexo. Sempre excluídas pela dinâmica do comércio do prazer, sendo-lhes imputadas todas as culpas, sem se considerar que não há mercado sem oferta e procura. Se há prostitutas, onde estão os prostituidores?

Ainda falando sobre “prostituição”, precisamos falar sobre uma segunda hermenêutica bíblica para essa palavra. Sim, várias vezes a bíblia se refere a uma profissional do sexo como prostituta. Outrossim, esta palavra também pode significar idolatria, em muitas de suas abordagens. Na Bíblia, esta palavra pode ganhar uma dimensão teológica, quando da apologética da identidade de Iahweh, enquanto Deus único do povo. Assim., a referência à Raab como uma prostituta, pode significar sua identidade como estrangeira e adoradora de um outro deus, que não Iahweh. Para os hebreus, ela vivia sobre o muro, entre a fidelidade e infidelidade. Aprofundemos essa ideia.

O livro de Josué diz que a casa de Raab “estava construída na muralha” (Js 2,15), expressão simbólica que a coloca entre dois mundos: o da cidade fortificada e o da terra prometida. Segundo Francisco Orofino, Raab representa “as mulheres que habitam as fronteiras do poder e da religião, mas que guardam em si a força da fé que salva” (OROFINO, 2011, p. 72). E não podemos nos cansar de repetir: Raab abrigava na sua história os estigmas das sociedades de seu tempo. O patriarcalismo, a xenofobia e a misoginia — três símbolos de exclusão. Mas Iahweh se manifesta justamente nas margens da história.

Pensando um pouco mais sobre o estigma negativo da prostituição, não podemos vê-la no contexto de Canaã, apenas sob o prisma moral, mas como expressão de sobrevivência e hospitalidade. Carlos Mesters indica que a Palavra de Deus “passa por onde a vida resiste e se reinventa” (MESTERS, 1998, p. 54). A casa de Raab, situada no muro, é símbolo desse espaço de resistência e acolhida — o primeiro abrigo do Deus libertador dentro da terra prometida.

Com a chegada dos espiões/mensageiros de Josué à Jericó, é Raab quem os acolhe, os protege e nossa heroína proclama sua fé: “Sei que Iahweh vos deu esta terra, pois o vosso Deus é Deus tanto em cima nos céus como embaixo na terra” (Js 2,9.11). Raab faz esta profissão de fé antes da conquista. Ou seja, é uma profissão de fé feita por uma estrangeira que escuta e acredita. Como escreve Mesters, “a Palavra atravessa fronteiras e fala pela boca daqueles que a religião oficial não reconhece” (MESTERS, 1998, p. 89). Raab está à frente de seu tempo, enxerga o que muitos hebreus não queriam ver. O Deus libertador dos hebreus é também o Deus de todos os povos.

Por fim, que possamos adentrar no aspecto mistagógico de nossa heroína, Raab. Ela representa as mulheres bíblicas em sua mais pura essência. Não marcam sua história pelas dinâmicas do poder, mas pela certeza e pela coragem de se lançar ao mistério. Trazem em si os mais preciosos arquétipos do feminino: escuta, ternura, coragem, coração como “terra fértil” para a semente de libertação. Que aprendamos com Raab a confiar com toda a esperança no Deus que transforma histórias. Que nossas muralhas do medo e da tibieza, sejam vencidas pelo testemunho da mulher marginalizada que acolheu e escolher o projeto libertador de Deus.

Referências

MESTERS, Carlos. A Palavra de Deus na história do povo. São Paulo: Paulus, 1998.

OROFINO, Francisco. Mulheres que fazem a história: leituras bíblicas a partir das margens. Petrópolis: Vozes, 2011.

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