“Esperar contra toda Esperança, vivendo a Fé Cristã na perspectiva do Reino Definitivo!” | Reflexão sobre Lucas 12,35-40

Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso,
nenhum mal eu temerei.

(Salmo 22/23)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A cada ano, somos convidados pelo calendário litúrgico a fazer memória de todos os fiéis defuntos. Mais do que celebrar a saudade de nossos entes queridos, a liturgia nos convida a beber das fontes do testemunho daqueles e daquelas que conosco, ou antes de nós, viveram a fé cristã na perspectiva do Reino Definitivo. Trata-se de uma celebração do antegozo da Vida Plena, perspectiva inaugurada pelo Mistério Pascal de Jesus. Como nos afirma a Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. (…) Assim também em Cristo todos reviverão” (1Cor 15,20.22b). Esta é nossa fé! Para aquele que crê em Cristo, a morte não é o fim. Em Jesus, podemos afirmar tal qual a sabedoria de Jó: “Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó (…) na minha carne, verei a Deus” (Jó 19,25.26b).

Para nosso comentário sobre o texto sagrado na Liturgia da celebração pelos Fiéis Defuntos, escolhemos o Evangelho sugerido pela CNBB, em sua página virtual[1], Lc 12,35-40.

Apropriadamente, o texto indicado trata da prudência que devem ter as comunidades cristãs em sua caminhada. Tal prudência se configura em uma perspectiva escatológica[2]. O texto lucano nos convida a vivermos como se já estivéssemos na plenitude do Reino, ou seja, vivendo a partir da proposta do Evangelho, aqui e agora, na expectativa do Reino Definitivo.

Contextualizando

Lucas 12,35-40 insere-se nas catequeses de Jesus durante a viagem com seus discípulos à Jerusalém. Lembrando-nos do que foi dito em reflexões anteriores: a partir do capítulo 9 de Lucas, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para a Capital do poder religioso e político, a Cidade Santa, Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão.

No bloco em que se situa Lc 12,35-40, Jesus continua a falar aos discípulos, ao povo e às autoridades que lhe interpelavam durante o percurso da supracitada viagem catequética. Ao contrário dos discípulos, que queriam aprofundar o conhecimento sobre o Mestre e sua missão, e do povo que desejava conhecer aquele que poderia ser o Messias esperado; as autoridades tinham como propósito encontrar alguma oportunidade de pô-lo à prova sobre alguma palavra ou situação suspeita, armando ciladas contra ele (cf. Lc 11,54). Anteriormente ao texto lucano de nossa liturgia, Jesus mostrou que a busca fundamental de cada discípulo e discípula dele deve ser o Reino, com a Justiça que produz fraternidade e partilha. Esta busca fundamental do discipulado irá contrapor-se com as dinâmicas do mundo que buscam o lucro, o poder e a vaidade (prestígio e fama). Por isso, importa que se tenha disponibilidade, coragem, perseverança e prudência (cf. Lc 12,39-48). Estes requisitos se justificam porque Jesus veio para ser um “sinal de contradição” (cf. Lc 2,34; 12,49-53). Diante de um mundo onde as sociedades apregoam projetos de morte em benefício da busca insana por lucro, poder e satisfação da vaidade; urge a conversão pelos valores do Reino de Deus antes que seja tarde demais (Lc 13,1-9). Só assim a paz e a justiça se fazem possíveis.

Entendendo Lc 12,35-40

A perícope nos apresenta uma exortação em forma de parábola. A comunidade deve estar em contínua vigilância, fiel à palavra e à ação de Jesus. Cabe aos discípulos e discípulas continuar o anúncio desta palavra e testemunhar suas ações. Após cumprir sua missão, Jesus volta ao Pai, mas virá – em hora desconhecida – ao encontro da comunidade. Feliz dela se Jesus a encontrar fielmente cumprindo sua missão de servir (cf. Mc 10,45). Então ele mesmo a servirá, realizando o Reino da justiça pelo qual a comunidade tanto lutou.

Muito já se disse sobre o texto do Evangelho que estamos a refletir. Lamentavelmente, há quem use dele para promover uma teologia do medo, interligada a uma teologia da condenação. Trata-se de um texto escatológico e, conforme o sentido mais fiel da palavra, escatologia deve nos impelir à esperança. O convite à prudência apresentado em forma de parábola, não deve inferir de nós sentimentos que nos afastam do real sentido escatológico. Quem interpreta tais exortações a partir do medo, está muito preso ao sentido literal de escatologia, a parir de sua morfologia grega, ou seja: “éskhatos” (ἔσχατος), que significa “último” ou “fim”, e “-logia” (-λογία), que significa “estudo”. Ora, mais do que literalidade, precisamos nos nutrir do amadurecer teológico que acontece ao longo do caminhar dos tempos. A comunidade lucana ainda acreditava na imediata volta de Jesus, assim como demais comunidades que deram origem aos evangelhos. Além disso, viviam em situação de diáspora, após a destruição de Jerusalém (ano 70 d.C.), quando judeus e cristãos se viram obrigados a refugiarem-se na região norte da palestina, assim como na Síria e na Ásia Menor. Além disso, o judaísmo normativo, também refugiado em razão da opressão romana, acentuava cada vez mais a perseguição aos que se identificavam com o profeta Galileu, Jesus. Tanto que no final do Século I, em uma reunião dos rabinos mais tradicionais do judaísmo, decretou-se a excomunhão definitiva dos discípulos e discípulas de Jesus. A este evento chamamos de “Concílio de Jamnia”. Se por um lado esta excomunhão contribuiu para a formação definitiva da identidade do cristianismo, por outro foi oportunidade de se endurecer a perseguição dos religiosos judeus aos cristãos. É neste contexto que se constrói o texto lucano, assim como sua escatologia. Pretende ser muito mais um instrumento de esperança do que de medo. Em verdade, a “vinda do noivo”, a volta do Filho do Homem, trará consigo o fim do sofrimento e da morte. Nesta perspectiva de escatologia-esperança deve se alicerçar toda a fé cristã. Como belissimamente nos exorta uma canção de Pe. Zezinho: “Esperar contra toda esperança”[3].

Dito isso, podemos afunilar nossa compreensão sobre Lc 12,35-40 a partir de que, enquanto esperamos a segunda vinda de Jesus, devemos fazer de nossa vida, nosso tempo, o aqui e agora; momento e oportunidade para que os valores do Reino de Deus se tornem realidade histórica. Vimos que os tempos em que viviam as comunidades de Jesus não foram fáceis. Também nossos tempos estão cheios de decepções, sofrimentos, desafios. Somos impactados a todo instante por políticas de morte pelas quais a dignidade humana é posta em cheque. O que fazer? É tempo de atenção e vigilância na promoção dos valores do Evangelho. Não podemos ceder às tentações das propostas  contrárias aos valores cristãos, sendo eles: amor, justiça, paz, fraternidade, solidariedade e partilha.

A Palavra de Deus em nossas Comunidades

Que tenhamos nossos rins cingidos e nossas lâmpadas acesas! Em um mundo onde os valores do Evangelho são confrontados pelas dinâmicas de poder, busca insana por riquezas e compulsiva cultura da imagem, privilegiando fama e prestígio, em preterimento da verdade; faz-se imperativa atitude profética em defesa da vida.

Celebrando os fiéis defuntos, somos levados a fazer memória de nossos irmãos e irmãs que fizeram sua Páscoa Definitiva. Entre estes, muitos tombaram como mártires pelas causas do Reino. Aqui lembramos Pe. Josimo, Ir. Dorothy Stang, Pe. Ezequiel Ramin, Santo Dias da Silva, Dorcelina de Oliveira Falador, Marçal Guarani, Margarida Maria Alves, entre tantos irmãos e irmãs que foram vítimas de assassínio covarde, em razão das causas pela paz, pela dignidade humana, pelo direito e pela justiça. A estes e estas, rendemos especial homenagem pelo testemunho de fé e vida, que semearam fraternidade, solidariedade e partilha. Cada sangue derramado pelas causas do Reino, se faz precioso aos olhos do Senhor, pois aponta a certeza de que o Evangelho, e suas consequências, é algo pelo qual se deve viver e vale a pena morrer.

Neste domingo, 02 de novembro, celebremos nossos irmãos e irmãs falecidos sob a perspectiva de seus testemunhos do Evangelho. Que sejamos animados a viver a partir da palavra e ação de Jesus, experimentando nesta vida os valores do Reino, na expectativa do Reino Definitivo.

Comunidades Eclesiais em Oração

Senhor,
escutai benigno as nossas preces, para que,
ao reafirmar nossa fé no vosso Filho ressuscitado dos mortos,
também se fortaleça a nossa esperança
na ressurreição de vossos servos e servas.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus,
e convosco vive e reina,
na unidade do Espírito Santo,
por todos os séculos dos séculos.
Amém!




Notas

[1] https://www.cnbb.org.br/liturgia-diaria/

[2] ”Escatologia” tem como principal significado o estudo das “últimas coisas”, como o fim dos tempos, o destino final da humanidade e eventos finais na teologia e filosofia. Na perspectiva cristã, a Segunda Vinda de Jesus e a plenificação de suas promessas.

[3] https://www.youtube.com/watch?v=oOKgnNXFj88


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