Dom Tomás Balduíno: o profeta dos Direitos Humanos!

Por Karina Moreti

Réveillon, véspera de Ano-Novo em 1922. Em todos os cantos, nas cidades e na roça, o povo esperava o limiar de mais um ano. No Brasil, se celebrava o centenário da independência com grande festa e um sentimento de esperança. Claro que, antagonicamente, também havia muitas tensões políticas e sociais na segunda década do século XX. Com olhar fixo nos novos tempos, o patriotismo pulsando nas veias, o Brasil ensaiava seus louvores e sonhos por uma pátria realmente dos brasileiros. Infelizmente a política sempre fala de novos tempos, sem curar suas velhas feridas. Com isso, fala-se de nova vida, com velhos vícios. O ano de 1922 trazia esta marca. Somos uma pátria grande, mas – tanto quanto antes – enorme para aqueles que detinham o poder econômico. Aos abastados, sempre o melhor. Aos pequeninos, exploração, marginalização, exclusão. E assim transcorreu 1922. Realizaram-se grandes celebrações, com destaque para a exposição no Rio de Janeiro, que atraiu mais de 20 chefes de estado. Também em 1922 aconteceu a Semana de Arte Moderna, um movimento vanguardista que buscava romper com padrões artísticos tradicionais e propor uma nova identidade cultural brasileira. Cultura, história e utópico arrojamento marcaram aquele ano. Festejavam a independência. A liberdade. Que liberdade?

Na ideia de um país livre se insere o conceito de dignidade. O contrário constitui uma falácia. Lembremo-nos do contexto da segunda década do século passado.

A década de 1920, como um todo, viu avanços tecnológicos e a emergência de novas ideias em diversas áreas. Apesar dos avanços, o Brasil ainda era um país com grandes desigualdades sociais e econômicas, com mais de 80% da população vivendo no meio rural e uma grande parcela analfabeta. A eleição presidencial de 1922 foi marcada por tensões e questionamentos sobre o resultado, com acusações de fraude e uma atmosfera de desconfiança no cenário político. Com isso, muitas revoltas insurgiram. Entre estas, a Revolta do Forte de Copacabana, em julho de 1922, sinalizando o levante de setores das Forças Armadas contra o governo que demonstrava o descontentamento com o regime republicano vigente. Diante da instabilidade, foi decretado estado de sítio, evidenciando a fragilidade do governo e a insatisfação popular com as condições de vida e a política. Em meio às insurreições militares, destaca-se o movimento tenentista, composto por militares insatisfeitos, que ganhou força e passou a questionar a ordem estabelecida, buscando reformas políticas e sociais. Em resumo, 1922 foi um ano de contrastes no Brasil, com celebrações do centenário da independência, avanços em diversas áreas, mas também com crises políticas, tensões sociais e movimentos de contestação que marcariam os anos seguintes. 

Como nos ensina a sabedoria bíblica, em tempos obscuros, quando a liberdade e a vida se fazem ameaçadas, Deus suscita profetas. No supracitado Réveillon, 31 de dezembro de 1922, nascia na cidade de Posse, Estado de Goiás, Paulo Balduíno de Sousa Décio, conhecido por todos nós como Dom Tomás Balduíno.

As origens de Dom Tomás Balduíno reverberam as origens de todo o povo brasileiro. Nascido em uma família de onze irmãos, três meninos e oito meninas, nos interiores do serrado goiano. Como muitas famílias da primeira metade do século passado, o êxodo fez parte da história da família de D. Tomás. Seu pai, José Balduíno de Sousa Décio, ocupava-se do Direito enquanto profissão. Com a esposa, Felicidade de Sousa Ortiz, migrou de Posse para Formosa, também interior de Goiás, onde se tornou promotor público e depois juiz, cargo no qual se aposentou. O menino sentiria seu chamado vocacional na tenra idade, ingressando na Ordem dos Pregadores, tornando-se frade dominicano.

O caminho formativo de D. Tomás Baduíno se inicia em Juiz de Fora, Minas Gerais. Lá fez a etapa do Seminário Menor – Escola Apostólica Dominicana. Após este tempo de formação inicial, foi para Uberaba, onde cursou o ensino secundarista no Colégio Diocesano, na época sob os cuidados dos Irmãos Maristas. Terminado o noviciado, mudou seu nome de Paulo para Frei Tomás, tomando sobre si a proteção onomástica de um dos mais célebres santos dominicanos, como costume na época. em seguida, cursou filosofia em São Paulo e teologia em Saint Maximin, na França, onde também fez mestrado em Teologia. Recebeu a ordenação presbiteral em 1948.

Seguiu-se uma linda história. Fecunda como sacerdote e professor. Em 1950, lecionou filosofia em Uberaba. Em 1951 foi transferido para Juiz de Fora como vice-reitor da então Escola Apostólica Dominicana e lecionou filosofia, na Faculdade de Filosofia da cidade. Em 1957, foi nomeado superior da missão dos dominicanos da Prelazia de Conceição do Araguaia, estado do Pará, onde viveu de perto a realidade indígena e sertaneja. Na época a Pastoral da Prelazia acompanhava sete grupos indígenas. Para desenvolver um trabalho mais eficaz junto aos índios, fez mestrado em Antropologia e Linguística, na UNB, que concluiu em 1965. Estudou e aprendeu a língua dos índios Xicrin, do grupo Bacajá, e Kayapó. Sua vida foi marcada pelas letras e pelos pés firmes na realidade.

Ao longo desta caminhada, Frei Tomás foi se tornando pessoa de grande relevância para a Igreja, face ao seu compromisso com os pobres e marginalizados. Conciliava sua hermenêutica do Evangelho com a necessidade do povo sofrido. Para melhor atender a enorme região da Prelazia que abrangia todo o Vale do Araguaia paraense e parte do baixo Araguaia mato-grossense, fez o curso de piloto de aviação. Amigos solidários da Itália o presentearam com um teco-teco com o qual prestou inestimável serviço, sobretudo no apoio e articulação dos povos indígenas. Também ajudou a salvar pessoas perseguidas pela Ditadura Militar. Aos poucos, Frei Tomás passa a entender que o Evangelho de Jesus casava-se perfeitamente com a necessidade de se promover e defender os Direitos Humanos. Consequentemente ao seu arrojado compromisso com os marginalizados e perseguidos, em 1965, ano em que terminou o Concílio Ecumênico Vaticano II, foi nomeado Prelado de Conceição do Araguaia. Lá viveu de maneira determinante e combativa os primeiros conflitos com as grandes empresas agropecuárias que se estabeleciam na região com os incentivos fiscais da então SUDAM, e que invadiam áreas indígenas, expulsavam famílias sertanejas, os posseiros, e traziam trabalhadores braçais de outros Estados, sobretudo do nordeste brasileiro, que eram submetidos, muitas vezes, a regimes análogos ao trabalho escravo. Em 26 de novembro de 1967, foi ordenado bispo da Diocese de Goiás, onde permaneceu por 31 anos. Seu ministério episcopal coincidiu, a maior parte do tempo, com a Ditadura Militar (1964-1985). Sensível aos clamores por liberdade e vida, em defesa dos Direitos Humanos, tornou-se referência para a Igreja no Brasil, suscitada por Deus ao cuidado dos vulneráveis.

Gradualmente, a vida de Dom Tomás Beduíno soma-se à história de organização dos pobres em resistência aos poderes de morte. Junto à Diocese de Goiás, procurou adequar a esta Igreja Particular ao novo espírito do Concílio Ecumênico Vaticano II e de Medellín (1968). Por isso sua atuação, ao lado dos pobres, no espírito da opção pelos pobres, marcou profundamente a Diocese e seu povo. Lavradores se reuniam no Centro de Treinamento onde Dom Tomás morava, para definir suas formas de organização e suas estratégias de luta. Alguns movimentos nacionais como o Movimento do Custo de Vida, a Campanha Nacional pela Reforma Agrária, encontraram apoio de Dom Tomás fecundaram frutos na Diocese onde vivia. Esta atuação provocou a ira do governo militar e dos latifundiários que perseguiram e assassinaram algumas lideranças dos trabalhadores. Em julho de 1976, Dom Tomás foi ao sepultamento do Padre Rodolfo Lunkenbein e do índio Simão Bororo, assassinados pelos jagunços, na aldeia de Merure, Mato Grosso. O velório e sepultamento deste mártires substituiu outros compromissos de D. Tomás, pois precisava despedir-se de seus companheiros de caminhada. Soube o bispo posteriormente que naqueles dias havia uma emboscada armada para matá-lo. Este atentado não aconteceu, pois como esteve nos funerais dos mártires acima citados, não compareceu à agenda anterior sob a qual se planejou a emboscada com o intuito de assassiná-lo.

Os conflitos agrários foram crescendo e se agravando a cada dia. Neste tempo a Igreja dava respostas coerentes com a realidade dos povos indígenas e sertanejos, vítimas do latifúndio explorador e assassino. Dom Tomás foi personagem fundamental no processo de criação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), em 1972, e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1975.  Nas duas instituições Dom Tomás sempre teve atuação de relevante compromisso, tendo sido presidente do CIMI, de 1980 a 1984 e presidente da CPT de 1999 a2005. A Assembleia Geral da CPT, em 2005, o nomeou Conselheiro Permanente, ligando-se a história desta Comissão à de Dom Tomás para todo o sempre.

Em 2 de dezembro de 1998 torna-se bispo emérito. Depois de deixar a Diocese de Goiás, além de ser presidente da CPT, desenvolveu uma extensa e longa pauta de conferências e palestras em Seminários, Simpósios e Congressos, tanto no Brasil quanto no exterior. Por sua atuação firme e corajosa, recebeu diversas condecorações e homenagens Brasil afora. Em 2002, a Assembleia Legislativa do Estado de Goiás lhe concedeu a medalha do Mérito Legislativo Pedro Ludovico Teixeira. No mesmo ano recebeu o Título de Cidadão Goianiense, outorgado pela Câmara Municipal de Goiânia.

Além do até aqui exposto, Dom Tomás teve outros reconhecimentos públicos de suas atividades em defesa de Diretos Humanos, além de alguns convites, pelos quais, foram-lhe atribuídas atividades de grande visibilidade internacional:

No dia 8 de novembro de 2006, Dom Tomás recebeu da Universidade Católica de Goiás (UCG) o título de Doutor Honoris Causa, devido ao comprometimento de Dom Tomás com a luta pelo povo pobre de Deus.

No dia 18 de abril de 2008 recebeu em Oklahoma City (EUA), da Oklahoma City National Memorial Foudation, o prêmio Reflections of Hope. A organização considerou que as ações de Dom Tomás são exemplos de esperança na solução das causas que levam a miséria de tantas pessoas em todo o mundo. A premiação Reflections of Hope foi criada em 2005 para lembrar o 10º aniversário do atentado terrorista de Oklahoma – quando um caminhão-bomba explodiu em frente a um edifício, matando 168 pessoas – e para homenagear aqueles que representam a esperança em meio à tragédia e dedicam suas vidas para melhorar a vida do próximo.

De 22 até 29 de março 2009 foi em Roma para participar das palestras em homenagem de Dom Oscar Romero e dos 29 anos do seu assassinato.

Em 2012 a Universidade Federal de Goiás (UFG) também lhe outorgou o título de Doutor Honoris Causa. Em dezembro do mesmo ano, durante as comemorações dos seus 90 anos, a CPT homenageou-o dando o seu nome ao Setor de Documentação da Secretaria Nacional, que passou a se chamar “Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno”.

O bispo dos Direitos Humanos, Profeta da Esperança, fez sua Páscoa Definitiva na madrugada do dia 02 de maio de 2014, aos 91 anos. Sua vida foi testemunho de que o Evangelho os leva às pessoas, sobretudo aos vulneráveis. Lembrar deste grande homem de Deus, é celebrar uma Igreja que se entende missionária e samaritana; comprometida com a defesa da vida e da dignidade. Dom Tomás foi um vocacionado, suscitado por Deus ao projeto de vida em abundância reservado a todos e todas que esperam a plenificação de seu Reino. A vida do bispo, profeta dos Direitos Humanos, é sacramental vivo do Evangelho da justiça, da paz e da esperança.


Sobre a autora

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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