Deus nos chama a partir da história – Parte 8: A ambição de Acã e o fracasso de Deus

Por Karina Moreti

Hoje refletiremos sobre a coerência necessária para responder positivamente ao chamado de Deus. É sempre importante salientar que, onde existe projeto divino, não há espaço para contraprojetos humanos, como a ganância e a ambição. Estas tentações podem prometer segurança e reconhecimento, mas acabam por apagar o sentido da vocação.

Em nossa série, estamos visitando personagens bíblicos e seus contextos, no desejo de comprovar que Deus se inter-relaciona com seu povo sempre dentro de uma realidade específica. Através de seus testemunhos de vida, vamos aprendendo como Deus se revelou e os libertou de suas amarras por meio do chamado.

Com Abraão, aprendemos que o chamado de Deus exige deslocamento e fé (Gn 12,1-4). Em Sara, descobrimos que a promessa divina ultrapassa as impossibilidades humanas (Gn 18,12-14). Em Agar, que Deus vê o invisível e se revela aos esquecidos (Gn 16,13). Em Moisés, que a libertação começa quando se ouve o clamor do oprimido (Ex 3,7). Em Miriã, que a voz profética também canta e conduz à liberdade (Ex 15,20-21). Em Josué, que as muralhas mais sólidas são aquelas que estão dentro de nós (Js 6,20). E em Raab, que a fé autêntica floresce onde há acolhimento e confiança (Js 2,11). Cada uma dessas personagens manifesta uma face da fidelidade divina.

Não é o que acontece com o personagem que iremos contemplar hoje. Acã, do livro de Josué, nos introduz a algo sombrio na caminhada do povo de Deus: o momento em que o ser humano tenta ocultar o que pertence a Iahweh. Ele representa o lado obscuro da resposta humana ao chamado: o dom substituído pela posse e a comunhão trocada pelo acúmulo.

Depois da vitória sobre Jericó, o povo de Israel estava pronto para conquistar Hai, uma pequena cidade cananeia. Josué, confiante, envia poucos homens para a batalha. Mas, inesperadamente, são derrotados. Diante disso, Josué se prostra diante de Deus e pergunta por que o Senhor permitiu tal fracasso.

Iahweh responde:

“Israel pecou; violou a aliança que eu lhes ordenei. Sim, tomou do que era anátema, e até furtou, dissimulou e colocou entre as suas bagagens” (Js 7,11).

“Anátema” eram todas as coisas que deveriam ser consagradas exclusivamente a Deus após a conquista de Jericó — especialmente o ouro, a prata e os objetos preciosos. Esses bens simbolizavam que a vitória vinha do Senhor e, portanto, não deveriam pertencer às pessoas.

Porém, Acã, da tribo de Judá, encantou-se com o brilho do ouro e com a beleza de um manto babilônico, tomando para si o que era de Deus e escondendo-o debaixo da tenda (Js 7,21). Assim, rompeu-se a aliança e introduziu-se o pecado da ganância e da desobediência no acampamento. Pelo oráculo divino, o culpado é revelado, e Acã confessa:

“Entre os despojos, vi uma capa babilônica muito bo­nita, duzentas moedas de prata e uma barra de ouro que pesava meio quilo; eu os cobicei e peguei. Estão escondidos no chão, no meio da minha tenda, com a prata por baixo.”

O castigo é severo: tudo o que pertencia a Acã é destruído no vale de Acor — palavra que significa “vale da desgraça”. Após isso, Israel volta a vencer, e Hai é conquistada.

O episódio de Acã (Js 7) é uma grande catequese. Não pelas imagens de violência ao final do capítulo — pois o livro de Josué não descreve uma guerra material, mas uma batalha interior, no sentido teológico. Jericó simboliza os medos que precisam ruir; Hai, as intenções que devem ser purificadas. Acã é aquele que impede a vitória porque esconde o pecado da ganância debaixo da tenda.

Acã é um personagem muito atual. Não é difícil reconhecê-lo em diversas expressões eclesiais, sobretudo nos meios de comunicação religiosos. O dinheiro e o poder têm concorrido com o Evangelho. Não podemos negar que muitos projetos nasceram com o objetivo de anunciar a Boa-Nova, mas, com o tempo, e por diversas circunstâncias, acabaram mais preocupados com a sustentação financeira de suas estruturas do que com a conversão dos corações. Muitos assumiram o risco de transformar o Evangelho em produto e o altar em palco. Assim, reencontramos Acã, escondendo o que é de Deus debaixo da tenda.

A história de Acã revela a tensão entre a ambição humana e o projeto de Deus. O projeto divino se fundamenta na liberdade, na solidariedade e na partilha. O projeto humano, quando corrompido pela ganância, estrutura-se na posse, no poder e no acúmulo. Entre esses dois caminhos, se trava a grande luta da vocação.

Acã quebra a comunhão porque toma para si o que deveria ser entregue a Iahweh (Js 7,1) e o que é de Deus, é de todos os seus filhos e filhas. Ele esconde a prata, o ouro e o manto babilônico — símbolos da tentação, pois ela transforma a graça em propriedade. Sua desobediência não é um simples erro moral: é a negação do modo de agir de Deus. Seu egoísmo interrompe o movimento da graça em todo o povo, porque o chamado divino é sempre comunitário.

Nesse sentido, o Evangelho mateano nos ensina que a justiça é a plenitude do amor (Mt 5,6; 5,20). É o amor que se faz concreto e se compromete com a vida do outro. O Evangelho joanino, por sua vez, recorda que esse amor deve ser a marca dos discípulos de Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34-35). Já o Evangelho da comunidade de Lucas nos adverte que nem tudo o que é justo pela lei é justo aos olhos de Deus (Lc 10,25-37), pois a verdadeira justiça é inseparável da misericórdia.

Desse modo, amor, justiça e misericórdia formam um círculo perfeito: o amor gera a justiça; a justiça se realiza na misericórdia; e a misericórdia devolve o amor à sua fonte divina. Romper esse círculo é negar o Evangelho em sua essência.

Acã é o arquétipo da tentação não vencida. Jesus, ao contrário, é o ícone da fidelidade absoluta. O que Acã esconde, Jesus oferece. As tentações no deserto (Mt 4,1-11) — a abundancia, o poder e o prestígio — são a superação das mesmas seduções que dominaram Acã: posse, domínio e vaidade. Jesus escolhe o caminho oposto: em vez de acumular, partilha; em vez de dominar, serve; em vez de buscar a glória, ama. Nele, amor, justiça e misericórdia voltam a se unir plenamente. A vitória de Cristo no deserto é a vitória da coerência — a fidelidade perfeita ao projeto do Pai.

Infelizmente, muitos dos que se dizem anunciadores do Evangelho, agarram-se à Lei para evitar o compromisso com a compaixão. Defendem normas, mas não acolhem pessoas; proclamam fé, mas não praticam a partilha. A Lei, quando destituída da misericórdia, torna-se instrumento de exclusão; e o Evangelho, quando perde o amor, converte-se em ruído vazio (cf. 1Cor 13,1).

Lembrando nosso último texto, fazendo um paralelo, encontramos em Raab alguém que, mesmo sem fazer parte do povo da aliança, age com fé e obediência, tornando-se instrumento da salvação. Nela, o amor se manifesta na acolhida e no serviço. Raab encarna a justiça que nasce do amor — como ensina Jesus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34). Acã, por sua vez, mesmo sendo parte do povo escolhido, age com egoísmo e desobediência, trazendo ruína sobre Israel. Nele prevalece o interesse pessoal que representa a ruptura desse amor, quando o coração se fecha à vontade divina. Esse contraste revela que a pertença ao povo de Deus não é questão de origem, mas de fidelidade ao amor que salva.

Enquanto Raab, mulher estrangeira e marginalizada, acolhe o projeto de Deus e se coloca do lado da vida — arriscando tudo para proteger os enviados de Josué (Js 2,1-21) —, Acã, homem israelita da tribo de Judá, trai a aliança, escondendo o que pertencia a Iahweh (Js 7,1).

Atualizando a história de Acã, aprendemos que onde há anúncio do Evangelho, não pode haver ganância humana. O dinheiro, o lucro e o prestígio não podem concorrer com a justiça, o amor e a misericórdia. O Evangelho não é produto a ser vendido, mas dom a ser partilhado. Não é espetáculo, mas serviço. Não é propriedade, mas missão.


Sempre que a fé é usada para enriquecer, o Reino se empobrece; sempre que a evangelização se torna estratégia de mercado, o Evangelho perde sua força profética. E, quando o anúncio de Cristo serve a interesses pessoais ou institucionais, ocorre o que poderíamos chamar de o risco do “fracasso de Deus” — não porque Deus fracasse, mas porque o coração humano impede sua ação transformadora.

A narrativa sobre Acã é, em si, uma catequese sobre coerência e desapego. Deus não busca corações impecáveis, mas corações inteiros — unificados entre fé e vida, entre oração e compromisso. Responder ao chamado divino é permitir que caiam as muralhas da ambição e se restaure a comunhão. A verdadeira vitória espiritual acontece quando o amor se torna justiça e a justiça se faz misericórdia.

Quando falamos em “fracasso de Deus”, não significa que o fracasso está em Deus, mas em nós — é o nosso egoísmo que impede que o seu amor se manifeste plenamente. No entanto, toda vez que alguém escolhe a generosidade e a solidariedade, a vitória do povo é celebrada. Acã é destruído. Deus vence novamente dentro da história humana.

Querido Deus libertador,
livra-nos da ambição que destrói a comunhão.
Ensina-nos a não esconder o que te pertence
e a viver na alegria da partilha e da comunhão.
Que a tua justiça seja o rosto visível do teu amor,
e que a tua misericórdia nos faça fiéis ao teu projeto.
Amém.


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