“Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”
(Jo 2,16b)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Neste domingo da 32ª Semana do Tempo Comum, a liturgia nos convida a celebrar a Festa da Dedicação da Brasília de Latrão. A história da Basílica de São João de Latrão remonta ao início do século IV, (313 d.C.), quando o imperador Constantino a doou ao Papa Melquíades. Originalmente dedicada ao Santíssimo Salvador, sofreu diversas reconstruções em razão de intempéries climáticas e invasões militares. Consagrada pelo Papa Silvestre I, em 324 d.C., a basílica tornou-se a catedral de Roma e a residência oficial dos papas por mais de mil anos. O espaço sagrado aqui é sinal da caminhada da Igreja ao longo dos séculos, motivo pelo qual se justifica a celebração de sua dedicação. Em sua arquitetura se abriga a fé e a vida das comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus que, ao longo dos tempos, anunciaram o Evangelho por palavras e ações, muitas vezes, doando suas vidas.
A Casa de Deus, enquanto espaço sagrado, deve refletir o caminhar na fé de seus filhos e filhas, assim como, o compromisso deles e delas por fazer sua vontade. É neste sentido que se fundamenta a indicação na liturgia da perícope do Evangelho de João 2,13-22.
Contextualizando
Em Jo 2,13-22 Jesus está em Jerusalém, capital do povo judeu. Sua presença na Cidade Santa é marcada por duas reações diferentes: o povo pobre o aclama como o Rei-Messias, instaurador da justiça e da paz, libertador dos pobres e fracos. Em paradoxo, as autoridades sentem-se ameaçadas em seu prestígio e relações de poder, que repousam grandemente nas atitudes injustas promovidas pelo poder religioso que corrobora desigualdades. Temem que o pregador galileu e seu movimento religioso inflame o povo, para que reaja às injustiças, buscando transformações em prol da liberdade e da vida.
Algo curioso sobre o evangelho joanino, é que a perícope referente ao embate de Jesus com os “vendilhões do Templo” está localizado no início de seu Evangelho, e não no contexto dos dias de Jesus em Jerusalém que precedem sua Paixão, Morte e Ressurreição; como nos sinóticos Mateus (22,12-13), Marcos (11,15-17) e Lucas (19,45-46). A colocação da passagem da expulsão dos vendilhões do templo no início do Evangelho de João, tem um propósito teológico, não estritamente cronológico. A comunidade joanina usa este evento como um prefácio poderoso para apresentar a identidade e a missão de Jesus. Trata-se de uma declaração da autoridade divina de Jesus e de sua identidade messiânica. Ao colocar este evento no início do ministério público de Jesus, o evangelista o estabelece imediatamente como aquele em quem se depositam a esperança e o sentido definitivo da relação entre o divino e o humano. Jesus ressignifica a Casa de Deus, denunciando a deturpação do culto, transformado em comércio. E ele vai além: o clímax da passagem em João não é apenas a expulsão dos ambiciosos e corruptos em si, mas a declaração de Jesus: “Destruí este templo, e em três dias o levantarei” (2,19). João explica que Jesus falava do templo do seu corpo. Ao antecipar este episódio, o evangelista introduz o tema central de que o próprio Jesus é o novo e verdadeiro lugar da presença de Deus e de sua reconciliação com a humanidade, superando o templo físico de Jerusalém, que se tornara corrupto e sinal de exclusão e marginalização.
No tempo de Jesus, em Jerusalém se refletiam duas grandes chagas na estrutura religiosa: o lucro do Templo diante do serviço religioso e a exploração do comércio externo, que viabilizava a atividade sacerdotal.
A teologia da retribuição afetava de forma lancinante os pobres e demais minorias. Com os muitos desdobramentos da Lei a partir da reforma pós-exílica, ficava impossível que alguém pudesse manter a fidelidade de forma plena. A base da lei judaica era composta pela Torá (os cinco livros de Moisés), pelos Profetas (Nevi’im) e pelos Escritos Sapienciais (Ketuvim). A teologia do judaísmo normativo instituiu subdivisões dos preceitos revelados ao Povo Hebreu por intermédio de Moisés. A leitura da Torá (Pentateuco) identificava 613 mandamentos (mitzvot), que se dividem em 248 mandamentos positivos (obrigações) e 365 negativos (proibições). Como o povo simples e muitas vezes iletrado poderia manter sua fidelidade? Por isso, o judaísmo também instituía uma série complexa de sacrifícios expiatórios, pelos quais o povo poderia restaurar a unidade com a religião e sociedade judaicas. E aqui vale lembrar que a palavra da religião judaica tinha imediata aplicação nas relações sociais. Tão logo a religião declarasse a impureza ou situação de pecado de determinada pessoa, esta estaria excluída da sociedade, sendo vetado qualquer contato social com o pecador impuro. O que fazer? Expiar a culpa. E, para isso, os serviços religiosos sacrificiais estavam ali à disposição. E aqui entrava o papel do comércio. Toda sorte de animais apropriados ao sacrifício, assim como demais itens necessários, ficavam dispostos para a venda, aos arredores do Templo. Além disso, os peregrinos que vinham à Jerusalém para as festividades religiosas, precisavam trocar suas moedas locais por moedas aceitáveis no Templo (siclos de Tiro), para pagar o imposto ao Templo e comprar animais para sacrifícios. Os cambistas lucravam com essa troca, cobrando um ágio.
Aprofundando Jo 2,13-22
Diante da complexa estrutura que favorecia a opressão religiosa e a exploração financeira, Jesus reage, desejoso de resgatar o real sentido da relação entre a humanidade e seu Paizinho do Céu. Para restaurar este real sentido, ele toma posse da Casa do Pai, purificando não só a religião, mas toda a vida econômica e política do povo.
“Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo,
junto com as ovelhas e os bois;
espalhou as moedas
e derrubou as mesas dos cambistas.”
(Jo 2,15).
Diante da ação oportuna e necessária de Jesus, vem o questionamento dos que estavam à sua volta: “Que sinal nos mostras para agir assim?” (2,18). Sua resposta é intrigante, apontando para além daquilo que os envolvidos na cena poderiam entender: “Destruí este Templo, e em três dias o levantarei” (2,19). Ele se referia à libertação final, o sacrifício definitivo: sua Paixão, Morte e Ressurreição.
Por mais que a reforma pós-exílica possa ser resultado de uma necessidade do povo que voltava do Exílio da Babilônia, quando se precisava restaurar a identidade de quem fora expatriado e vilipendiado de suas origens, aos poucos esta reforma perdeu seu carisma, abrindo portas para o exercício aficionado do poder. A religião que nascia da revelação de um Deus que escolhe os oprimidos como seus prediletos, torna-se paradoxalmente opressora. A gratuidade de Deus é substituída pela pedagogia do “toma lá, dá cá”. Pela liturgia engessada no deslumbramento, esvaziada de sentido. O Templo, pretensamente Casa de Deus, deturpa-se como lugar da sede de poder, com suas implicações propensas à injustiça, exploração e marginalização. Diante disso, Jesus retoma o mais fiel sentido do sacrifício, fazendo de sua vida: altar, sacerdócio e oferenda (cf. Hb 4,14-16; 5,5-10; 7,26-28; 9,12; 9,28; 10,10-14; 13,10). Ele se torna a vítima derradeira, o Cordeiro Pascal.
A Palavra de Deus em nossas Comunidades
Não é raro em nosso dia a dia nos depararmos com pregadores que plantam sementes de medo e divisão em seus púlpitos. Limitam a ação de Deus às condições que acreditam ser prerrogativas ao perdão. Assim como o judaísmo normativo no tempo de Jesus, anunciam uma limitação da misericórdia divina a critérios que acreditam anteceder à graça. São desdobramentos infinitos de cláusulas condicionais ao perdão, à pertença na comunidade, à participação sacramental e ministerial na Igreja. Como se o sacrifício soteriológico de Jesus estivesse condicionado às cláusulas humanas. “A salvação existe, mas não para esse ou aquele tipo de gente”. Como se ao redor de Jesus estivessem somente os previamente aprovados pela moral judaica. Ao contrário, Jesus foi duramente criticado por cercar-se de pessoas não recomendáveis pela sociedade e religião de seu tempo. Se esta é uma verdade que nos aponta os relatos do Evangelho, porque nós – seguidores e seguidoras de Jesus – queremos repetir comportamentos pelos quais ele mesmo lutou para desconstruir? A metodologia do “ou santos, ou nada” e “somos cidadãos do céus” – contrapondo-se a tudo que é secular, mais se assemelha ao jeito de pensar e viver dos Fariseus do que dos discípulos e discípulas do Cristo. Essa religião que se opõe ao mundo, por um dualismo doente, não pode ser a Igreja que segue a Jesus. Ao contrário: aqueles e aquelas que professam a fé no Messias, devem transformar nossa realidade em um prelúdio, uma antessala do Céu. Não de forma alienada, angélica. Ao contrário, de forma eficazmente transformadora, através das propostas do Evangelho por justiça, paz e alegria, vivendo a solidariedade e a partilha. Vivendo o Reino de Deus, na expectativa do Reino definitivo.
Atentando-nos de forma mais pontual ao relato de Jo 2,13-22, precisamos nos preocupar especialmente com nossa relação eclesial com o dinheiro. Não raramente somos provocados, não sem alguma indignação, por iniciativas que retomam as pedagogias do poder, do luxo e, consequentemente, da exploração em nossas comunidades eclesiais. Assim como na Jerusalém do tempo de Jesus, os espaços sagrados e suas liturgias são lugar e oportunidade para arrecadação desenfreada de recursos financeiros para se construir santuários cheios de luxo e ostentação, mas vazios de Jesus e de seu Evangelho. E não nos esqueçamos de que a moda litúrgica recentemente se revestiu de um luxo escandaloso, destoante da realidade de nosso povo, na maioria das vezes muito pobre. São brocados, veludos, rendas, entre outros penduricalhos, que simbolizam poder e não serviço. Sacerdotes cheios de “dignidade aparente”, mas vazios do testemunho de Jesus, o Bom Pastor. Enquanto isso, nosso povo passa fome, é carente de moradia digna, tem saúde e educação sucateadas, entre tantas outras mazelas sociais. O luxo de nossos espaços sagrados, os dourados de nossos vasos litúrgicos e as vestes de nossos sacerdotes; insultam a Jesus, que se encarnou no meio dos pobres, com eles viveu e por eles morreu. Ele é o Messias dos pobres (cf. Lc 4,16-21), e a liturgia que celebra seu Mistério Pascal deve ser consonante à sua vida e missão, e não aos nossos arroubos por ganância, poder e luxo.
O Evangelho da liturgia de hoje nos provoca a uma conversão ao pobre. Nosso amado Papa Francisco, de quem guardamos saudosa memória, nos provocava: “vocês tornem visível uma Igreja pobre com e para os pobres, uma Igreja em saída que está próxima das pessoas em situações de sofrimento, precariedade, marginalização e exclusão”. Assim seremos, de fato, seguidores e seguidoras de Jesus, testemunhas de seu Evangelho em seu lugar teológico; pois o verdadeiro Templo de Deus é a vida de seu povo!
Comunidades Eclesiais em oração
Ó Deus,
como pedras vivas e escolhidas preparais um templo eterno para vossa glória;
aumentai na vossa Igreja os dons do Espírito que lhe destes,
para que vosso povo fiel cresça sempre mais,
edificando a Jerusalém celeste.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e convosco vive e reina,
na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.
Amém!
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