Por Karina Moreti
Continuemos nossa caminhada junto à história do povo de Deus. Entramos no livro de Juízes. Após a morte de Josué o povo começa a se perder. Aqui nos é apresentada Débora. Esta não era apenas uma mulher comum aos olhos de Deus e do povo. Era uma mulher valente, decidida, juíza e profetisa de Iahweh.
Débora vive um dos períodos mais conturbados da história de Israel. Seu povo está afastado de Iahweh e é oprimido por Jabim, rei de Canaã, cujo exército era comandado por Sísera. Esse exército trazia uma novidade para aquele tempo: máquinas de guerra! Até então, na história dos povos do Antigo Oriente Próximo, as guerras eram travadas por infantarias (soldados à pé) e cavalarias. Os metais ainda não eram beneficiados com eficiência. Todavia, no tempo dos juízes, passamos da era do bronze para a era do ferro. Com isso, tendo metais mais resistentes, começou-se a idealizar máquinas de guerra — ou seja, uma força sobre-humana “invencível”. Pelo medo dos cananeus, as estradas estavam desertas, os corações temerosos, e o povo já havia esquecido quem fora seu libertador, Iahweh. A nova sociedade de homens e mulheres livres, idealizada por Moisés e Josué, sofria grande abalo diante dos infortúnios e o medo gerado pelo poderoso exército de Sísera e suas máquinas devoradoras de homens.
É neste contexto de desesperança, que Iahweh suscita Débora, mulher de fé, sabedoria e escuta. Ela era uma conhecida juíza de seu tempo. Julgava Israel sob uma palmeira, entre Ramá e Betel, símbolo de justiça e retidão. Débora não fez parte das forças armadas de sua época. Ela não lidera através da espada. Sua força estava no discernimento e na sabedoria. Sua autoridade nasce da escuta de Deus e do compromisso com a verdade.
Ao chamar Baraque, filho de Abinoem, ela lhe transmite o que ouviu no oráculo de Iahweh: “Javé, Deus de Israel, manda que você vá ao monte Tabor e reúna dez mil homens das tribos de Neftali e Zabulon.” (Jz 4,6). Porém, Baraque, – homem, militar, que está desanimado e indeciso – hesita. Ele tem medo e sente-se incapaz: “Se você for comigo, eu vou. Se você não for, eu não vou” (Jz 4,8). Débora, com firmeza e serenidade, profetiza uma palavra misteriosa:
“Está bem. Eu vou com você. Mas a glória dessa expedição que você vai realizar não será sua, pois Iahweh entregará Sísara nas mãos de uma mulher” (Jz 4,9).
Essa profecia marca o eixo do relato bíblico. Interessante observar que pela leitura do texto espera-se que a mulher anunciada seja a própria Débora, líder espiritual e figura pública. Mas Iahweh surpreende. Ele escolhe Jael. Mulher simples, esposa de Héber, o quenita, ou seja, estrangeira, uma pessoa quase invisível. Nela se cumpre o que Débora anunciou, mostrando que o agir divino se realiza fora das lógicas humanas e das estruturas de poder.
O texto bíblico em momento algum descreve a batalha, porque a luta é de Iahweh. O relato silencia as espadas e exalta a mão invisível de Deus: “Iahweh derrotou Sísara com todos os seus carros e todo o seu exército, diante de Barac. Sísara teve que descer do carro e fugir a pé.” (Jz 4,15). É a vitória da fidelidade de quem confia, não vem do esforço humano.
Sísera, comandante do exército cananeu, foge e busca refúgio na tenda de Jael. Ela o acolhe, cobre-o com um manto, oferece leite — um gesto de hospitalidade que oculta um chamado divino. Com o inimigo adormecido, Jael compreende que a promessa de Deus se cumpre nela. Com coragem, ergue uma estaca de tenda e com um martelo, dá-lhe um golpe certeiro, tomando-lhe a vida. Ela vence o grande inimigo, selando a libertação de Israel. O grande comandante, com seu numeroso exército e suas máquinas de guerra, sucumbe diante de uma mulher simples e estrangeira. Como nos dirá futuramente a Virgem Maria, os poderosos são derrubados e os humildes exaltados. Na ação libertadora de Iahweh sempre há uma pitada do tempero da subversão.
Assim, Jael torna-se a mulher da profecia. O que Débora proclamou pela palavra, Jael realiza pela ação. Deus age através de ambas: uma fala em nome do Senhor, outra obedece, coloca-se à inspiração, silenciosa. Ambas revelam que a vitória pertence a Deus, e não ao poder humano. Seja ele do patriarcado ou das armas.
O Cântico de Débora, no capítulo seguinte (Jz 5), eleva esse acontecimento à poesia sagrada. A juíza canta a vitória do Senhor e reconhece o papel de Jael:
Que Jael seja bendita entre as mulheres,a mulher de Héber, o quenita; bendita seja entre as que habitam em tendas. (Jz 5,24).
Em nossos dias, muitos falam em Deus dos Exércitos quando na verdade o próprio cântico exalta a fidelidade do povo ao seu Deus Libertador. Neste cântico, Débora louva o Deus que vence a opressão por caminhos inesperados. A ausência da descrição minuciosa da batalha é intencional: a vitória é obra de Iahweh. Ele age quando o povo se abre à obediência.
No chamado destas mulheres se entrelaçam duas vocações: a palavra profética e o gesto fiel. Débora anuncia, Jael realiza. Ambas são portadoras da presença de Deus — antecipando a lógica do Evangelho, onde uma mulher, Maria, será o lugar teológico do cumprimento da Palavra divina. A tenda de Jael, como o seio de Maria, torna-se espaço de libertação e de promessa.
Este relato bíblico nos ensina que ninguém luta sozinho. Baraque não vence sem Débora, Débora não cumpre a promessa divina sem Jael, e Jael não age sem Deus. A vitória pertence à comunhão daqueles que escutam e confiam, ou seja, pertence a toda comunidade. A batalha é de Iahweh, e o coração obediente é seu campo de ação.
Amado Deus Libertador, Deus de Débora e de Jael,
ensina-nos a reconhecer teu agir em nossas vidas,
mesmo quando tudo se apresenta em silêncio e fraqueza.
Dá-nos a escuta de Débora, que discerne tua vontade;
a fé de Baraque, que aprende a confiar;
e a coragem de Jael, que cumpre tua promessa em silêncio.
Que saibamos compreender que a vitória é sempre tua,
e que tu realizas tua obra nas mãos simples dos que te amam.
Faz de nós portadores da profecia e realizadores da tua paz.
Amém.
Referência
BÍBLIA. Nova Bíblia Pastoral. São Paulo: Paulus, 2019.
Disponível em: https://biblia.paulus.com.br/biblia-pastoral/antigo-testamento/livros-historicos/livro-dos-juizes/4/9. Acesso em: 2 nov. 2025.
BÍBLIA DO PEREGRINO. São Paulo: Paulus, 3ª Edição, 2017.
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 1ª Edição: revista e ampliada, 2002.
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