“O Senhor virá julgar a terra inteira; com justiça julgará”
(Salmo 97/98,9a.)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Na Liturgia do 33º Domingo do Tempo Comum, o Evangelho de Lucas nos aprofunda sobre o sentido do Templo e de Jerusalém – a Cidade Santa – símbolos da religião judaica, e sua relação com a vida e afetivo do povo. Semana passada, ao celebrarmos a Dedicação da Basílica de São João de Latrão, vimos pelo Evangelho de João 2,13-22, que Jesus busca restaurar o verdadeiro sentido dos espaços sagrados, como sinais concretos da Aliança entre Deus e a humanidade. A Casa de Deus deve abrigar a proximidade, a acolhida e a vida. Não ser lugar e oportunidade para a exploração, a marginalização e a exclusão.
Em Lucas 21,5-19, somos apresentados à perspectiva do sofrimento que viverão cristãos e cristãs, assim como todo o povo judeu, diante da opressão romana. A cidade de Jerusalém será destruída, assim como seu Templo. Todavia, na liturgia do domingo passado, fomos convidados a entender que o verdadeiro Templo de Deus deve ser a vida de seu Povo e que Jesus, por seu Sacrifício Pascal, se torna sinal desta vida em Deus. Ele mesmo faz de sua vida altar, oferenda e sacerdócio (cf. Hb 4,14-16; 5,5-10; 7,26-28; 9,12; 9,28; 10,10-14; 13,10). Neste sentido, em consonância com o Evangelho da celebração do domingo passado, somos convidados a entender que o Templo – quando não acolhe o povo de Deus, suas alegrias, esperanças e dores – é somente um prédio, que hoje está de pé, amanhã pode ser só ruínas. Portanto, o Templo deve refletir a religião que experimenta em seu íntimo a fé e a vida.
Contextualizando Lc 21,5-19
Na Evangelho da Liturgia do 33º Domingo do Tempo Comum, Jesus está em Jerusalém. Finalmente chega ao destino da grande viagem que foi relatada pelo evangelista de 9,51 a 19,28. Como dissemos anteriormente em nossas reflexões, o sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão.
Jerusalém é o centro da vida econômica e política do povo judeu. Também é lugar de exploração e opressão deste povo. Ao redor de Jesus, muitos louvavam este símbolo de poder, mesmo que sua manutenção gerasse dor e sofrimento nos mais pobres. Em meio aos louvores e críticas, Jesus adverte sobre a sentença final, o destino de Jerusalém: a cidade será tomada pelos pagãos e o Templo será destruído. É a mesma sentença que os profetas antigos proferiram. A destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C. foi o clímax da Primeira Guerra Judaico-Romana, liderada pelo general Tito. As forças romanas sitiaram Jerusalém, arrasando a cidade, com relatos de um massacre sanguinário de sua população. Também destruíram o Templo – o qual havia sido reconstruído após o Exílio da Babilônia (586 a.C. a 538 a.C.). Essa conquista brutal levou à dispersão de muitos judeus, um evento conhecido como diáspora judaica. Entre esses judeus dispersos, também estavam os discípulos e discípulas de Jesus. Com a destruição do Templo, assim como de toda a cidade de Jerusalém, muitos sentiram que a história do antigo Povo de Deus foi destruída. Mas esse momento de sofrimento não será o fim. Daqui para frente continua a história do novo Povo de Deus, aberto a todas as nações. Em Jesus, a história é ressignificada.
Lucas e sua comunidade escreveram seu Evangelho depois da destruição do Templo e da tomada de Jerusalém pelos Romanos no ano de 70 d.C. Assim sendo, as palavras de Jesus no Evangelho que estamos a refletir não podem ser entendidas como uma profecia. Trata-se de uma releitura da história por parte da comunidade lucana, na tentativa de responder às perguntas que as comunidades cristãs se faziam sobre a situação de diáspora em que viviam. É uma tentativa teológica, até mesmo escatológica, de se ler a história, buscando seu significado à luz da fé.
Aprofundando Lc 21,5-19
Todo capítulo 21 de Lucas se passa no Templo. As pessoas admiram a construção e os dons ofertados em retribuição aos muitos desafios vividos pelo povo, nos quais puderam sentir a ação imediata de Deus em sua história. Como se o Templo significasse o sinal incontestável da presença poderosa de Deus em suas vidas. Jesus questiona esse fascínio, dizendo que tudo será destruído e tomado pelos romanos. Cumprira-se o que os profetas e Jesus haviam anunciado. Contudo, os ataques dos romanos entre 66 a 70 d.C., provocaram muitas perguntas nos judeus e nos cristãos. Teria chegado o tão anunciado fim do mundo? O Evangelho diz que não. Não se trata do fim! Trata-se do encerramento de uma fase da história, o tempo de Israel, o antigo Povo de Deus. Antes do fim, anunciado em Lc 21,10-11, virá o tempo do novo Povo de Deus, aberto a toda a humanidade e fundado na palavra e na ação de Jesus. Antes do fim, deverá ser anunciado o Reino da Justiça, o Reino de Deus. Uma chance de se restaurar o sonho original de Deus para a humanidade, que é justiça, paz e alegria; edificadas pela solidariedade e pela partilha. As comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus devem viver os valores do Reino de Deus, na expectativa do Reino Definitivo. Por isso, precisamos preparar os caminhos deste Reino.
A Palavra de Deus em nossas Comunidades
Antes da segunda vinda de Cristo, antes da plenificação de nossas vidas, teremos o tempo do testemunho. Testemunhar o que? A palavra e a ação de Jesus, ou – em outras palavras – a Justiça do Reino, que provoca a transformação radical da sociedade atingindo as relações econômicas e políticas. Isso provocará perseguições, porque os ricos e poderosos se sentirão ameaçados pelo testemunho dos cristãos e cristãs. Procurarão, a todo custo, abafar e distorcer o verdadeiro testemunho cristão. O que devem os seguidores e seguidoras de Jesus fazer diante das perseguições? Seguir adiante com perseverança! Os adversários não conseguirão responder contra a sabedoria que vem da busca da luta pela justiça. Os cristãos e as cristãs deverão resistir firmes, mesmo que os que estão ao seu redor os persigam. O que sustenta a Igreja em seu caminhar testemunhal do Evangelho é a providência de Deus (cf. Lc 21,18) e a solidariedade de suas relações comunitárias. O perigo maior em nossa vida testemunhal do Evangelho é a desistência que se manifesta pelo abandono do caminho ou pela deturpação da mensagem de Jesus “para salvar a própria pele”. Quem conhece a verdade do Evangelho de Jesus não pode mais voltar atrás: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!” (Lc 21,19).
Ao bebermos das fontes da comunidade de Lucas por meio de seu Evangelho, somos convidados a fazer uma leitura de nossa própria vida, enquanto testemunhas desta Boa Notícia. Em nossos tempos, assim como no tempo de Jesus, muitos são os que se sentem fascinados pela grandiosidade da religião. Catedrais, basílicas, igrejas imensas, onde se concentram luxo e ostentação. Ofuscam nossos olhos a grandiosidade arquitetônica de muitos de nossos espaços celebrativos. Esta busca pelo templo grande e majestoso como símbolo da grandiosidade de Deus e de seu Filho, foi e é um equívoco recorrente. Os judeus caíram nesta tentação desde o rei Salomão, até no tempo de Jesus. Os cristãos e as cristãs gradativamente foram se afastando do ideal das pequenas comunidades, pobres e simples – mas cheias de Evangelho – e optaram pelas catedrais, igrejas abaciais: verdadeiros templos do poder, vazios de Evangelho. Ainda hoje somos impactados com escandalosas estruturas arquitetônicas que se levantam em torno da fé-ostentação e da liturgia-espetáculo. Enquanto isso, os pilares centrais do Evangelho são postos de lado. Se Jesus, conforme nos aponta Lc 21,5-19, nos adverte da fragilidade da fé que se sustenta em seus sinais materiais, muitas vezes edificados no luxo e na ostentação, exortando que seus seguidores e seguidoras deverão viver o tempo do testemunho; nossas comunidades de hoje são convidadas a revisitar a comunidade lucana e buscar – com ela – uma releitura de sua realidade. Estaríamos – também nós – ofuscados pelo esplendor de nossos templos, mas longe do Evangelho daquele que no templo deveria habitar? E mais: não estamos também nós fazendo de nossos espaços sagrados reflexos de nossos erros de entendimento do Evangelho e suas implicações? Diante do sofrimento de nosso povo, a suntuosidade de nossos templos são uma afronta a Jesus que escolheu os pobres como primeiros destinatários de sua palavra e ação.
Que possamos redescobrir Jesus, e seu Evangelho, testemunho das primeiras comunidades! No seguimento de Jesus Cristo e em comunhão fraterna com todos e todas, precisamos redescobrir o sonho de viver e “Evangelizar, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao Reino definitivo”.
Comunidades Eclesiais em Oração
Senhor nosso Deus,
concedei-nos a graça de sempre nos alegrar em vosso serviço,
porque só encontramos duradoura e plena felicidade sendo fiéis a vós,
criador de todos os bens.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus,
e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo,
por todos os séculos dos séculos.
Amém!
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