Deus nos chama a partir da história – Parte 10: Gedeão, pelos pequeninos Deus manifesta sua grande força

Por Karina Moreti

Continuando nossa jornada pela vocação no mundo bíblico, hoje vamos nos encontrar com Gedeão. Sua história se encontra no livro de Juízes nos capítulos 6 a 8, e apresenta um dos mais expressivos encontros entre a ação divina e a realidade histórica de Israel. Longe de surgir em um período de estabilidade, o chamado de Gedeão ocorre em meio a um profundo colapso social, religioso e político. Era um momento em que o povo hebreu vivia sob forte decadência moral e intensa opressão estrangeira. É essencial a compreensão desse contexto para interpretar a maneira pela qual Iahweh intervém na história e forma líderes improváveis para cumprir sua Aliança.

O período dos juízes é marcado pela opressão, clamor e libertação do povo. Os hebreus repetidamente se afastam de Deus e aderem à idolatria. Submetem-se  às crenças religiosas cananeias e as praticam no seu cotidiano. É recorrente a frase: “os israelitas fizeram o que Iahweh reprova”(cf. 6,1). Isto demonstra que a corrupção religiosa era generalizada e se refletia na vida social do povo. Não raramente, altares a Baal e Aserá surgiam até mesmo em propriedades privadas, revelando que a idolatria estava enraizada no íntimo da vida familiar e comunitária (cf. 6,25). E assim acontece um afastamento profundo da identidade teológica de Israel como povo da aliança.

Por sete anos, Israel enfrenta ataques constantes e devastadores dos madianitas (cf. 6,1). Diferentemente de outros inimigos de Israel, estes utilizavam a estratégia do comprometimento econômico. Quando do tempo das colheitas, invadiam o território, saqueando o resultado do plantio, roubando os rebanhos, matando a todos que ousassem impedir o saque. Como gafanhotos, faziam de seus ataques uma trágica devastação. Ao contrário de muitos dos opressores dos hebreus, os madianitas não ambicionavam a terra e sim seus frutos. Com estes saques, crescem a fome, o empobrecimento, o medo e a instabilidade (cf. 6,6). Os hebreus são obrigados a se esconder, abandonando suas casas e passando a viver em cavernas, ou fortificações improvisadas para escapar da violência. A vida cotidiana é reduzida à sobrevivência, e o trabalho agrícola é realizado às escondidas (cf. 6,2).

O personagem Gedeão nos é apresentado debulhando o trigo no tanque de pisar uvas (cf. 6,11). Sua história se insere ao contexto de ausência de liderança entre o povo hebreu. Israel está fragmentado em tribos que não cooperam entre si, e com isso, a sensação de abandono de seu Deus se aprofunda, como se percebe nas palavras de Gedeão: “se Iahweh está co­nosco, por que nos aconteceu tudo isso?” (Jz 6,13). Esta pergunta sintetiza o sentimento do povo que perdeu a capacidade de interpretar sua própria história. Trata-se de uma perda de identidade, face ao sofrimento. Em todo o Primeiro Testamento, este sentimento se faz presente. O que se pode verificar no contexto posterior do Exílio da Babilônia, quando os desterrados se sentiam abandonados por Iahweh. Também no contexto do exílio, o Segundo Isaías vai reanimar, corrigir e esperançar o povo cabisbaixo pelo célebre Cântico do Servo Sofredor (cf. Is 42,1-9; 49,1-7; 50,4-11; 52,13–53,12) Aí se encontra o precioso segredo de Iahweh, nosso Deus libertador. Quando em tempos de desânimo e medo, são suscitados homens e mulheres para que, dos monturos da história, se levantem a gritar pela práxis da libertação.

A opressão estrangeira revela a ruptura da Aliança com Deus e a fragilidade da identidade religiosa do povo. Assim, observa-se que o mais importante não é a guerra, mas o retorno do povo a Iahweh. Algo muito significativo no relato de Gedeão — e diferente de grande parte dos relatos do Primeiro Testamento — é a revelação de que Iahweh é Paz (cf. Jz 6,24). E mais: é preciso quebrar as estruturas na intimidade do ser, que aprisionam o povo à opressão que sofre. O cativeiro no tempo de Gedeão é na própria psique humana, manifesto no medo, na angústia, na ideia torta de que Deus abandonou seu povo. Por isso, o chamado de Gedeão não é para segurar a espada. O imperativo divino é uma convertio morum, uma metanoia interna. É derrubar o altar de Baal na casa de seu pai (cf. 6,25). É mudar suas próprias estruturas. É preciso restaurar o amor incondicional à Iahweh, antes de libertar a nação. Esse gesto demonstra que a verdadeira restauração nacional depende da restauração dos corações destruídos, e que toda obra divina começa no interior da casa do coração. O episódio bíblico mostra que Deus intervém na história para resolver crises sociais, mas não esquece de conduzir seu povo de volta à fidelidade. Outrossim, vale lembrar que a fidelidade à Iahweh já é um estado de liberdade e vida.

Após seu chamado, Gedeão é formado de maneira gradual e pedagógica. O anjo do Senhor o chama de “valente guerreiro” (cf. 6,12). Porém Gedeão estava escondido e com medo. A palavra do mensageiro de Deus é um marco teológico: Iahweh não fala com base no presente humano, mas no futuro que ele (Iahweh) construirá. Não é difícil imaginar a insegurança de Gedeão. Suas perguntas e objeções demonstram isso. Todavia, Deus não rejeita sua fé vacilante. Iahweh responde com paciência e oferece sinais para lhe fortalecer a confiança. O fogo que consome a oferta (cf. 6,21), o episódio do velo de lã molhado e seco (cf. 6,36-40), e o sonho do pão, ouvido no acampamento inimigo cf. 7,13-1); são sinais da confirmação divina que transforma a dúvida em certeza. A fé de Gedeão amadurece, não instantaneamente, ao longo de um processo no qual Deus respeita seus limites e o conduz a novos níveis de confiança. Iahweh inaugura a pedagogia do oprimido, antes de a estudarmos em nossos ambientes acadêmicos nos tempos de hoje.

Neste contexto, observamos também que Iahweh pede um teste de fidelidade. Gedeão derruba o altar de Baal, no entanto, ele o faz durante à noite, por medo de represálias da comunidade. Mesmo assim, sua ação é considerada legítima (6,25-27). Gedeão caminha a passos lentos em sua experiência de Deus e em Deus. Isso corrobora algo importante aos que se dedicam à leitura do livro de Juízes. Nem sempre os grandes momentos na relação entre Iahweh e seu povo se dá por teofanias, epifanias, eufanias, narrativas fantásticas. Às vezes a palavra e a ação de Iahweh se dão como uma brisa leve aos ouvidos e ao coração humano. E assim começa a atividade de Gedeão como líder de seu povo.

Tendo Gedeão assumido a liderança, um episódio fica na memória do povo de Deus de forma particular. O “exército de Israel” contava com trinta e dois mil homens, e mesmo assim, estava em grande desvantagem numérica diante dos madianitas. No entanto, Deus diminui esse número para apenas trezentos homens (cf. 7,7-8). A improvável, quase impossível vitória, se assemelha ao relato de Macabeus, quando posteriormente acontecerá a ocupação helênica no século II a.C. O pequenino exército de Gedeão, assim como o dos Macabeus (cf. 2 Mc 10,1-8), terão vitória. Todavia, a vitória não poderia, de forma alguma, ser atribuída ao poder humano (cf. 7,2). Estes relatos de guerras, e suas vitórias impossíveis, são analogias que semeiam sementes de esperança. Não precisamos nos ater ao relato bélico, e sim à memória de um povo que celebra, por suas narrativas hiperbólicas, a igualmente grande gratidão ao seu Deus.

São profundas as consequências desta vitória. É quebrada a opressão madianita, a economia de Israel é restaurada, a unidade entre algumas tribos é temporariamente recuperada e a fé do povo é renovada. O relato bíblico reforça o tema teológico central do livro de Juízes: sempre que Israel se distancia de Deus, mergulha no caos; mas quando retorna a Iahweh, experimenta libertação. A história de Gedeão torna-se símbolo da ação de Deus que chama pessoas simples, tímidas, medrosas, em momentos críticos. Forma seus servos através de processos de fé e escuta.

Sendo assim, a trajetória de Gedeão demonstra que Deus não aguarda momentos ideais para agir. Iahweh intervém exatamente quando a história humana parece desmoronar. A liderança de Gedeão nasce do caos, se desenvolve mediante a paciência divina e culmina em vitória que transcende toda força humana. Definitivamente, somo levados a reconhecer e celebrar: Iahweh ressignifica a vida de seu Povo! Ele é um Deus de libertação!


Referência

BÍBLIA. Nova Bíblia Pastoral. São Paulo: Paulus, 2019.
Disponível em: https://biblia.paulus.com.br/biblia-pastoral/antigo-testamento/livros-historicos/livro-dos-juizes. Acesso em: 15 nov. 2025.

BÍBLIA DO PEREGRINO. São Paulo: Paulus, 3ª Edição, 2017.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 1ª Edição: revista e ampliada, 2002.

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