Por Karina Moreti
Continuando nossa jornada pela vocação no mundo bíblico, hoje vamos nos encontrar com Gedeão. Sua história se encontra no livro de Juízes nos capítulos 6 a 8, e apresenta um dos mais expressivos encontros entre a ação divina e a realidade histórica de Israel. Longe de surgir em um período de estabilidade, o chamado de Gedeão ocorre em meio a um profundo colapso social, religioso e político. Era um momento em que o povo hebreu vivia sob forte decadência moral e intensa opressão estrangeira. É essencial a compreensão desse contexto para interpretar a maneira pela qual Iahweh intervém na história e forma líderes improváveis para cumprir sua Aliança.
O período dos juízes é marcado pela opressão, clamor e libertação do povo. Os hebreus repetidamente se afastam de Deus e aderem à idolatria. Submetem-se às crenças religiosas cananeias e as praticam no seu cotidiano. É recorrente a frase: “os israelitas fizeram o que Iahweh reprova”(cf. 6,1). Isto demonstra que a corrupção religiosa era generalizada e se refletia na vida social do povo. Não raramente, altares a Baal e Aserá surgiam até mesmo em propriedades privadas, revelando que a idolatria estava enraizada no íntimo da vida familiar e comunitária (cf. 6,25). E assim acontece um afastamento profundo da identidade teológica de Israel como povo da aliança.
Por sete anos, Israel enfrenta ataques constantes e devastadores dos madianitas (cf. 6,1). Diferentemente de outros inimigos de Israel, estes utilizavam a estratégia do comprometimento econômico. Quando do tempo das colheitas, invadiam o território, saqueando o resultado do plantio, roubando os rebanhos, matando a todos que ousassem impedir o saque. Como gafanhotos, faziam de seus ataques uma trágica devastação. Ao contrário de muitos dos opressores dos hebreus, os madianitas não ambicionavam a terra e sim seus frutos. Com estes saques, crescem a fome, o empobrecimento, o medo e a instabilidade (cf. 6,6). Os hebreus são obrigados a se esconder, abandonando suas casas e passando a viver em cavernas, ou fortificações improvisadas para escapar da violência. A vida cotidiana é reduzida à sobrevivência, e o trabalho agrícola é realizado às escondidas (cf. 6,2).
O personagem Gedeão nos é apresentado debulhando o trigo no tanque de pisar uvas (cf. 6,11). Sua história se insere ao contexto de ausência de liderança entre o povo hebreu. Israel está fragmentado em tribos que não cooperam entre si, e com isso, a sensação de abandono de seu Deus se aprofunda, como se percebe nas palavras de Gedeão: “se Iahweh está conosco, por que nos aconteceu tudo isso?” (Jz 6,13). Esta pergunta sintetiza o sentimento do povo que perdeu a capacidade de interpretar sua própria história. Trata-se de uma perda de identidade, face ao sofrimento. Em todo o Primeiro Testamento, este sentimento se faz presente. O que se pode verificar no contexto posterior do Exílio da Babilônia, quando os desterrados se sentiam abandonados por Iahweh. Também no contexto do exílio, o Segundo Isaías vai reanimar, corrigir e esperançar o povo cabisbaixo pelo célebre Cântico do Servo Sofredor (cf. Is 42,1-9; 49,1-7; 50,4-11; 52,13–53,12) Aí se encontra o precioso segredo de Iahweh, nosso Deus libertador. Quando em tempos de desânimo e medo, são suscitados homens e mulheres para que, dos monturos da história, se levantem a gritar pela práxis da libertação.
A opressão estrangeira revela a ruptura da Aliança com Deus e a fragilidade da identidade religiosa do povo. Assim, observa-se que o mais importante não é a guerra, mas o retorno do povo a Iahweh. Algo muito significativo no relato de Gedeão — e diferente de grande parte dos relatos do Primeiro Testamento — é a revelação de que Iahweh é Paz (cf. Jz 6,24). E mais: é preciso quebrar as estruturas na intimidade do ser, que aprisionam o povo à opressão que sofre. O cativeiro no tempo de Gedeão é na própria psique humana, manifesto no medo, na angústia, na ideia torta de que Deus abandonou seu povo. Por isso, o chamado de Gedeão não é para segurar a espada. O imperativo divino é uma convertio morum, uma metanoia interna. É derrubar o altar de Baal na casa de seu pai (cf. 6,25). É mudar suas próprias estruturas. É preciso restaurar o amor incondicional à Iahweh, antes de libertar a nação. Esse gesto demonstra que a verdadeira restauração nacional depende da restauração dos corações destruídos, e que toda obra divina começa no interior da casa do coração. O episódio bíblico mostra que Deus intervém na história para resolver crises sociais, mas não esquece de conduzir seu povo de volta à fidelidade. Outrossim, vale lembrar que a fidelidade à Iahweh já é um estado de liberdade e vida.
Após seu chamado, Gedeão é formado de maneira gradual e pedagógica. O anjo do Senhor o chama de “valente guerreiro” (cf. 6,12). Porém Gedeão estava escondido e com medo. A palavra do mensageiro de Deus é um marco teológico: Iahweh não fala com base no presente humano, mas no futuro que ele (Iahweh) construirá. Não é difícil imaginar a insegurança de Gedeão. Suas perguntas e objeções demonstram isso. Todavia, Deus não rejeita sua fé vacilante. Iahweh responde com paciência e oferece sinais para lhe fortalecer a confiança. O fogo que consome a oferta (cf. 6,21), o episódio do velo de lã molhado e seco (cf. 6,36-40), e o sonho do pão, ouvido no acampamento inimigo cf. 7,13-1); são sinais da confirmação divina que transforma a dúvida em certeza. A fé de Gedeão amadurece, não instantaneamente, ao longo de um processo no qual Deus respeita seus limites e o conduz a novos níveis de confiança. Iahweh inaugura a pedagogia do oprimido, antes de a estudarmos em nossos ambientes acadêmicos nos tempos de hoje.
Neste contexto, observamos também que Iahweh pede um teste de fidelidade. Gedeão derruba o altar de Baal, no entanto, ele o faz durante à noite, por medo de represálias da comunidade. Mesmo assim, sua ação é considerada legítima (6,25-27). Gedeão caminha a passos lentos em sua experiência de Deus e em Deus. Isso corrobora algo importante aos que se dedicam à leitura do livro de Juízes. Nem sempre os grandes momentos na relação entre Iahweh e seu povo se dá por teofanias, epifanias, eufanias, narrativas fantásticas. Às vezes a palavra e a ação de Iahweh se dão como uma brisa leve aos ouvidos e ao coração humano. E assim começa a atividade de Gedeão como líder de seu povo.
Tendo Gedeão assumido a liderança, um episódio fica na memória do povo de Deus de forma particular. O “exército de Israel” contava com trinta e dois mil homens, e mesmo assim, estava em grande desvantagem numérica diante dos madianitas. No entanto, Deus diminui esse número para apenas trezentos homens (cf. 7,7-8). A improvável, quase impossível vitória, se assemelha ao relato de Macabeus, quando posteriormente acontecerá a ocupação helênica no século II a.C. O pequenino exército de Gedeão, assim como o dos Macabeus (cf. 2 Mc 10,1-8), terão vitória. Todavia, a vitória não poderia, de forma alguma, ser atribuída ao poder humano (cf. 7,2). Estes relatos de guerras, e suas vitórias impossíveis, são analogias que semeiam sementes de esperança. Não precisamos nos ater ao relato bélico, e sim à memória de um povo que celebra, por suas narrativas hiperbólicas, a igualmente grande gratidão ao seu Deus.
São profundas as consequências desta vitória. É quebrada a opressão madianita, a economia de Israel é restaurada, a unidade entre algumas tribos é temporariamente recuperada e a fé do povo é renovada. O relato bíblico reforça o tema teológico central do livro de Juízes: sempre que Israel se distancia de Deus, mergulha no caos; mas quando retorna a Iahweh, experimenta libertação. A história de Gedeão torna-se símbolo da ação de Deus que chama pessoas simples, tímidas, medrosas, em momentos críticos. Forma seus servos através de processos de fé e escuta.
Sendo assim, a trajetória de Gedeão demonstra que Deus não aguarda momentos ideais para agir. Iahweh intervém exatamente quando a história humana parece desmoronar. A liderança de Gedeão nasce do caos, se desenvolve mediante a paciência divina e culmina em vitória que transcende toda força humana. Definitivamente, somo levados a reconhecer e celebrar: Iahweh ressignifica a vida de seu Povo! Ele é um Deus de libertação!
Referência
BÍBLIA. Nova Bíblia Pastoral. São Paulo: Paulus, 2019.
Disponível em: https://biblia.paulus.com.br/biblia-pastoral/antigo-testamento/livros-historicos/livro-dos-juizes. Acesso em: 15 nov. 2025.
BÍBLIA DO PEREGRINO. São Paulo: Paulus, 3ª Edição, 2017.
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 1ª Edição: revista e ampliada, 2002.
Deixe um comentário