Por Karina Moreti
O século XX marcou uma das mais significativas transformações da história na Igreja Católica: O Concílio Vaticano II (1962-1965). Ele não representou somente um aggiornamento meramente institucional. O Concílio inaugurou oportunidade para repensar estruturas, linguagens e relações internas de poder. Entre seus avanços mais profundos, destaca-se a crescente reflexão sobre a presença e a contribuição das mulheres na vida da Igreja – presença ancestral, mas frequentemente invisibilizada. Essa redescoberta teológica reposicionou a Igreja não como uma pirâmide hierárquica estática, mas como o Povo de Deus a caminho, abrindo novas possibilidades de corresponsabilidade e participação.
O Concílio não resolveu imediatamente a questão dos ministérios femininos. E ainda hoje, é algo que está em discussão. Contudo, o Concílio Vaticano II lançou bases sólidas para uma mudança de paradigma, permitindo que a presença feminina emergisse com força renovada nas décadas seguintes. Essa semente encontrou terreno fértil no pontificado de Francisco, que retoma e aprofunda a intuição conciliar ao ampliar a participação feminina em espaços de discernimento, governo e deliberação. Hoje, mulheres – na vida religiosa consagrada, ou não – altamente qualificadas, ocupam funções estratégicas na Cúria Romana, nos dicastérios, nas estruturas administrativas do Vaticano, nos tribunais canônicos, nos setores econômicos, nas áreas de desenvolvimento humano integral e nos órgãos oficiais de comunicação. Tais presenças – assim como uma florzinha que desabrocha em uma pequena fresta no cimento duro e quente da calçada – rompem silenciosamente o monopólio clerical sobre a tomada de decisões e demonstram que as funções eclesiais não dependem exclusivamente do ministério ordenado, mas da competência, da maturidade teológica e da capacidade de servir.
Tal aggiornamento, entretanto, encontra diante de si obstáculos persistentes. Em diversas realidades eclesiais subsiste uma postura clericalista, que contraria frontalmente a eclesiologia conciliar e o trabalho sinodal que foi insistentemente sonhado pelo Papa Francisco. Ainda há ministros ordenados que compreendem o sacerdócio como privilégio, colocam-se acima do bem e do mal, resistem à formação permanente, rejeitam o diálogo e desencorajam o protagonismo do laicato, especialmente o das mulheres. Para alguns ministros ordenados, o estudo teológico acessível também aos ministros/as não ordenados/as, se torna uma ameaça. Desejosos de manter o poder clerical, deturpam o Evangelho, em prol de autopromoção e prestígio. Tais atitudes ferem a lógica evangélica, por uma leitura rasa dos textos sagrados, promovendo uma exclusividade masculina na missão discipular e no apostolado. Com isso, enfraquecem conceitos primordiais do Evangelho, tais quais fraternidade e sororidade. Esta ótica patriarcal provoca descrédito da Igreja diante do mundo, cada vez mais consciente da equidade dos gêneros.
O contraste torna-se ainda mais evidente diante de testemunhos como o de João Maria Vianney, o Cura d’Ars. Sua vida pastoral, marcada por simplicidade radical, proximidade com os pobres e coerência entre palavra e ação, revela a verdadeira natureza do ministério: serviço, escuta e misericórdia. O Cura d’Ars recorda que a autoridade cristã não nasce do título, mas da fidelidade ao Evangelho; não da hierarquia, mas da doação; não do poder, mas da compaixão. Seu testemunho confronta o clericalismo contemporâneo e ilumina o que significa ser pastor no sentido pleno do termo.
Neste horizonte, uma parábola contemporânea evidencia a tentação recorrente do poder. Conta-se que um povo oprimido encontrou um líder que ergueu uma bandeira com os dizeres: Paz, Justiça e Liberdade, conduzindo a multidão em busca de libertação. Contudo, ao alcançar o poder, retirou a bandeira e, com o mastro nu, golpeou o próprio povo que antes prometera defender. Esta alegoria revela a perversão que ocorre quando símbolos de esperança são instrumentalizados e quando o discurso ético se torna fachada para projetos pessoais. A autoridade genuína nasce do cuidado e da verdade. O autoritarismo, da vaidade e da recusa em partilhar, mantendo centralizado tudo em si.
O desafio atual da Igreja é garantir que Paz, Justiça e Liberdade não sejam apenas palavras inscritas em documentos ou bandeiras de ocasião; mas práticas verificáveis na estrutura institucional e na vida das comunidades eclesiais. A abertura conciliar e seus desdobramentos na atualidade, revelam que não é possível defender a dignidade humana enquanto se perpetuam mecanismos de exclusão, sobretudo em relação às mulheres. A presença feminina nos ambientes de decisão – ainda que em ensaio inicial – já reorienta a palavra e a ação da Igreja, recordando que o Espírito distribui seus dons a todos e todas.
As mulheres que hoje ocupam cargos inéditos na Cúria Romana, por seus dicastérios de forma estratégica, não representam apenas avanços administrativos, mas uma conversão eclesial profunda. Garantir seus direitos, reconhecer seus ministérios e ampliar sua presença não é concessão, mas imperativo evangélico.
Urge a preocupação com a ética das relações eclesiais, sanando equívocos históricos, que antes favoreciam a autorreferencialidade. Como em nossa alegoria acima, a credibilidade nasce quando a bandeira não é retirada após a conquista, mas sustentada pelas mãos de todos. Quando o poder se divorcia do amor, a bandeira cai – e o mastro fere. Quando o amor se torna critério absoluto, a bandeira permanece erguida, iluminando todo o povo de Deus, especialmente aqueles que, ao longo da história, tiveram seus direitos negados e sua voz silenciada.
Sobre a Autora

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
Parabéns, Karina Moreti continue com essa garra que você invoca, para a Teologia & Pastoral. Parabéns !!!! Texto lindo é pra pensar.
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