“Um Messias Pobre e Desarmado” | Reflexão para a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

“Ó vós, ó vós, vós que por aqui passais, olhai, dizei, quem nesse mundo sofreu mais?”
(Canto da Paixão do Senhor de Frei Joel Postma e Reginaldo Veloso)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo encerra o Ano Litúrgico, chamando-nos a atenção para a pessoa de Jesus, Rei dos Reis, que semeou a semente de seu Reino quando se encarnou na Casa de Nazaré, nascendo de uma mocinha pobre e aldeã. Se tomarmos como viés de nossa percepção o Mistério da Encarnação, a vida de Jesus entre os simples, entre os pobres, a forma com que chamou e ensinou aos seus discípulos e discípulas, sua Paixão e Morte de Cruz; somos introduzidos ao verdadeiro reinado de Cristo. Não se trata de um Messias que instaura seu Reino pela violência e poder suntuoso, mas de um Messias pobre e desarmado. É imperativo que compreendamos este Jesus, Messias dos Pobres, para que possamos celebrar com propriedade a Solenidade de Cristo Rei.

Ao longo da história, e ainda hoje, não são raros os momentos em que percebemos a imagem de Jesus sendo confundida com os arroubos por poder e glória humana. Aquele que despiu-se de toda forma de privilégios humanos, nascendo entre os pobres e com eles vivendo até o ultimo dia, para agregar a si todos e todas que a sociedade de seu tempo negava o mínimo para a sobrevivência; não pode ser visto como um rei segundo a lógica do imperialismo. Ao contrário, Jesus nos apresenta uma imagem de seu Paizinho amoroso, confirmada em sua vida, que nos aproxima de uma realidade de equidade entre suas pessoas divinas e nossa pessoa humana. É aproximando-se radicalmente da humanidade que Jesus nos aponta soluções para doenças que afligiam os relacionamentos humanos desde os tempos bíblicos.

Desde os tempos do Exílio da Babilônia (de 586 a 538 a.C.), os profetas anunciavam a vinda de um messias justo, que iria restaurar a dignidade de seu povo. A princípio pensava-se em um messias que restaurasse a glória da dinastia davídica, todavia – o messias galileu revelou a ousadia suprema dos planos de Deus, restaurando a dignidade de toda humanidade, dando-a – em seu Filho – a condição de filhos e filhas. A messianidade de Jesus, seu Reino, instaura uma revolução em nossa condição humana. De criaturas, transcendemos a filhos e filhas do Altíssimo. De servos de Iahweh, somos convidados a sentarmos à mesa com ele, na condição filial, enquanto família de Jesus. É diante desta transcendência da condição humana, que percebemos que o reinado de Jesus não se configura por manifestações vãs de glória, mas de ressignificação de toda a humanidade. E muito apropriadamente a liturgia nos apresenta o Evangelho de Lc 23,35-43, que faz memória da Paixão e Morte de um messias pobre e desarmado. Bem diferente de alguns arroubos triunfalistas de ontem e hoje.

Lc 23,35-43 nos coloca aos pés da Cruz. O fim do caminho de Jesus é difícil e trágico, pois ele será incluído “entre os fora da lei”, isto é, será tratado como um criminoso. A sentença de morte na Cruz era destinada aos mais odiosos criminosos que o Império Romano poderia classificar. E Jesus é crucificado entre dois criminosos. Isso é uma releitura de Isaías 53,12; salientando que o enviado de Deus seria classificado como malfeitor. Por que? Na lógica opressora, em que os poderosos precisam manter seus privilégios, defender as causas dos pequeninos é subversão. É considerado crime pelos poderosos desejar que todos tenham vida e agir para que a equidade entre as relações religiosas e sociais se tornem uma realidade. O Evangelho que anuncia um Reino de Justiça e Paz, possível pela solidariedade e pela partilha, é crime. É subversão. E por isso Jesus foi condenado à morte. Por ameaçar o poder religioso, que explorava e marginalizava os pequeninos, assim como ameaçar o Império Romano; que mantinha sua Paz com o sangue derramado dos inocentes. A Pax Romana não era Paz, era medo. A religião judaica, concentrada no Templo, não se preocupava com seu povo e sim com seu status quo, ameaçado constantemente pela ocupação romana. Por isso, a mensagem do Evangelho não era bem-vinda. Ameaçava os privilégios dos poderes instituídos.

No Evangelho que estamos a refletir, Lc 23,35-43, a dialética entre o messias esperado e o Messias Jesus se faz bem clara. Jesus e seu projeto dividem até mesmo os que foram crucificados com ele. Um deles caçoa de Jesus, desafiando seu messianismo. “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” (Lc 23,39). Instiga a Jesus, para que use seu poder para se libertar e libertar os outros. Muitos veem neste criminoso a representação de grande parte do povo judeu, que esperava um messias político, que iria restaurar a grande nação, libertando-os da opressão romana. Todavia, esta ideia de se derrubar o poder opressor, por outro poder, não está ligada à lógica do Evangelho. Um messias político, que derrubasse à força a ocupação romana, só seria um perpetuador do poder instaurado e mantido pela violência. Ao longo da história da humanidade, a luta pelo poder encharcou a terra de sangue, pela violência. Jesus não é o messias do poder das armas, e sim do poder do amor. Em vez de suscitar uma rebelião violenta, e com isso muito derramamento de sangue, oferece sua própria vida, com seu sangue derramado pela humanidade. Jesus é o Messias Pobre e Desarmado, Príncipe da Paz (cf. Is 9,16). E este Messias e seu projeto ganha, até mesmo na Cruz, um seguidor. O outro crucificado diz: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal” (Lc 23,40-41). O companheiro de Jesus na morte se converte a seu projeto. Reconhece que não é pela força e pelo poder que a Justiça, a Liberdade e a Vida se fazem. O Reino é amor, que traz a verdade e a justiça e, a partir daí, liberdade e vida para todos e todas. Esse é o paraíso (Lc 23,43) para o qual Deus criou a humanidade. O Reino de Deus e o Paraíso Eterno consistem na realização do projeto do Evangelho de Jesus, instaurado em sua missão messiânica (cf. Lc 4,16-21).

Após aprofundarmos um pouco sobre o Evangelho que contemplamos na liturgia, precisamos nos perguntar: que Jesus, enquanto Rei, estamos celebrando? Um rei segundo a lógica dos poderes constituídos, ou um rei-messias pobre e desarmado?

Em nossas comunidades eclesiais, somos constantemente tentados a confundir a identidade de Jesus e seu projeto messiânico, com nossos arroubos por poder, fama e riqueza. Desde o Primeiro Testamento, já somos advertidos sobre reinados que iriam promover exploração, marginalização e opressão. O profeta Samuel fez essa advertência quando o povo lhe pede um rei (cf. 1Sm 8,1-22). Disse claramente que a ideia de reinado se aproxima muito facilmente da opressão e exploração do povo. Quando afirmamos que Jesus é nosso Rei, não estamos colocando nele nossos sonhos de glória, poder e enriquecimento? Não queremos um Rei que corrobore nossos mais obscuros planos de poder?

Celebrar Nossos Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo; é celebrar o Messias dos pobres, o Messias desarmado, o Príncipe da Paz. Aquele que deu sua vida por todos e todas, como prova inquestionável de seu Amor (cf. Jo 15,13). Não podemos celebrar o todo poderoso Jesus, que diante dele todos tremem de medo, pois é o Rei dos reis. Este Jesus-Rei anunciado aqui e acolá, como um poderoso e impiedoso monarca dos céus, simboliza a perversão dos que o adoram, não o Jesus que se fez revelar nas Sagradas Escrituras e nos deixou seu Evangelho. O Cristo, Filho do Deus Vivo, é o Messias dos Pobres, do Amor universal, do Perdão infinito, Príncipe da Paz.

A ele, toda honra, toda gloria, para sempre!


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