Deus nos chama a partir da história – Parte 11: “Quando Deus fala ao Ventre!” – Da mãe de Sansão à Maria, mãe de Jesus

Por Karina Moreti

Hoje vamos encontrar uma mulher que a Bíblia não guardou o nome, mas nos comunica em profundidade o que de fato é vocação. A mãe de Sansão, é mais uma das mulheres que, não obstante suas fraquezas, fizeram a vontade de Iahweh.

Os filisteus dominavam a terra. Vinham do mar. Marchavam com passo firme. Sabiam trabalhar o ferro. Eram cinco suas cidades. Estas brilhavam com armas que Israel não podia forjar. Eram unidas, fortes, implacáveis. Impunham medo. Limitavam caminhos. Sequestraram a coragem de seus rivais. Depois, dominaram a alma. Sem liberdade, o povo caminhava como espectros sem vida. Silencioso, Israel vivia curvado há quarenta anos pela opressão e pelo silêncio (cf. Jz 13,1).


Nesse cenário surge uma mulher, simples e estéril. Sem nome registrado na história ou nas Sagradas Escrituras. Sua vida corria vagarosamente, como água que não faz ruído. No entanto, Deus costuma visitar casas que o mundo ignora. Não chamou um guerreiro. Não ergueu um exército. Procurou uma mulher. E prometeu um filho, elegendo-a à condição de mãe.

O anúncio veio como uma brisa leve, mas decisiva. “O anjo de Iahweh apareceu à mulher e lhe disse: ‘Você é estéril e não tem filhos, mas ficará grávida e dará à luz um filho.'”  (Jz 13,3). Ela conceberia. Ela cuidaria. Ela prepararia. O nazireado – voto de consagração à Deus – começava nela, conforme o anjo exortou: “Tome cuidado: não beba vinho, nem qualquer outra bebida alcoólica, e não coma nada que seja impuro, porque você ficará grávida e dará à luz um filho. A navalha não será passada sobre a cabeça do menino, porque desde o seio da mãe ele será consagrado a Deus. É ele quem começará a salvar Israel do poder dos filisteus”. ( Jz 13,4–5). Em sua mesa. Em seu ventre. O libertador nasceria antes da libertação. Assim Deus respondia à tirania dos filisteus. Não com ferro, mas com promessa. Não com força, mas acolhendo a consagração de seu povo. Deus fecha os olhos aos poderes violentos e aceita a vida dos oprimidos em oblação.

Enquanto os filisteus afiavam espadas e controlavam rotas comerciais, Deus fiava um destino e abria um caminho no ventre de uma mulher, nossa heroína sem nome. Ela ouviu. Acreditou. Obedeceu. Seu chamado era silencioso e profundo: guardar-se! Guardar o menino! Guardar a esperança que Israel havia deixado esmorecer!

A mãe de Sansão recebeu o chamado sem clarins. Sem visão grandiosa. Apenas a palavra divina que sobrepuja o medo. O anjo não pediu façanhas. Pediu cuidado, renúncia. Atenção ao invisível. Isso era muito. Era disciplina diária. Era devoção que começa no pequeno, no simples.

Ela entendeu rápido. Os cabelos longos, que simbolizavam o voto de nazireado não seriam um mero ornamento. Seria uma escolha de vida, e para a vida inteira. Ela deveria viver de forma diferente antes mesmo que o filho soubesse respirar. Assim, seu chamado não era apenas gerar. Era moldar. Cada escolha dela tocaria o destino dele. Cada renúncia sua, plantaria força futura.

A mãe do libertador não estava sozinha. Manoé, seu esposo, participa da revelação, mesmo não tendo presenciado a primeira visita do anjo. Precisou acreditar na palavra da esposa (Jz 13,8). Ele pede confirmação. Pede detalhes. Precisa aprofundar como se daria tão grandiosa manifestação de Deus em suas vidas. Não que duvidasse da experiência teofânica vivida por sua esposa. Ao contrário! Os questionamentos de Manoé se fundamentam no desejo daquele homem em realizar plenamente a vontade de Deus. E o Altíssimo não o despreza. O anjo retorna. Por um sinal grandioso através do fogo, a mesma forma com a qual o ferro – símbolo do poder dos filisteus – se funde, a promessa se confirma (Jz 13,15–22). O mesmo elemento, o fogo, que fundia as temíveis armas dos filisteus, manifesta a esperança em Deus pela libertação. Enquanto pais do menino que viria, teriam participação inquestionável no projeto libertador de Iahweh. E aqui se configura o chamado de Manoé e sua esposa: ser apoio, participação, sustentação; mesmo que seus papéis na história não se configurem como protagonismo, reconhecimento, glória. Os pais de Sansão ficam eternizados na história pela fé nas promessas e seu serviço silencioso para que tudo seja feito de acordo com a vontade do Deus libertador.

Séculos depois, outra mulher recebe uma visita. Não em Zorá, mas em Nazaré. Não por causa da opressão dos filisteus, mas sob o peso opressor do Império Romano. O anjo vem novamente. Não procura sacerdotes. Não busca governantes. Procura uma jovem. Talvez, ainda adolescente. Seu nome, desta vez, é proferido: Maria.

“O anjo entrou onde ela estava e disse: ‘Alegre-se, cheia de graça! O Senhor está com você!’” (Lc 1,28). O anúncio é direto, sem rodeios: “Eis que você vai ficar grávida, terá um filho e dará a ele o nome de Jesus.” (Lc 1,31). Ela estremece. Pergunta. Não por falta de fé, mas por pureza. O anjo responde. O Espírito virá. O Altíssimo a cobrirá. O Santo nascerá dela (cf. Lc 1,34–35).

Assim como a mãe de Sansão, Maria recebe sua missão antes do parto. Antes do choro do menino, que sinaliza seu nascimento. Antes do primeiro olhar. Ambas carregam libertadores. Uma trará um homem que começará a salvar Israel dos filisteus (cf. Jz 13,5). A outra trará o Homem que ressignificará a história de toda a humanidade (cf. Mt 1,21).

Estas duas mulheres recebem missões que começam no ventre. Missões que parecem pequenas. Domésticas. Quietas. Contudo, alteram a história. A mãe de Sansão prepara força para uma geração. Maria prepara a inauguração de um novo tempo para a humanidade, o Reino de Deus.

Sansão derrubaria portas, leões, derrota filisteus. Jesus derrota a morte, restaura a humanidade enquanto filhos e filhas de Deus (cf. Gl 4,7). Faz novas todas as coisas (cf. Ap 21,5).

Como Manoé, nos tempos dos Juízes, também José – nos tempos do Segundo Testamento – recebe em uma segunda manifestação a revelação do mistério que se realizaria em Maria. Embora justo. Embora temente a Deus, ele só via uma gravidez que não entendia. Pensa em deixá-la secretamente (cf. Mt 1,18–19), mas Deus o alcança, em sonho. Com voz firme: “José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria como esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo.”  (Mt 1,20).

José recebe uma “segunda luz”, como Manoé. Não é o primeiro a ouvir o anúncio. Este destinou-se à Maria. Porém, é o primeiro a comprometer-se com vida. Compromete-se a proteger. A conduzir. A dar nome (cf. Mt 1,21). É ele quem leva o menino para longe do perigo, para o Egito. Para o abrigo da promessa (cf. Mt 2,13–14).

Maria e a mãe de Sansão respondem com disponibilidade. José e Manoé respondem com o cuidado. As mulheres gestam libertação. Os homens sustentam caminho.

Enquanto Manoé buscava instruções, sua esposa guardava o essencial. Enquanto José tentava entender, Maria já se rendia: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

A mãe de Sansão não proferiu discursos, não fez sermões. Não julgou Israel. Não enfrentou filisteus. Seu combate era interno, diário, silencioso. Resistia ao vinho. Resistia ao comum. Resistia à ideia de que nada mudaria. Cada “não” que dizia aos apelos comuns da vida, era um “sim” à missão. O ventre se tornava altar. E altar exige ardor, reverencia, contemplação contínua do mistério. Ela vivia sob opressão, mas gestava libertação. Caminhava entre campos vigiados, mas carregava alguém que quebraria os grilhões. A fraqueza dela preparava a força dele. A esterilidade se tornava promessa. A obediência se tornava arma. Iahweh inverteu tudo. Como sempre faz.

A mãe de Sansão nos ensina que Deus começa grandes obras em lugares silenciosos. Maria confirma que ele termina obras eternas no ventre de mulheres que dizem “sim”. Manoé e José mostram que Deus também chama pais que não receberam o primeiro anúncio, mas recebem a missão de sustentar, carregar o peso ás costas do impossível. Assim aprendemos que Iahweh não precisa de cenário favorável. Precisa de um coração disponível. Onde há fé, ele acende a luz da libertação. Onde há entrega, ele escreve história. Onde há uma mulher que ouve — ou um homem leal — ele suscita um libertador.


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