Por Pe. Hermes A. Fernandes
Inauguramos no 1º Domingo do Advento mais um ano do Calendário Litúrgico. O esquema dos anos na liturgia segue um ciclo de três anos, designados como Ano A, B e C. A cada ano é enfatizada a leitura de um dos Evangelhos sinóticos, ou seja, Mateus, Marcos e Lucas. Neste ano, Ano A, teremos o Evangelho de Mateus a nos guiar.
O Evangelho segundo Mateus não foi o primeiro a ser escrito, mas foi colocado no começo do Segundo Testamento – passando às comunidades o legado da Nova Aliança. O fato de ser o primeiro no cânon bíblico do Segundo Testamento atribui-se à ideia de que era o mais apropriado para anunciar a passagem das promessas contidas no Primeiro Testamento para a sua realização em Jesus e por meio dele. Até o fim do século II, foi o Evangelho mais importante, e praticamente formou o alicerce das comunidades cristãs, comprometidas com a pessoa de Jesus e dispostas a continuar sua ação no tempo e no lugar em que viviam. Um convite aberto para as comunidades de hoje para que façam o mesmo.
Na liturgia deste domingo temos o Evangelho de Mateus 24,37-44. No capítulo 24 se inicia o quinto e último discurso de Jesus neste Evangelho, abarcando os capítulos 24 e 25. O discurso é todo voltado para o futuro, tanto próximo como remoto, indicando o fim dos tempos. Depois do grande confronto com as estruturas injustas da cidade (Jerusalém), que explora e oprime o povo, temos seu julgamento e sentença. Por trás de Mateus 24 vemos ecoar os acontecimentos que se deram entre os anos 66 e 70 d.C. A cidade de Jerusalém é o centro da vida econômica e política do povo judeu. Também é lugar de exploração e opressão deste povo. A destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C. foi o clímax da Primeira Guerra Judaico-Romana, liderada pelo general Tito. As forças romanas sitiaram Jerusalém, arrasando a cidade, com relatos de um massacre sanguinário de sua população. Também destruíram o Templo – o qual havia sido reconstruído após o Exílio da Babilônia (586 a.C. a 538 a.C.). Essa conquista brutal levou à dispersão de muitos judeus, um evento conhecido como diáspora judaica. Entre esses judeus dispersos, também estavam os discípulos e discípulas de Jesus. Com a destruição do Templo, assim como de toda a cidade de Jerusalém, muitos sentiram que a história do antigo Povo de Deus foi destruída. Mas esse momento de sofrimento não será o fim. Daqui para frente continua a história do novo Povo de Deus, aberto a todas as nações. Em Jesus, a história é ressignificada. É neste contexto que se inspira os capítulos 24 e 25 de Mateus.
Não obstante os muitos sofrimentos em que viviam as comunidades cristãs naqueles anos, quando o Império Romano destruiu as referências nacionais e religiosas daquele povo, a comunidade de Mateus nos apresenta em Mt 24,37-44 um discurso de esperança e exortação à resistência. Faz-se imperativo anunciar e praticar a justiça, para que todos sejam libertos e tenham vida. A Comunidade de Mateus adverte sobre a eminência da volta do Filho do Homem, porém – sendo incerta a data – devem os seguidores e seguidoras de Jesus manter firme a vivência dos valores do Evangelho. Trata-se de uma discurso escatológico, pelo qual se admoesta a construir o Reino aqui e agora, na expectativa do Reino Definitivo.
Assim como a comunidade mateana expressou em seu Evangelho a necessidade de esperança e resistência em tempos de maior violência por parte da Ocupação Romana entre 66 e 70 d.C., precisamos manter firmes a fé e a esperança em nossos tempos e seus opróbrios.
Em 2025, a violência no campo continua sendo um problema sério, como no ano de 2024, registrando o segundo maior número de conflitos no campo desde 1985, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Os principais fatores incluem a impunidade, o avanço do agronegócio e a grilagem de terras, que levam a conflitos por terra, água e combate ao trabalho escravo. A Amazônia é a região mais afetada, tendo como eixo crítico os municípios Marabá e São Félix do Xingu.
A violência no campo no Estado do Mato Grosso do Sul é uma questão persistente, com recentes casos de mortes e ataques a comunidades indígenas. Os conflitos estão relacionados principalmente às disputas por terra, com violência contra os povos indígenas, como os Guarani Kaiowá, e envolvem ações como invasões, ameaças e assassinatos. Sinais claros de intolerância religiosa também se fazem registrar, com destruição de “Casas de Reza” indígena. Em novembro de 2025, um ataque aos Guarani Kaiowá resultou em um indígena morto (Vicente Fernandes Vilhalva) e três feridos.
Diante destes, e muitos outros infortúnios, precisamos manter acesa em nossos corações a chama dos valores do Evangelho. Afligidos por tanta violência, exploração dos pobres, desrespeito ao Direito e à Justiça; suscita-nos Iahweh, Deus dos pobres e sofredores, a manter viva a profecia. Faz-se imperativo que renovemos em nós o chamado do Senhor para que sejamos Igreja discípula, missionária, samaritana e profética. Que o Evangelho seja norte em nosso caminhar, promovendo o Reino de Deus, na expectativa do Reino Definitivo.
Na espiritualidade do Advento, diante de tantos sofrimentos, somos conclamados a bradar: “Senhor, vem salvar seu povo!”
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