Companheiro de jornada

Por Yuri Lamounier Mombrini Lira

O Evangelista Lucas narra no capítulo 24, o encontro de Jesus com os discípulos de Emaús:

“Naquele mesmo dia, dois dos discípulos iam para um povoado, chamado Emaús, a sessenta estádios de Jerusalém. Conversavam sobre todas as coisas que tinha acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles. Os seus olhos, porém, estavam como impedidos de reconhecê-lo. Então Jesus perguntou: “O que andais conversando pelo caminho?” Eles pararam, com o rosto triste, e um deles chamado Cléofas, lhe disse: “És tu o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nesses dias?” Ele perguntou: “Que foi?” Eles responderam: “O que aconteceu com Jesus, o nazareno, que foi um profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e diante de todo povo. Os chefes dos sacerdotes e nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. E nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel; mas, com tudo isso, já faz três dias que essas coisas aconteceram! É verdade que algumas mulheres dentre nós nos deixaram espantados. Elas tinham ido, de madrugada, ao túmulo e, como não encontraram o corpo dele, voltaram dizendo que tinha visto anjos, os quais afirmaram que Ele estava vivo. Alguns dos nossos foram ao túmulo, e encontraram a situação como as mulheres tinha dito. A Ele, porém, ninguém viu”. Então ele lhes disse: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso, para entrar em sua glória?” E, começando por Moisés e passando por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, o que se referia a ele. Quando chegaram perto do povoado para onde se encaminhavam, ele fez de conta que ia adiante. Eles, porém, insistiram: “Fica conosco, pois já é tarde e o dia está declinando!” Ele entrou para ficar com eles. Depois que se pôs à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu a eles. Então os olhos deles se abriram e o reconheceram. Ele, porém, desapareceu da vista deles. E diziam, um para o outro: “Não estava ardendo o nosso coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras?” Naquela mesma hora, levantaram e voltaram para Jerusalém, onde encontravam reunidos os Onze e outros discípulos. E estes confirmaram: “Realmente, o Senhor apareceu a Simão! Então, os dois relataram o que acontecera pelo caminho, e como o haviam reconhecido ao partir o pão”. (Lc 24,13-35).

No relato da caminhada de Jesus com os discípulos de Emaús, percebemos que o Deus que nos abraça também deseja ser nosso companheiro de caminhada. O caminho de Emaús é a estrada de nossa vida; é o trajeto que percorremos no discipulado com o Ressuscitado.


Dos dois discípulos caminhantes, temos o nome apenas de um: Cléofas, que quer dizer ouvinte. O outro discípulo não é nomeado. Quando um relato bíblico não nomeia o personagem, normalmente é porque quer deixar espaço para que a gente se identifique com ele. Um discípulo é Cléofas, o ouvinte da Palavra; o outro sou eu, é você ou qualquer pessoa, somos todos nós que caminhamos pela estrada da vida acompanhados pelo Ressuscitado. Assim, o que Jesus perguntou aos discípulos, Ele pergunta também a cada um de nós: “O que andais conversando pelo caminho?” (Lc 24,17).


Certamente, os discípulos conversavam sobre frustrações, desesperanças, cansaços, desânimos, decepções… Afinal, o Mestre havia morrido. Caminharam sem notar a presença daquele ilustre companheiro de viagem, que se aproximou deles. E carregavam o pesado fardo da tristeza e da decepção sozinhos. Até que um peregrino os abordou.


Também nós caminhamos rumo a Emaús. Somos o outro discípulo, companheiro de Cléofas. Estamos fechados em nós mesmos e não conseguimos notar a presença do Cristo Ressuscitado. José Tolentino Mendonça diz que esse trecho do Evangelho de Lucas pode ser chamado de “o pequeno Evangelho de Emaús. Porque nesse episódio tão bem contado pela maestria narrativa do narrador Lucas, nós temos uma síntese do que é o Evangelho e do que é o caminho do cristão”. E ele continua afirmando que “o caminho do cristão é aprender a ver. A Ressurreição, o impacto da Ressurreição de Cristo em nós é uma nova aprendizagem do olhar. Nós somos chamados a aprender a ver de outra maneira”1 .


Ao longo dessa estrada, Cristo vai aquecendo o nosso coração e vai nos ajudando a perceber sua presença em nossa vida. De maneira mistagógica e catequética, Ele abre as nossas mentes, os nossos olhos e faz arder o nosso coração com a explicação das Escrituras. 


O Papa Francisco recomenda que possamos reler a nossa vida com Jesus. Reler nosso dia à luz da Palavra de Deus e da Eucaristia, experimentar o amor do Cristo Ressuscitado em cada detalhe de nossa existência. Ao construir essa intimidade com Jesus, Ele deixará de ser um desconhecido peregrino e se transformará no nosso companheiro de viagem. 


E, quando fizermos essa descoberta, vamos exclamar como os discípulos de Emaús: “Não estava ardendo nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras?” (Lc 24,32). Descobriremos como os discípulos de Emaús que Jesus de Nazaré é nosso companheiro em nossa travessia pelo chão da vida.


O livro Testemunhas da Esperança, do Cardeal Van Thuan, diz: “Voltemos às origens do Evangelho. É um retorno às origens […] com os discípulos de Emaús, voltemos ao Espírito genuíno do Evangelho, voltemos a fazer do mistério pascal a fonte de nossa esperança”2. Com os discípulos de Emaús, somos convidados a fazer essa viagem de retorno ao evangelho e redescobrir em Jesus o sentido de nossas vidas, assumindo seu evangelho como palavra que faz viver.

Notas

1MENDONCA, José Tolentino. O pequeno evangelho de Emaús.

2VAN THUAN, François Xavier Nguyen. Testemunhas da esperança. São Paulo: Cidade Nova, 2022. p. 220.


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