“Eu garanto a vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista” (Mt 11,11a)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introduzindo
A liturgia do Advento nos convida a um esperançar. Assim como nos tempos em que nasceu Jesus, a humanidade hoje se encontra cheia de dores. Clama ao Senhor por dias melhores. O Evangelho de Mateus, que nos acompanha neste novo ano litúrgico (Ano A), tem especial preocupação de ser sinal de esperança para aqueles e aquelas que vivem em tempos, nos quais, a justiça se faz imperativo. Mateus escreveu para comunidades que viviam com ele em situação de diáspora. Contudo, quais eram essas comunidades, e em que situação se encontravam? Para compreender o contexto do evangelho mateano, precisamos voltar no século I, por volta do ano 70 d.C.
Contextualizando
Desde os tempos do Exílio da Babilônia (de 586 a 538 a.C.), os profetas anunciavam a vinda de um messias justo, que iria restaurar a dignidade de seu povo. A princípio pensava-se em um messias que restaurasse a glória da dinastia davídica, todavia o messias galileu revelou a ousadia suprema dos planos de Deus, restaurando a dignidade de toda humanidade, dando-a – por seu Filho – a condição de filhos e filhas. A messianidade de Jesus, seu Reino, instaura uma revolução em nossa condição humana. De criaturas, transcendemos a filhos e filhas do Altíssimo. De servos de Iahweh, somos convidados a sentarmos à mesa com ele, em condição filial, enquanto família de Jesus. Para resgatar a esperança em tempos de sofrimento pela ocupação romana, a comunidade de Mateus escreve seu Evangelho, resgatando o esperançar que brotava no coração do povo, desde os tempos do Segundo Isaías.
Como dissemos em nossa premissa inicial, assim como no tempo do Exílio da Babilônia, nos tempos de Jesus fazia-se imperativo restaurar a esperança. Por este motivo, a comunidade mateana reúne as memórias das palavras e ações de Jesus, organizando-as em um texto que deve sempre ser entendido a partir da perspectiva em que viviam estes seguidores e seguidoras de Jesus. Em 70 d.C. o Império Romano invadiu a Palestina, que já era sua colônia e lhe pagava tributos. Sufocou o movimento judaico revolucionário, tomou Jerusalém e destruiu o Templo. Os judeus tiveram que se dispersar e se reorganizar. As comunidades cristãs, que viviam nas imediações de Jerusalém, já haviam se dispersado. Algumas foram para Pela, no lado oriental do Rio Jordão, outras se espalharam pela Síria e Fenícia. De forma especial, se refugiaram junto à comunidade de Antioquia, na Síria. E foi em Antioquia, por volta do ano 80 d.C., que Mateus escreveu seu Evangelho para essas comunidades que haviam nascido nos recôncavos da Palestina. Diante destas referências históricas, se explica as preocupações de Mateus e sua comunidade. Ele é um judeu convertido aos ensinamentos de Jesus e se dirige ao mesmo tipo de pessoas. Os destinatários primeiros de seu Evangelho são judeus que aceitaram a Palavra e a Ação de Jesus como caminho para suas vidas.
Neste sentido, a teologia mateana percorre um caminho criativo e profícuo. Primeiro ele quer mostrar que Jesus e sua ação realizam tudo que o Primeiro Testamento anunciava, pedia e prometia. Depois, que o cristianismo também é ruptura com a religião judaica oficial, cristalizada em formas de vivência religiosa que já estavam muito distantes do projeto de Deus revelado e realizado em Jesus. Finalmente, quer mostrar que as comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus não devem ficar fechadas em si mesmas, mas se abrir para todos e todas, levando em todos os tempos e lugares a Palavra e a Ação de Jesus que liberta para a Vida Nova.
Isto posto, compreendendo o contexto e objetivos do Evangelho de Mateus, fica-nos mais fácil entender a perícope mateana presente nesta liturgia do 2º Domingo do Advento, Mt 3,1-12.
Aprofundando
Não é difícil perceber que todos os evangelhos fazem de João Batista a figura preparadora da atividade de Jesus. Antes de Jesus, veio João! Contudo, quem é mais importante? Após mais de dois mil anos de história, fica claro que Jesus é o Messias esperado e, por isso, João se faz colaborador de sua messianidade. Outrossim, os discípulos de João e de Jesus, muitas vezes, se perguntaram quem era o maior. Os evangelhos acabam com a discussão, mostrando que João é apenas o precursor, aquele que anunciava: “o Novo Tempo está por chegar“! Em nossa realidade eclesial, quem é João hoje? Certamente todas as pessoas que anunciam Jesus, sua Palavra e sua Ação. Assim como no tempo de Jesus, precisamos entender que devemos levar pessoas a ele e não retê-las para nós mesmos. É preciso que sigamos o exemplo de João, levando pessoas para Jesus e nos mantermos em nosso lugar de servos, assim como fez João. Com ele, devemos afirmar: “é preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). No anúncio do Evangelho, nada de nos confundirmos! Somos servos, anunciadores, pessoas a serviço do Reino. O protagonista é sempre Jesus! Quando não agimos assim, a vaidade, a arrogância, o egocentrismo tomam lugar privilegiado em nossas vidas e, consequentemente, o Evangelho e o Reino de Deus, ficam em segundo plano.
Caminhando um pouco pela perícope mateana da liturgia deste 2º Domingo do Advento, vemos que João aparece no deserto, distante das cidades, principalmente de Jerusalém (cf. Mt 3,1-4). No Primeiro Testamento o deserto foi o lugar do encontro e da intimidade com Deus, onde Israel aprendeu a ser fiel ao Companheiro de Caminhada, o Parceiro da Aliança (Iahweh), construindo uma sociedade nova, baseada na justiça e na fraternidade. Com João Batista, volta-se este esperançar. Anuncia-se um novo tempo. Onde as pessoas marginalizadas pela sociedade e religião daquele tempo terão seus clamores ouvidos. Onde os que choravam sob o braço forte da opressão romana, veriam uma centelha de esperança.
João anunciava uma novidade. Em verdade, um convite: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3,2). Mateus fala de “céus”, para não mencionar Deus. É Deus que está a se aproximar na pessoa de Jesus. Através de Jesus, Deus vai estabelecer seu reinado de justiça, realizando inteiramente seu projeto de liberdade e vida para todos e todas. Por isso é preciso estar preparados, deixando o caminho da injustiça que cria desigualdade entre as pessoas. O convite de João à conversão é uma exortação à coerência com o projeto de Jesus. Enquanto seguidores e seguidoras do Messias que está para chegar, nada de incongruências, contradições. É preciso que se aplaine os caminhos. É preciso que se instaure um tempo de Direito e Justiça. De fraternidade, solidariedade e partilha. E, para tanto, é preciso uma mudança radical no caminho. Conversão!
O Evangelho de Mateus aproxima a pessoa de João à comunidade profética do tempo do Exílio na Babilônia. No Segundo Isaías (dos capítulos 40 a 55), temos a mensagem da consolação, da esperança pelo fim do sofrimento. Assim como a volta dos exilados significou a restauração da liberdade, a vinda de Jesus vai trazer a Justiça que liberta da escravidão e da morte. Um pormenor importante se pode verificar em Mt 3,4: João se veste de forma sumária (roupa artesanal feita de pelos de camelo) e se alimenta do que tem à mão (gafanhotos e mel silvestre). Isso mostra que ele é independente dos grandes centros urbanos, que produzem o que há de melhor materialmente, mas sempre promovem injustiça e exploração. A pessoa de João Batista, e seus hábitos, são gritos proféticos contra a exploração e marginalização dos pequeninos. João prefere o deserto e a vida simples, e não as cidades e seus encantos que ofuscam os olhos, mas secam o sangue dos pobres.
Caminhando um pouco mais pelo texto do Evangelho na liturgia, vemos que a pregação de João tem sucesso (cf. Mt 3,5-6). Embora esteja no deserto, de todos os lados o povo vem procurá-lo. Sinal de que as cidades já não estão oferecendo uma alternativa nova de vida. Jerusalém se tornava – cada dia mais – o centro do poder religioso e político. Em contrapartida, explorava e marginalizava os pequeninos. Jerusalém produzia suas políticas de morte, enquanto o povo quer vida. Ao ouvir João, confessavam sua pequenez, seus pecados, e eram batizados no Rio Jordão. Que pecados eram esses? Certamente o compromisso com as estruturas injustas, contrárias ao reinado de Deus. Ao ouvir João, as pessoas começam a romper com o grande pecado da injustiça, tornando-se preparados para o compromisso com a justiça que Jesus vai ensinar. João é a pá que aplaina as veredas e os campos para que Jesus plante as sementes da justiça.
Muitos de nós podem se perguntar sobre o batismo de João. Não se trata de um batismo cristão, conforme entendemos em nossa catequese hoje. Trata-se mais de um sinal de arrependimento e conversão, uma purificação do passado comprometido com a injustiça. Antes de acolher o Evangelho de Jesus, precisamos renunciar a tudo que contraria a dignidade e a vida. Não se pode andar com os pés em duas canoas. Ou escolhemos o Reino de Deus, ou o reino do mundo. Ou queremos justiça, liberdade e vida; ou injustiça, escravidão e políticas de morte.
Na personalidade de João há algo profundamente cativante: sua coragem e coerência nas ações. Se João Batista recebe bem o povo simples e sedento de esperança, sua atitude para com as lideranças políticas e religiosas é bem diferente (cf. Mt 3,7-10). Os fariseus eram os chefes espirituais, conheciam muito bem a religião e se gabavam de ser fiéis ao extremo. Os saduceus eram os chefes da economia, da política e da religião. Eram todos da classe alta e, em primeiro lugar, lutavam por defender seus interesses e mordomias, além de conservar suas propriedades. Diante deles, João é duro. Chama-os de cobras venenosas, das quais se pode esperar somente a morte. “Quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar?” (Mt 3,7). A estes virá inevitável julgamento. O reinado de Deus vai criar a justiça que porá em xeque toda a injustiça. Não adianta fingir. E os chefes dos sistemas injustos adoram fingimentos. Trata-se de seus artifícios para impressionar e comprar o povo. Os fariseus e saduceus se afiançavam, dizendo que eram filhos puros de Abraão, o pai da fé. Todavia, João diz que não adianta fazer parte da descendência do patriarca. O que é preciso é a fé. Por ela, todos podem se tornar filhos de Abraão, desde que, pela fé, se comprometam com Deus e com o projeto que ele realizará em Jesus. Quem não testemunhar com a própria vida o caminho da justiça e da fraternidade, será condenado. Árvore que não der bom fruto, será cortada e jogada no fogo (Mt 3,10). Deus e seu povo estão cansados de tanto fingimento!
Por fim, João explica bem o que está fazendo (cf. Mt 3,11-12). Sua tarefa é apenas preparar os caminhos do Senhor. Por isso ele anuncia e batiza. Pede conversão e batiza para selar essa conversão. Ele é o arauto que vem na frente para anunciar o rei que trará a nova condição para todo o povo. Naquele tempo, tirar e carregar as sandálias de alguém significava ser servo, empregado. E João afirma que sequer é digno disso, de ser servo de Jesus. “Eu nem sou digno de carregar suas sandálias” (Mt 3,11). Além de apresentar a si e sua missão de forma humilde, anuncia que Jesus trará um novo batismo. O batismo que todos nós fomos batizados. Nele, nós recebemos o mesmo Espírito de Deus que levou Jesus a realizar o projeto do Pai. Ele é o fogo que devorará toda a injustiça. E, doravante, Jesus é nosso juiz: com a pá na mão, ele fará a colheita. Se formos trigo bom, ele nos recolherá em seu celeiro. Se formos apenas palha, ele nos queimará para sempre. Castigo? Não! Somos o que escolhemos ser. O Evangelho nos oferece esperança, mas nos pede compromisso e fidelidade com a liberdade e a vida.
Atualizando
Em nossas comunidades eclesiais, precisamos nos atentar às provocações que João Batista nos deixou. A vida daquele que preparou os caminhos de Jesus, infere de nós compromisso com o Messias, sua Palavra e Ação. Precisamos entender que cada um e cada uma de nós, que se dispõe a anunciar o Evangelho, deve manter Jesus sempre na condição de protagonista. Precisamos anunciar Jesus com ardor missionário, jeito humilde e paixão. Não podemos atrair os holofotes sobre nós. A vaidade de alguns pregadores tem ofuscado o brilho do Evangelho. O estrelismo reivindica privilégios. Mesmo anunciado o Reino de Deus e sua justiça, muitos pregadores escandalizam com ações arrogantes, acúmulo de bens, apego excessivo ao dinheiro. Esta é uma lógica do Capital. Não é proposta do Evangelho. Com João Batista aprendemos que precisamos sempre anunciar Jesus, com jeito simples, rompendo com as estruturas de poder e ganância. Com João Batista também percebemos o imperativo de se manter a honestidade nas palavras e ações. Os poderosos (fariseus e saduceus) que procuravam João, pretendiam cooptá-lo para seus interesses ou confrontá-lo; considerando-lhe um risco. O profeta mantém-se firme em sua missão, denunciando a falsidade destes líderes e seus interesses obscuros. Também nós precisamos manter a coragem, diante das muitas ameaças às propostas do Evangelho. Os poderosos sempre perseguirão aqueles e aquelas que promovem a justiça, a liberdade e a vida. Sigamos firmes! Fortalecidos e fortalecidas pela Palavra de Deus que nos exorta: “Preparai o caminho do Senhor, na região da terra seca, aplainem uma estrada para o nosso Deus!” (Is 40,3).
Deixe um comentário