Os pobres são evangelizados, chegou o Reino de Deus! | Reflexão sobre Mt 11,2-11

“Eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti.”
(Mt 11,10)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Na semana passada usamos como abertura de nossa reflexão, a palavra de Jesus que encerra o Evangelho da Liturgia de hoje, 3º Domingo do Advento: Mt 11,2-11. Jesus afirma, com o coração enternecido pela amizade, como que elogiando a João Batista: “Eu garanto a vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista” (Mt 11,11a). Hoje, veremos que, até mesmo aqueles e aquelas que estão intimamente ligados aos projetos de Deus, podem ter dúvidas. Ou, quem sabe, aprofundar certezas.

Mateus apresenta a pergunta de João: “És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?” (11,3), como que um prelúdio à constatação de que a presença de Jesus, sua Palavra e Ação, trazia nova esperança para o povo simples e pobre. Podemos entender estas palavras da comunidade mateana como uma análise da ação messiânica de Jesus de forma retroativa. Coloca-se nos dias de Jesus, o que a comunidade de Mateus pretende testemunhar pelos anos 80 d.C.

Para entender a importância da perícope do Evangelho de Mateus presente hoje na Liturgia, é bom fazer memória de como viviam as pessoas no tempo de Jesus e, um pouco mais adiante, nos tempos das comunidades missionárias que anunciavam o Evangelho após Jesus ter voltado ao Pai. Vamos relembrar um pouco a história!

Contextualizando

Desde os tempos do Exílio da Babilônia (de 586 a 538 a.C.), os profetas anunciavam a vinda de um messias justo, que iria restaurar a dignidade de seu povo. A princípio pensava-se em um messias que restaurasse a glória da dinastia davídica, todavia o messias galileu revelou a ousadia suprema dos planos de Deus, restaurando a dignidade de toda humanidade, dando-a – por seu Filho – a condição de filhos e filhas. A messianidade de Jesus, seu Reino, instaura uma revolução em nossa condição humana. De criaturas, transcendemos a filhos e filhas do Altíssimo. De servos de Iahweh, somos convidados a sentarmos à mesa com Ele, em condição filial, enquanto família de Jesus. Para resgatar a esperança em tempos de sofrimento pela ocupação romana, a comunidade de Mateus escreve seu Evangelho, resgatando o esperançar que brotava no coração do povo, desde os tempos do Segundo Isaías.

Como dissemos na premissa inicial de nossa contextualização, assim como no tempo do Exílio da Babilônia, nos tempos de Jesus fazia-se imperativo restaurar a esperança. Por este motivo, a comunidade mateana reúne as memórias das palavras e ações de Jesus, organizando-as em um texto que deve sempre ser entendido a partir da perspectiva em que viviam estes seguidores e seguidoras de Jesus. Em 70 d.C. o Império Romano invadiu a Palestina, que já era sua colônia e lhe pagava tributos. Sufocou o movimento judaico revolucionário, tomou Jerusalém e destruiu o Templo. Os judeus tiveram que se dispersar e se reorganizar. As comunidades cristãs, que viviam nas imediações de Jerusalém, já haviam se dispersado. Algumas foram para Pela, no lado oriental do Rio Jordão, outras se espalharam pela Síria e Fenícia. De forma especial, se refugiaram junto à comunidade de Antioquia, na Síria. E foi em Antioquia, por volta do ano 80 d.C., que Mateus escreveu seu Evangelho para essas comunidades que haviam nascido nos recôncavos da Palestina. Diante destas referências históricas, se explicam as preocupações de Mateus e sua comunidade. Ele é um judeu convertido aos ensinamentos de Jesus e se dirige ao mesmo tipo de pessoas. Os destinatários primeiros de seu Evangelho são judeus que aceitaram a Palavra e a Ação de Jesus como caminho para suas vidas.

Neste sentido, a teologia mateana percorre um caminho criativo e profícuo. Primeiro quer mostrar que Jesus e sua ação realizam tudo que o Primeiro Testamento anunciava, pedia e prometia. Depois, que o cristianismo também é ruptura com a religião judaica oficial, cristalizada em formas de vivência religiosa que já estavam muito distantes do projeto de Deus revelado e realizado em Jesus. Finalmente, quer mostrar que as comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus não devem ficar fechadas em si mesmas, mas se abrir para todos e todas, levando em todos os tempos e lugares a Palavra e a Ação de Jesus que liberta para a Vida Nova.

Isto posto, compreendendo o contexto e objetivos do Evangelho de Mateus, fica-nos mais fácil entender a perícope mateana presente nesta liturgia do 3º Domingo do Advento, Mt 11,2-11.

Aprofundando

Para bem entender a perícope do Evangelho de Mateus em nossa Liturgia, precisamos de algumas informações fundamentais. O capítulo 11 de Mateus funciona como uma revisão do que aconteceu desde o primeiro capítulo até agora. Todos nós temos expectativas e, quando chega a realidade, nem sempre ela coincide com o que esperávamos antes. O mesmo aconteceu com Jesus, o Messias. O povo daquele tempo, assim como nós hoje, esperava pelo messias libertador. Jesus chegou, começou a falar e agir, mostrando que seu compromisso era com o Reino de Deus e com a Justiça que faz esse Reino se tornar presente, concreto, real na vida do povo. Porém, muitas vezes, as pessoas idealizam seu libertador e a libertação. Confundem expectativas. Inflam sonhos e ambições humanas. Aí vem Jesus, o filho do carpinteiro – como o conheciam – afirmando que Ele era o cumpridor das promessas feitas desde o tempo de Isaías (cf. Lc 4,21). Será que Ele é mesmo o Messias? Com a perícope da Liturgia de hoje, a comunidade de Mateus pretende confirmar isso.

Vamos entender um pouco do cenário de Mt 11,2-11: João Batista está preso (cf. Mt 4,12). Enfrentou profeticamente os poderosos (cf. Mt 14,1-5). Ele havia anunciado a chegada do Messias que iria julgar e condenar violentamente toda a injustiça, mas Jesus se apresenta humildemente para o batismo de conversão (cf. Mt 3,13-15). João esperava alguém forte, e Jesus se revela aparentemente fraco. Entre a expectativa e a realidade aparente, fica a dúvida. João manda seus discípulos – que visitavam-no no cárcere – perguntar: “És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?” (Mt 11,3). A pergunta de João personifica as nossas questões e expectativas. Será que Jesus traz de fato a solução para todos os nossos problemas? E mais: a solução que esperamos, de fato, é aquilo que o Reino de Deus pretende, ou o que buscamos é satisfazer nossos egos e inflar sonhos e ambições?

Diante destas questões, faz-se imperativo nos atentarmos para a resposta de Jesus. Ele aponta não para sua pessoa, mas para o que faz: o povo começa a enxergar, a andar, a se libertar da marginalização e exclusão, a ouvir e – importa sublinhar isso – os pobres recebem a boa notícia de que o tempo da justiça e da paz chegou (Mt 11,4-5). Tudo o que os profetas anunciaram para o tempo do Messias. Precisa dizer mais? Se não entendermos isso, temos que reler a Bíblia do começo ao fim, para compreender que o projeto de Deus é liberdade e vida para todos e todas.

Atualizando

João Batista é o último dos profetas. Nele se encerra o Primeiro (Antigo) Testamento. Ele está intimamente ligado àquele que acreditamos ser o primeiro dos profetas, ou seja, Elias. No tempo de Jesus todo mundo esperava que chegasse Elias, o profeta que voltaria para preparar o caminho do Messias (cf. Mt 11,7-15). Em outras palavras, um novo Moisés que levaria o povo até às margens do Jordão. Daí para a frente, o povo seria conduzido por Josué, conforme nos informa as memórias finais do livro do Êxodo e os primeiros capítulos do livro de Josué. João Batista havia anunciado severamente a necessidade de mudança de vida, através do arrependimento e da conversão. Esse era o papel do profeta Elias (cf. 1Rs 17,1+), modelo para todos os outros profetas. Foi modelo para João Batista e também é para todos nós, pois (também nós) devemos preparar o caminho da libertação. E esta libertação não se confirmará se as pessoas não tomarem consciência do imperativo necessário de se comprometer com a Justiça. Para tanto, faz-se necessário que mudemos de vida, saindo das posturas que – conscientemente ou não – nos associam às dinâmicas injustas da sociedade. Somos suscitados ao compromisso com a Justiça e a denúncia dos muitos sinais de políticas de morte e violação dos Direitos Humanos. Assim, estaremos vivendo de forma prática a proposta do Evangelho de Jesus. É Ele quem vai introduzir o povo na “terra prometida” do Reino de Deus, onde a justiça garantirá que todos vivam bem, livres e felizes. A Plenitude de Deus!

Temos João Batista como paradigma, enquanto aqueles e aquelas que agora anunciam o Reino de Deus. Apesar da grandeza de João, o menor dos discípulos e discípulas de Jesus é maior que ele, porque João pertencia ao tempo da espera, enquanto Jesus pertence ao tempo da realização. João encerra o Tempo Antigo, a Antiga Aliança. Jesus inaugura o Novo Tempo. Permanecer em João é manter-se no passado, na promessa, não adentrando na novidade, na realização. A Boa Nova de Jesus transforma a realidade humana. Ficar preso em João é ter medo de ousar, alçar voo no caminho do Evangelho. A pergunta dos discípulos de João a Jesus reflete muitos dos sentimentos que existem em nossos tempos. Devemos ir adiante no sonho de uma Igreja em saída? Devemos ter a ousadia dos primeiros discípulos e discípulas de Jesus e começar a edificação de uma nova sociedade, edificada na fraternidade, sororidade e partilha? Ou nos agarrar às referências do passado, engessando o Evangelho de Jesus em apegos e medos de romper os grilhões da falsa segurança? Devemos nos assegurar em costumes, tradições que não fazem mais sentido; ou precisamos entender que – conforme nos ensinou a teologia joanina – tudo em Deus e Jesus nasce e se encerra no amor? Para além de costumes, liturgias, tradições; o amor é coluna mestra. Tudo vem do amor e a ele converge. Jesus é esse tempo: o Tempo do Amor! O passado nos ajuda a entender o presente e planejar o futuro. Prender-se ao passado é condenar a Igreja a um ananismo histórico, pelo qual, ela sempre estará aquém de sua missão de ser elemento transformador da sociedade. Ser maior que João é entender que, assim como ele, devemos anunciar a Jesus e seu Reino. E mais: começar a ensaiar esta realidade aqui e agora. Na comunidade de Jesus, nada de se ambicionar o ser pequeno, segundo a lógica que engessa o crescimento enquanto homens e mulheres de Deus. É preciso buscar, com todas as forças, fazer parte do Reino de Deus, amando sempre, perdoando sempre e preferencialmente, colocando-nos do lado dos fracos, dos pequeninos, dos vulneráveis. Com isso, podemos dizer sem medo: o Reino de Deus está aqui!


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