Catequese hoje: caminhos para uma iniciação cristã atraente

Por Andrea Aparecida Costa Barbosa

Ainda hoje em muitas Igrejas, a catequese é organizada como um curso, começa em determinada data, percorre um conteúdo padronizado, realiza uma avaliação final e termina no dia da celebração do sacramento pretendido. Essa configuração escolar, talvez eficiente para transmitir informações, mas pouco fecunda para gerar pertencimento, produz resultados conhecidos: desinteresse, evasão e a sensação de “dever cumprido”, que não se converte em vida de fé. O desafio contemporâneo, porém, não é simplesmente atualizar apostilas ou modernizar aulas, e sim reconfigurar a catequese como processo de iniciação cristã, centrado no encontro vivo com Cristo, na experiência comunitária e na missão. Trata-se de deslocar o eixo: do “preparar para um rito” para o formar discípulos em caminho.

O cenário atual revela um déficit de iniciação. Muitas pessoas foram sacramentalizadas, mas não iniciadas na fé de modo a responder pessoalmente ao chamado de Deus. Isso acontece quando a prática sacramental não é acompanhada por um caminho que conduza ao encontro vivo com Cristo e à adesão livre ao Evangelho. A finalidade da catequese, então, não é “acrescentar informações” sobre Deus, mas favorecer a experiência com o Ressuscitado, única capaz de reordenar escolhas e sustentar a vida cristã a longo prazo.

Essa virada pede, antes de tudo, um diagnóstico sincero. A linguagem frequentemente utilizada não dialoga com o repertório simbólico de crianças e jovens; os encontros priorizam a exposição de conteúdos e deixam pouco espaço para a escuta, a criatividade, o corpo, a arte. Na prática, “falar sobre Deus” ocupa o lugar de experimentar Deus na Palavra, na liturgia e na caridade. Além disso, a catequese costuma acontecer à margem da vida paroquial; prepara-se para a Primeira Eucaristia ou Crisma, mas raramente se integra ativamente a ministérios, grupos e serviços. O resultado é previsível: passado o sacramento, muitos se afastam porque nunca chegaram de fato à comunidade.

Responder a esse quadro exige fundamentos sólidos. O primeiro é o primado do querigma: não há percurso formativo que se sustente sem o anúncio encantador do amor de Deus que chama à conversão e oferece sentido. O segundo é a iniciação cristã como processo, inspirado no catecumenato: etapas, ritos de passagem, tempos de maturação e acompanhamento pessoal. O terceiro é a mistagogia, isto é, aprender “a partir de dentro” da liturgia: compreender os sinais, saborear a Palavra proclamada, descobrir a relação entre o altar e a rua, entre a celebração e as escolhas concretas de cada dia. A esses, somam-se a sinodalidade, pois ninguém caminha sozinho, a comunidade inteira educa, e a inculturação, que pede linguagem, estética e práticas enraizadas no território, na cultura juvenil e nas realidades populares. Por fim, a opção pelos pobres não é um anexo ético: é lugar pedagógico da Revelação; a fé cresce quando se doa.

A catequese paroquial não é escola; e o encontro catequético não é “aula”. Numa lógica iniciática, o catequista não se comporta como professor que transmite conteúdos a serem memorizados; ele testemunha uma Pessoa e cria condições para o encontro com ela. Por isso, mudam o ambiente (cadeiras que favorecem a roda, espaço orante), a linguagem (símbolos, oração, partilha) e a própria avaliação, que deixa de ser “prova” cognitiva para assumir um caráter simbólico-ritual que sustente decisões de seguimento. Esse deslocamento é parte do processo de des-escolarização necessário para que a catequese recupere sua natureza de encontro e não de aula.

O espaço fala. Salas com carteiras enfileiradas e quadro frontal sugerem “aula”; círculos, cantos orantes e mesas de partilha sugerem encontro. Até os materiais mudam, em vez do “livro da criança” como eixo, o catequista leva recursos simples e comuns para todos, favorecendo a experiência, a partilha e a oração. A avaliação deixa de mensurar “quantos conceitos foram aprendidos” e passa a observar desejo, participação, perseverança e passos rituais de adesão.

Quando a catequese assume esses fundamentos, a organização muda de forma. Em vez de uma lista de conteúdo para cumprir, propõe-se um itinerário que articula querigma, Palavra, liturgia e caridade. O percurso, pensado para faixas de vida deve deixar de ser seriado e passa a ser processual, com ritos simples que marcam e convidam à decisão pessoal. Encontros menores devem se alternar com grandes momentos intergeracionais: a comunidade reúne crianças, jovens e idosos para escutar a Palavra, partilhar experiências e realizar oficinas por “estações” (arte, música, Bíblia, serviço). Isso cria laços, ativa memórias, dá rosto à Igreja e comunica, de modo natural, que a fé se aprende com quem veio antes e com quem virá depois.

É preciso privilegiar a aprendizagem experiencial. Em vez de aulas expositivas, podemos pensar nos eixos: experiência → reflexão → Palavra → decisão → celebração. Um conflito vivido na vida cotidiana, por exemplo, torna-se porta de entrada para o Evangelho; a leitura orante (em linguagem acessível) ilumina a situação; define-se um pequeno gesto de reconciliação; a comunidade intercede e celebra. Catequese mistagógica não tem como objetivo principal “ensinar doutrina”, e sim conduzir ao mistério: rezar, contemplar, simbolizar, saborear a presença de Deus. E a catequese narrativa não é “contação de histórias” no sentido fraco; é apresentar o Evangelho de modo que interpele a vida hoje, provoque adesão e gere seguimento. Trata-se de narrar o evento Cristo de maneira envolvente, para que a mesma Palavra que iluminou outros tempos ilumine o nosso. O corpo, a arte e o jogo não são distrações, são canais catequéticos que abrem, de modo lúdico e profundo, a inteligência do coração.

A centralidade da liturgia pede outro movimento: vincular o tema de cada encontro a um gesto litúrgico e repercuti-lo nas celebrações. Trabalha-se a água, e então a assembleia celebra um rito simples de bênção de água para as famílias; aborda-se a luz, e as crianças ajudam a preparar o círio da comunidade; reflete-se sobre o perdão, e todos se preparam para um momento comunitário de reconciliação. A missa semanal deixa de ser “atividade paralela” para tornar-se fonte e cume do processo, e a comunidade converte-se em ambiente de experenciar a fé.

Nesse sentido, catequistas deixam de ser “professores de conteúdo” para tornarem-se mistagogos e acompanhantes. Isso requer formação continuada, retiros e cuidado com a saúde emocional. Acompanhamento individual, conversas breves, pactos de crescimento e oração conjunta valem mais para a perseverança do que qualquer prova.

Uma catequese que se pretende inclusiva precisa remover barreiras, adaptar a linguagem, oferecer materiais acessíveis (Libras, pictogramas, linguagem simples), mobilizar tutores de pares, acolher fragilidades (luto, dependências, migração) e reconhecer ritmos singulares de aprendizagem. Essa inclusão não é favor; é critério evangélico e método pastoral, ninguém aprende a comunhão excluindo o diferente.

A mudança de forma pede também mudança de avaliação. Em vez de testes de memorização, constroem-se portfólios de fé, registros de experiências, fotos de projetos, pequenas cartas a Deus, compromissos assumidos, valorizando os ritos e sinais de caminho (desejo, participação, perseverança). A comunidade define critérios formativos, participação, serviço, oração, reconciliação. Assim, privilegia o que realmente importa, não apenas o que foi explicado, mas o que foi vivido, ou seja, valoriza a memória orante, testemunhal com indicadores pastorais, pertença, missão, vida litúrgica.

Para que o processo não dependa de heróis individuais, é decisivo organizar uma governança sinodal. Um conselho catequético, com catequistas, pais, juventude e ministros ordenados que planeja, acompanha e revisa o caminho. Indicadores simples ajudam a medir impacto. Quantos perseveram na missa e em grupos após os sacramentos? Quantos microprojetos de caridade foram realizados e com que frutos? Como as famílias adotaram práticas domésticas de oração? Que papéis juvenis se tornaram protagonismo (música, mídias, esportes, comunicação paroquial)? O que melhorou na qualidade celebrativa e na participação das crianças e jovens na liturgia? Esses dados, acolhidos com humildade, conduzem a ajustes responsáveis e evitam a armadilha do improviso permanente.

É claro que uma virada assim encontra resistências. Há quem diga “sempre foi assim”; quem alegue falta de pessoas; quem tema que “des-escolarizar” signifique “desorganizar”. A resposta pastoral passa por escuta e prudência. Em vez de trocar tudo de uma só vez, é possível constituir uma equipe de transição para mapear a realidade, escutar famílias e catequistas. As experiências positivas, quando bem comunicadas, são mais convincentes que discursos abstratos. Quanto à escassez de recursos, a criatividade comunitária é uma aliada: espaços públicos, materiais de baixo custo, música e artes locais. Menos encontros, porém mais significativos, aliviam o peso sobre as famílias e qualificam o tempo dedicado.

No fim das contas, a pergunta que guia toda reforma é simples. Esta catequese gera vida? Crianças pedem para voltar? Jovens encontram sentido e espaço de protagonismo? Adultos redescobrem a fé e assumem corresponsabilidade? A experiência mostra que, quando a comunidade se converte a esse paradigma, os sacramentos deixam de ser ponto de chegada para tornarem-se fontes que irrigam toda a caminhada. Des-escolarizar, aqui, não significa desordenar, mas reordenar segundo o Evangelho, privilegiar o encontro, o símbolo, o corpo, a comunidade, a missão. É uma mudança exigente, porque mexe em costumes e confortos; mas é também uma oportunidade histórica de reencantar a transmissão da fé num mundo plural e inquieto.

Num ambiente cultural marcado por fragmentação e pluralidade, a mera transmissão de conteúdos religiosos não responde mais. É preciso um novo paradigma catequético que enfrente a crise de transmissão da fé, reconfigurando o processo como iniciação que integra querigma, Palavra, liturgia e caridade, sempre com linguagem e mediações pertinentes ao nosso tempo.

Por isso, a hora é agora. Rever práticas, experimentar o novo com coragem, avaliar com rigor e perseverar. A catequese que nasce do encontro com Cristo e se alimenta da comunidade tem uma beleza própria, capaz de atrair, formar e enviar. Ela não promete respostas fáceis, mas oferece um caminho: o caminho de discípulos missionários que aprendem, celebram e servem juntos e, assim, tornam visível no território a alegria do Evangelho.

Colaborou: Fique Firme


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