Por Karina Moreti
A história de Ana nasce em um dos períodos mais instáveis da vida de Israel. Estamos nos últimos anos da era dos Juízes, um tempo marcado pela frase que sintetiza toda a crise: “Cada um fazia o que bem lhe parecia” (cf. Jz 21,25). Não havia unidade política, não havia liderança espiritual consolidada, e as tribos lutavam para sobreviver em meio a conflitos internos e ameaças externas. As rotas de comércio estavam sob disputa. As alianças eram frágeis. Os filisteus avançavam com tecnologia militar superior — especialmente o domínio do ferro, que lhes dava vantagem estratégica (cf. 1Sm 13,19-22). Em meio a essa instabilidade, Israel continuava peregrinando não apenas pela terra, mas por dentro de sua própria identidade espiritual. A Arca da Aliança estava em Silo, mas Silo já não carregava o vigor dos primeiros tempos. O culto permanecia, mas a fé vacilava. Era um período de rituais inquietos e de uma identidade nacional cansada.
É nesse contexto que o texto bíblico descreve que: “A palavra de Iahweh se manifestava raramente nesse tempo e as visões não eram frequentes” (1Sm 3,1). Essa afirmação não é apenas teológica. É sociológica. Fala de um povo que perdeu a escuta. Fala de sacerdotes que perderam a sensibilidade. Eli representava uma liderança fatigada, incapaz de corrigir os próprios filhos, Hofni e Fineias, que profanavam o culto (cf. 1Sm 2,12-17.22-25). A corrupção religiosa corroía o espírito do Santuário. A fé, que deveria ser o eixo da vida comunitária, tornou-se instrumento de interesse pessoal. A decadência de Silo é, portanto, um espelho da decadência de Israel. Quando o culto se esvazia, o povo se dispersa. Quando a Palavra se apaga, a história se fragiliza.
É nesse ambiente que surge Ana, mulher, estéril, esposa de Elcana. Ela aparece, não como figura pública, mas como testemunho íntimo da dor humana. Seu drama pessoal — a esterilidade — é compreendido de modo muito particular na cultura do Antigo Oriente. Naquela sociedade patriarcal, o ventre era visto como lugar do futuro: filhos significavam continuidade, proteção, honra e memória. Uma mulher ferida pela esterilidade carregava a frustração, o peso da exclusão social e a sensação de ruptura com o destino da família. Penina, a outra esposa de Elcana, alimentava essa ferida com humilhações contínuas (cf. 1Sm 1,6-7). Em Israel, onde a fertilidade era frequentemente associada à bênção divina, a esterilidade era interpretada como silêncio de Deus. Assim, Ana não sofria apenas pela ausência de um filho, mas pela aparente ausência do próprio Deus em sua vida.
No entanto, Ana não permite que sua dor se transforme em amargura. Não perde a direção do seu coração. Ela sobe a Silo, junto à família de seu esposo, no período anual dos louvores e sacrifícios. Entra no santuário. E transforma sua dor em oração. Não uma oração formal, mas uma oração que ultrapassa palavras. Ela rasga seu coração e alcança o nível da alma, — tão profunda que Eli pensa que está embriagada (cf. 1Sm 1,12-14). O voto que Ana faz é incomum e ousado: se Deus lhe conceder um filho, ela o devolverá inteiramente ao Senhor, como nazireu, consagrado desde o nascimento (cf. 1Sm 1,11). Ela não pede um filho para si. Ela pede um filho para Deus. Ana nos ensina que a verdadeira vocação não é possuir, mas oferecer. Em uma era de líderes frágeis, Ana entrega a Iahweh o futuro que falta à nação. Seu clamor é, ao mesmo tempo, pessoal e histórico. A fé de Ana atravessa sua dor e encosta no destino de Israel. Deus escuta. Samuel nasce. Seu nome se torna memória viva: “Eu o pedi a Javé” (1Sm 1,20). Ana demonstra que a vida não lhe pertence. Que tudo é dom. Que tudo é graça. Ela não segura para a si a promessa. Quando o menino é desmamado — por volta de três anos, segundo os costumes da época — ela o leva ao Santuário e o entrega a Eli. É um dos gestos mais profundos da espiritualidade bíblica. Ana devolve ao Senhor aquilo que recebeu do Senhor. O que outras mães protegeriam como tesouro, ela oferece como missão. É nesse movimento que vemos a vocação surgindo não apenas pelo chamado de Deus, mas pela entrega humana. A vocação nasce no encontro entre o chamado divino e a generosidade daqueles que abrem mão de si. A maternidade de Ana é, antes de tudo, vocacional. Ela gera um filho para Iahweh e para o povo. Samuel não nasce para satisfazer um desejo pessoal, mas para inaugurar uma nova etapa da história de Israel. A fidelidade de Ana não termina com o nascimento de Samuel, ela cumpre o voto. Com certeza, ela sentia uma forte dor no coração, no entanto, entrega o menino a Eli. Aceita o esvaziamento que toda verdadeira vocação exige.
O cântico de Ana nos revela sua maturidade espiritual: Deus derruba os poderosos e exalta os humildes. A vida nasce onde parecia impossível. O Senhor escreve a história a partir dos pequenos. No evangelho da comunidade lucana, no capítulo primeiro, encontramos uma paráfrase a este canto na voz de Maria, mãe de Jesus, o Magnificat.
Ana é chamada por Deus para ser ponte entre os extremos: a esterilidade e a fecundidade, a crise e a esperança, e – o mais difícil – o silêncio de Deus e a palavra profética de Samuel. Sua história nos ensina que Deus nos chama a partir da fragilidade e que a vocação mais fecunda é aquela que, mesmo sofrida, se entrega inteira ao projeto divino. Que aqueles que confiam descobrem que Iahweh age no simples. Que Ele inicia grandes mudanças nos lugares que parecem pequenos e renova a história através de pessoas que ninguém nota. Que Ele reabre caminhos onde o silêncio se instalou e planta futuro no ventre que todos julgavam estéril.
Senhor,
te pedimos que assim como Ana,
ensina-nos a confiar em Ti no tempo da espera.
Recebe nossas dores, transforma-as em fé
e faz do nosso coração um lugar de entrega.
Que saibamos oferecer a Ti aquilo que somos,
certos de que toda vocação nasce do dom
e se cumpre na confiança.
Amém.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
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