Por Yuri Lamounier Mombrini Lira
Como lembra o apóstolo Paulo: “O amor de Cristo nos impele” (2Cor 5,14). Algumas traduções da Bíblia utilizam nesse versículo o verbo “constranger” no lugar do verbo “impelir”. Aparentemente, esses dois verbos são contraditórios, mas não é bem assim. O amor de Cristo nos deixa envergonhados ou constrangidos, porque percebemos que não somos capazes de amar como Ele amou, tão grande é seu amor por nós: amor incondicional, desmedido. Por outro lado, o amor de Cristo também nos impele, isto é, nos impulsiona, nos ajuda a avançar e a progredir. Compreendemos que, apesar de nossas limitações, somos chamados a amar com a mesma intensidade que Jesus. E é o próprio amor de Cristo que nos impulsiona a trilhar este caminho. O amor de Cristo nos ensina como amar e nos dá forças para amar também.
Chiara Luce dizia: “Assim como foi fácil para mim aprender o alfabeto, deve ser também viver o Evangelho”1. Sabemos que para aprender o alfabeto não se leva muito tempo, mas para aprender o evangelho de Cristo pode se levar uma vida inteira. Aprender o evangelho é mais que guardar de cor os trechos narrados pelos evangelistas; é vivê-lo em nosso cotidiano. Contemplando a vida e os ensinamentos de Jesus, podemos refletir sobre a nossa vida e repensar as nossas atitudes e podemos nos perguntar: “O que ainda precisamos aprender do evangelho? Como posso viver ainda mais autenticamente os ensinamentos de Jesus?”.
Jesus ensinou não só através de palavras, mas principalmente através de gestos. Ensinou que a vida só tem sentido se tiver amor. De todos os seus ensinamentos, o amor é o que tem primazia, o mais importante, o mais urgente. Nosso Mestre disse: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,12-13).
Amar contempla perdoar. Por isso, Jesus insistiu muito no valor do perdão. Um dia, Pedro lhe perguntou quantas vezes era preciso perdoar o irmão. Será que bastaria perdoar sete vezes? Sete indica perfeição. Perdoar sete vezes já parecia suficiente. Jesus, porém, lhe respondeu: “Digo-te, não até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,21-22). Nosso Mestre nos mostra que é preciso perdoar quantas vezes for preciso.
Para perdoar é preciso ser humilde e reconhecer as próprias fraquezas. Só quem reconhece suas limitações pode ter paciência com a limitação dos outros. Daí a importância da humildade. Uma virtude mais que necessária para a boa convivência e para a nossa saúde mental. O evangelista Marcos escreveu: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos, o servo de todos” (Mc 9,35). Ser o último não por desprezo a si mesmo ou por falta de autoestima. Mas ser o último como aquele que reconhece o rosto do outro que o interpela; como aquele que não arroga para si a melhor parte, mas sabe que todos são dignos e têm direito à vida plena. Jesus nos ensina a não julgarmos e a sermos mais misericordiosos: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (Lc 6,36-37).
A humildade é prima da simplicidade, virtude também exaltada por Jesus: “Eu te louvo, Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25).
A simplicidade de coração nos leva a confiarmos em Deus: “Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, crede em mim também” (Jo 14,1). Se confiamos Nele, não precisamos temer as tempestades da vida: “Coragem! Não tenhais medo!” (Mc 6, 50), foi o que Ele disse a seus discípulos quando o mar estava revolto.
Poderíamos recordar ainda muitos outros ensinamentos de Jesus, todos eles muito impor-tantes. Mas listando apenas alguns aqui, podemos refletir sobre o quanto ainda precisamos aprender do evangelho. Chiara Luce, escreveu em 1985:
Redescobri o Evangelho sob uma nova luz. Entendi que eu não era uma cristã autêntica, porque não vivia o Evangelho profundamente. Agora, quero fazer desse magnífico livro o meu único objetivo de vida. Não quero e não posso permanecer analfabeta de uma mensagem tão extraordinária como essa. Assim como foi fácil para mim aprender o alfabeto, deve ser também viver o Evangelho2.
Do mesmo modo que Chiara Luce se deixou iluminar pelo evangelho de Cristo, nós também temos a oportunidade de redescobrir os seus ensinamentos e de nos colocar no seu discipulado. Nós também não queremos e não podemos permanecer analfabetos do evangelho de Jesus. Queremos assumir o compromisso de procurar conhecer mais e melhor a Jesus Cristo e a sua Palavra. Daí a importância de ler os Evangelhos diariamente, meditá-los e transformá-los em nossas palavras e gestos. É claro que teremos dificuldades, mas o próprio Jesus com seu amor nos impele.
O jesuíta Willian Barry escreveu: “Ninguém mais pode fazer no mundo de Deus o que sou chamado a fazer em meu pedacinho. Deus depende de cada um de nós para realizar o pleno florescimento dos novos céus e da nova terra que Jesus inaugurou”3. Viver o evangelho de Jesus é assumir concretamente a tarefa de fazer, em nosso pedacinho de chão, a missão que temos de fazer. Somos capazes de mudar o mundo e nos mudar, o que é ainda mais importante. “O ser humano é capaz de mudar o mundo para melhor, se possível, e de mudar a si mesmo para melhor, se necessário”4 À luz do evangelho de Jesus, essa mudança é possível. O evangelho é um alfabeto a ser aprendido e vivido.
Charles de Foucauld, místico do século XX, dizia que devemos “gritar o Evangelho com a pró-pria vida”. Desse modo, ao aprendermos o alfabeto de Jesus e do evangelho, devemos anunciar a Palavra de Jesus através de nossa vida, não só através de nossas palavras, mas principalmente, com nossas atitudes. A nossa vida será um evangelho vivo.
Toda nossa existência, todo nosso ser deve gritar o Evangelho de cima dos telhados. Toda a nossa pessoa deve respirar Jesus, todos os nossos atos, toda a nossa vida deve gritar que somos de Jesus, devem apresentar uma imagem da vida evangélica. Todo o nosso ser deve ser uma pregação viva, um reflexo de Jesus, um perfume de Jesus, algo que proclame Jesus, que faça ver Jesus, que brilhe como ícone dele5.
Ser um evangelho vivo, proclamar o Evangelho através de nossos atos e de nossas palavras, ser reflexo da vida de Jesus, exalar o perfume de Cristo, eis nossos maiores desafios como discípulas e discípulos de Jesus.
É atribuída a São Francisco de Assis a seguinte expressão: “Presta atenção na tua vida, pois, tu podes ser o único evangelho que muitas pessoas irão ler”. Independentemente, de Francisco ter dito isso ou não, sabemos que a vida dele foi verdadeiramente um evangelho vivo. E podemos também fazer de nossa vida um evangelho vivo.
Recentemente, escutei de um frade franciscano a seguinte história acerca do Pobrezinho de Assis. No leito de sua morte, Francisco teria dito: “Vamos começar de novo, irmãos! Pois até agora, muito pouco ou quase nada fizemos”. Portanto, vamos começar de novo, a cada dia, e aprender a viver como Jesus viveu e, assim, redescobrir nele o sentido de nossa vida.
1 FUNDAÇÃO CHIARA BADANO. O sorriso que venceu a dor: a trajetó¬ria de Chiara Luce Badano. Tradução de Gustavo Monteiro. Vargem Grande Paulista: Cidade Nova, 2023. p. 25.
2 Idem.
3 BARRY, William A. Mudar o coração, transformar o mundo: a liber¬dade transformadora da amizade com Deus. Tradução de Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Loyola, 2016. p. 37.
4 FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. 58. ed. Petrópolis: Vozes, 2023. p. 153.
5 DAMIAN, Edson T. Espiritualidade para nosso tempo com Carlos de Foucauld. São Paulo: Paulinas, 2007. p. 53-54.
Colaborou: Fique Firme
Deixe um comentário