Não tenhais medo, o Reino de Deus está no meio de nós! | Reflexão sobre Mt 1,18-24

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Estamos no último Domingo do Advento. Já temos a solenidade do Natal às portas. Nossos corações sentem o ardor da alegria em celebrar a vinda de nosso Salvador, Jesus Cristo.

No esquema da liturgia que se divide em três anos, estamos no Ano A, no qual o Evangelho de São Mateus é mais presente e nos guia durante o Ano Litúrgico. Ao comentar o sentido do nascimento de Jesus, Mateus cita o profeta Isaías: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está conosco” (Is 7,14). Desta forma, o evangelista aponta para todo o Mistério da pessoa de Jesus. Nele, o Deus que habitava a eternidade, vai se tornar próximo de nós, morando em nosso meio, participando de nossas vidas, nossas aspirações, lutas e realizações. Este é o eixo central do texto evangélico que nos ilumina neste 4º Domingo do Advento.

Contextualizando

Mt 1,18-24 nos coloca como que em um prelúdio da vida de Jesus. Antes, em Mt 1,1-17 (Evangelho da Liturgia de 17 de dezembro), o evangelista nos apresenta um prólogo, pelo qual a história de Jesus nos é apresentada como que uma continuidade da história da salvação. Isto justifica a genealogia apresentada nos primeiros versículos do capítulo 1 de Mateus. Se os primeiros versículos (Mt 1,1-17) nos apresentam um prólogo, no sentido mais prosaico do relato mateano, os versículos seguintes (Mt 1,18-24) podem ser definidos como um prelúdio, imagem musical que nos evoca o sentido mais profundo da narrativa. É especialmente bela a forma com a qual o mensageiro de Deus se revela a São José, esposo prometido à Virgem Maria, no que se refere ao menino que está por vir: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo.  Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,20b-21). Vamos aprofundar um pouco esta perícope do Evangelho de Mateus?

Aprofundando

Depois de contar a história do Povo de Deus através de uma lista (genealogia), o evangelista aprofunda o Mistério, relatando um pouco sobre a origem de Jesus (Mt 1,18-25). Não se trata de uma crônica biográfica, uma historiografia. Trata-se de um relato do Mistério que cerca não só a vida de Jesus, mas a vida de toda a humanidade. É por isso que, ao falar do anúncio feito a José sobre Jesus e sua missão, insere a espera do povo por este menino, o Messias profetizado por Isaías (cf. Is 7,14). Mateus revela neste relato que o tempo da espera chegou ao fim.

Neste intento narrativo, Mateus nos deixa claro que Jesus não é apenas filho da história humana. Ele é o Filho de Deus. Sua mãe é humana, seu Pai é divino. “(…) não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo” (Mt 1,20b). Nele se resume o Mistério que é a vida. Deus tem a iniciativa, porque ele é a Vida Plena, geradora de todas as vidas. Maria, representante da humanidade que recebe a vida de Deus, em sua virgindade concebe a vida de Jesus de modo inteiramente inesperado. É o Espírito de Deus que nela, e em nós, produz vida nova. Assim, o nascimento de Jesus, resposta de Deus aos anseios da humanidade, começa a nos ensinar que a Vida é fruto da iniciativa de Deus em contato com nossa atitude aberta e receptiva, tal qual a atitude da virgem de Nazaré, Maria.

Diante do inesperado, José estranha. Maria concebe, por uma gravidez virginal, o Filho de Deus. A lógica humana contraria tais expectativas. A intervenção do anjo esclarece o sentido profundo do plano de Deus mostrado nas Escrituras (Is 7,14): Deus intervém na história humana a partir dos marginalizados e dos que têm a vida ameaçada. Abre os olhos para sensibilizá-los às necessidades dos outros. Por isso José se converte à justiça que supera o que está escrito na Lei, tornando possível o nascimento do Messias. Jesus é a novidade de Deus entrando na história da humanidade. Assim como aconteceu com José, toda a humanidade pode estranhar e não compreender a criatividade dos planos divinos. E por isso José pode ter se sentido traído, imaginando algo de errado na gravidez de sua Bem-amada. Todavia, faz-se imperativo sublinhar que – mesmo diante de uma possível decepção – José, o justo, não pensa em denunciá-la. Prefere abandoná-la em segredo, pois a pena para o adultério era a morte (cf. Lv 20,10; Dt 22,22-24). Este particular na história do nascimento de Jesus pode nos apontar uma significativa lição. Às vezes estamos tão longes de Deus, e o desconhecemos tanto, que quando ele entra em nossas vidas, pensamos em fugir. Porém, assim como aconteceu com José, vencida a insegurança e o medo; começamos a compreender o Mistério: é Deus quem está se encarnando para nos salvar, libertando-nos de todos os obstáculos que impedem nossa liberdade e vida, isto é, que nos impedem de sermos aquilo que Deus projetou para nós desde toda a eternidade. Ele nos criou para ser à sua imagem e semelhança, portanto, nos é destinada a vida plena (cf. Gn 1,26-27).

Quando Mateus inicia seu Evangelho com uma genealogia, um resumo da história, faz memória das aspirações e dores de toda a humanidade. Jesus como o fim desta lista genealógica, significa a plenitude do tempo, o Emanuel, o Deus conosco, que vai nos ensinar o projeto de seu Pai para que sejamos todos livres e vivamos plenamente, a fim de nos tornarmos o que Deus desejava desde o princípio. Até mesmo o nome deste menino, o Messias esperado, vem corroborar sua missão: Jesus significa “Deus salva”. Contudo, do que e para o que Jesus vai nos salvar? É aqui que, mais uma vez, se justifica a genealogia presente em Mt 1,1-17. Por mais que Deus tenha sonhado vida plena para todos, a história da humanidade antes de Jesus nos aponta muitos conflitos, cativeiros, exílio, em suma, sofrimentos muitos. Nossa atual história também revela uma multidão de sofrimentos. E aqui também se justifica o que o anjo diz: “Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21). O sofrimento da humanidade de ontem e hoje é resultado do pecado. As injustiças, as explorações, a marginalização dos pequeninos, as muitas formas de intolerância, as muitas violações de Direitos Humanos; são obras de pessoas que estão vazias de Deus. Jesus vem sinalizar o amor incondicional de seu Pai, que sempre se coloca ao lado dos sofredores – enquanto Deus-conosco – e ressignifica a história da humanidade, dando-a um sentido maior: em Jesus seremos, todos e todas, filhos e filhas de Deus. Enquanto filhos e filhas dele, é imprescindível o fim de todo o sofrimento. Por isso precisamos caminhar, lutando contra todas as formas de ameaça à dignidade humana, possibilitando a vida plena. E Jesus inaugura este caminhar. Seu Evangelho é caminho de verdade, libertação e vida.

Atualizando

Assim como nos tempos de Jesus e da comunidade mateana, em nosso tempo muitas formas de opressão se levantam, ameaçando a dignidade e a vida de toda humanidade. Tal qual o Império Romano que ameaçava a Palestina com sua ganância e sede de poder, impérios de morte se levantam no meio de nós. São as muitas iniciativas, pelas quais, ricos ficam cada vez mais ricos, tornando os pobres cada vez mais pobres. Como se não bastassem estas injustiças impostas pelo latifúndio e pelo comércio (obcecados pela ambição), aqueles que deveriam nos defender, promovendo leis que promovam a vida, vendem suas consciências a estes mesmos opressores; fazendo do legislativo um covil de lobos, prontos a devorar os pobres. Assim como profetizara Isaías, pedindo que os céus derramassem justiça, clamamos nós por um futuro mais justo. Mesmo parecendo impossível um tempo de justiça e paz, a Santíssima Virgem Maria e São José nos inspiram a crer no impossível. Precisamos, inspirados no Evangelho de Jesus, fazer de nossa Terra – a Casa Comum – lugar de uma sociedade mais justa e fraterna. Jesus, aquele que vem nos salvar, é sinal de esperança e força em nosso caminhar. Que nossas comunidades eclesiais sejam sementeiras – nas quais – se cultive a justiça e o direito, pela solidariedade e partilha. Que o Reino de Deus se torne possível já aqui, em nosso meio, em nosso tempo!


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