Por Pe. Hermes A. Fernandes
Das Liturgias Natalinas, a que mais me impressiona é a Missa da Aurora, tendo como perspectiva Jesus, Nova Luz para todos os Povos. Nesta Liturgia, o Evangelho de Lucas nos informa que os pobres testemunham o tempo da Salvação e agradecem a vinda do Salvador. Ao contrário do que nutria como expectativa a lógica dos poderosos, não é na realidade palaciana que o Messias se revela, e vem a nascer. É junto dos pobres que ele se faz revelar, partilhando de sua pobreza, na indigência da manjedoura, pois – para o Rei dos reis – sequer houve lugar em uma hospedaria. O Messias esperado nasce sem abrigo, sem teto, partilhando na sua vida, a vida dos pobres de seu tempo e do nosso.
Pensando na clara escolha de Jesus em nascer junto aos pobres, partilhando de suas realidades, precisamos revisitar a história de seu tempo, para compreender qual o real sentido deste singular nascimento do Redentor.
Ao longo da história, e ainda hoje, não são raros os momentos em que percebemos a imagem de Jesus sendo confundida com os arroubos por poder e glória. Aquele que despiu-se de toda forma de privilégios humanos, nascendo entre os pobres e com eles vivendo até o último dia, para agregar a si todos e todas que a sociedade de seu tempo negava o mínimo para a sobrevivência; não pode ser visto como um rei segundo a lógica do imperialismo. Ao contrário, Jesus nos apresenta uma imagem de seu Paizinho amoroso, confirmada em sua vida, que nos aproxima de uma realidade de equidade entre suas pessoas divinas e nossa pessoa humana. É aproximando-se radicalmente da humanidade que Jesus nos aponta soluções para doenças que afligem os relacionamentos humanos desde os tempos bíblicos.
Desde os tempos do Exílio da Babilônia (de 586 a 538 a.C.), os profetas anunciavam a vinda de um messias justo, que iria restaurar a dignidade de seu povo. A princípio pensava-se em um messias que restaurasse a glória da dinastia davídica. Todavia, o messias galileu revelou a ousadia suprema dos planos de Deus, restaurando a dignidade de toda humanidade, dando-a – em seu Filho – a perspectiva da Vida Plena. É entre os vulneráveis que tudo isso se realiza. Jesus nasce entre os pobres, sendo reconhecido por eles, partilhando de suas angústias e dores: “Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura” (Lc 2,16).
No nascimento de Jesus, se inicia o processo de libertação na história, e por isso realiza-se a nova história: a história dos pobres e oprimidos que são libertos para usufruírem a vida dentro de novas relações entre os homens. O programa da ação libertadora de Jesus é apresentado no seu discurso na sinagoga de Nazaré (Lc 4,16-22). Por essa razão, o caminho provoca confronto, choque com aqueles que julgam a história como já realizada e querem manter o sistema organizado. Tal sistema, porém, mostra apenas a história tal como é contada pelos ricos e poderosos, que exploram e oprimem o povo, reduzindo-o à miséria e fraqueza. O caminho de Jesus força a revisão dessa história, e começa a contar a história que deve ser construída pelos pobres (Lc 1,46-55; 1,67-79). Desse modo, surge entre os homens o caminho da salvação, que é o caminho da paz (Lc 1,79).
O Evangelho da Liturgia (Lc 2,15-20) nos informa que os anjos revelaram o nascimento do Messias esperado. Estes anjos não se dirigiram ao palácio de Herodes, ou ao Pretorium, onde se assentava o governador romano. Ao contrário, revelam o nascimento de Jesus a pastores, classe de trabalhadores muito marginalizada naquele tempo. Os pastores recebem a Boa Noticia dos anjos e vão verificar o acontecimento. O texto lucano nos informa que estes pastores vão “às pressas a Belém” (Lc 2,16). Ao usar propositalmente a palavra pressa, o evangelista aponta para a urgência da situação dos pobres. Assim, importa que nos atentemos um pouco sobre a dinâmica das ações dos pastores. Eles vão às pressas até Belém, pois a situação de sofrimento dos pobres demanda urgência. Vendo Maria, José e o Menino; saem prontamente a anunciar que o tempo da promessa chegou, nasceu o Salvador (cf. Lc 2,17). Isto pode sinalizar muito para nossas comunidades eclesiais. Uma vez que se compreende o Evangelho, deve se sair do lugar de conforto e ir às gentes, anunciando o Reino de Deus. Os pastores poderiam ter ficado ali, deslumbrados diante da esperança encarnada naquele recém nascido. Ao contrário, após confirmar o anúncio dos anjos, contam a experiência a todos. Todos quem? Certamente, todos aqueles e aquelas que acreditavam nas promessas proféticas e agora acreditam na boa notícia de sua realização. São os pobres que fazem circular a notícia, partilhando a esperança.
E não podemos nos esquecer de sublinhar a atitude de Maria, Mãe de Jesus: “guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,19). Aqui a Mãe de Jesus nos aponta uma crucial necessidade: observar os fatos, para descobrir os caminhos de Deus. Essa deve ser a atitude de nossas comunidades eclesiais: observar como Deus age, descobrir o sentido, e agir do mesmo modo. Toda ação missionária demanda discernimento e maturidade! Só assim nossas comunidades poderão, como os pastores, glorificar e louvar a Deus por tudo que viu e ouviu (cf. Lc,2,2). É crer sempre com maturidade e pés no chão!
Lc 2,15-20 nos aponta dois caminhos, e nos introduz na missão. Primeiramente, devemos entender o contexto sociológico em que nasceu Jesus. Aquilo que parece adendo à narrativa, é de profundo significado. O fato de Jesus nascer em situação de indigência (cf. Lc 2,7), aponta que ele será o Messias dos pobres e – em sua vida – partilhará de suas dores. Contudo, em segundo lugar, vale lembrar que todos aqueles e aquelas que entenderam a Palavra e a Ação de Jesus, participam de sua missão. Os pastores e a dinâmica de seus atos nos apontam isso. Eles receberam a revelação dos anjos de que o Salvador havia nascido. Não guardaram essa alegria para si. Após testemunhar que o tempo da promessa chegou, saem a anunciar esta boa notícia para todos. Estes pastores prefiguram a Igreja, anunciadora de Jesus e seu Mistério. Por fim, a prudência de Maria, que guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração, deve ser nossa disposição cotidiana. Precisamos ser missionários como os pastores, mas contemplativos como a Mãezinha de Jesus. Meditar em nossos corações, significa a prudência necessária de se aprofundar – a cada dia – nosso conhecimento da Palavra de Deus. Não podemos ser meramente espalhadores de uma Boa Noticia! Há que se compreendê-la em profundidade. O que nos faz concluir que Maria nos exorta a entender que os anunciadores e as anunciadoras do Evangelho estão em constante caminho de aprofundar o conhecimento deste Evangelho. É preciso estar em constante formação! Precisamos ser evangelizadores cheios de ardor e dispostos à missão, mas com os pés no chão. Cientes de que o caminheiro se constrói na caminhada. Ninguém está pronto.
Que a celebração do Natal do Senhor restaure em nós a esperança por um mundo melhor, mais justo e solidário. Que possamos estar sempre em comunhão com a vontade de Deus e seu projeto de Vida Plena, assim como aquela família de Nazaré que acolheu a Jesus e, por ele, o Reino de Deus.
Feliz Natal!
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