Sagrada Família de Jesus, Maria e José
IV Dia da Oitava do Natal, Ano A
Por Pe. Hermes A. Fernandes
O Evangelho de Mateus dedica uma substancial parte de sua narrativa inicial à infância de Jesus. É claro que a Comunidade Mateana não pretende alçar voo no desafio biográfico. Nem mesmo pretende com essa narrativa dar respostas a alguma vocação jornalística. As narrativas da infância de Jesus não pretendem ser biográfico-históricas. Enamoram-se do estilo midraxe, tencionando a Catequese.
Entre os relatos sobre a infância do Messias Jesus, o que mais nos impressiona é o desterro. A fuga da Família de Nazaré para o Egito. Como que se Iahweh desejasse acertar contas históricas. O Egito, mesmo reino/território que foi ferido pela opção do Senhor pelos excluídos e marginalizados, isto é, o Povo Hebreu – agora, no relato mateano, acolhe o Emanuel – Deus conosco – na condição de refugiado, face à perseguição de Herodes.
Quando do nascimento de Jesus, os magos foram até Herodes, desejando saber onde se encontrava o rei dos judeus recém nascido (cf. Mt 2,1-12). Inspirado por uma ardilosa conspiração, o rei ilegítimo e perverso pede que os magos vão até o Menino e, em seguida, o informasse. Claro que Herodes não pretendia render homenagem a Jesus! Desejava matá-lo. Todavia, os magos avisados do perigo, voltam às suas terras por outro caminho.
Herodes ficou furioso por ter sido enganado pelos magos. O nascimento desse menino poria em risco a situação vigente. Os acordos entre ele e o Império Romano no projeto de colonização opressora do Povo Judeu. Israel, mais uma vez, estava cativa sob as garras de opressores. Quando os poderes de morte se sentem ameaçados, recorrem à violência insana, no desesperado esforço de se restaurar a ordem estabelecida. Aqui vale sublinhar que tal ordem consistia no sistema de exploração dos povos subjugados pelas armas romanas. Por isso, Herodes ordena que sejam assassinados todos os meninos com idade compatível ao Messias Jesus. E um rio de sangue fora derramado em Belém e arredores. Crianças com idade inferior a dois anos foram trucidadas, sem piedade.
Através de uma leitura paralela com o Primeiro Testamento, podemos verificar que o mesmo aconteceu no Egito, mil e duzentos anos antes. Também o Faraó mandou executar os meninos neonatos, no desejo de se evitar que o Povo Hebreu se tornasse mais numeroso, ameaçando o poder opressor (cf. Ex 1). Em meio à perseguição e morte, pela esperteza de sua mãe – às vezes a única salvação dos fracos – Moisés é salvo (cf. Ex 2,1-10). Jesus, o semeador da Justiça do Reino, também escapou da morte. Porém, não podemos esquecer das muitas mães que perderam seus filhos, assassinados por ordem de Herodes. Para relatar este sofrimento, o texto mateano cita o Profeta Jeremias: “Ouve-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada, porque eles não existem mais.” (Mt 2,18; Jr 31,15). Iahweh não deixa tal lamento sem resposta. Em Jesus, ele oferece o Reino a ser construído comunitariamente na prática da Justiça baseada no amor e na misericórdia. Mas essa semente precisa de proteção para brotar e crescer, pois ainda se encontra em seu germinar. Aqui se sublinha o papel de José, esposo de Maria, Mãe de Jesus. Como um Go’el, incansável protetor, não titubeia ao empreender fuga. Torna-se refugiado nas terras do Egito. Tem seus sentidos atentos aos sinais de Iahweh, na luta por proteger o Salvador-Menino. Jesus, que ressignificaria a vida de toda humanidade, recebe o cuidado paterno – mesmo que por adoção – do humano e justo José. Como muito nos ilumina a sabedoria do saudoso biblista Pe. Luís Alonso Schökel [1], na qual podemos constatar que José tem ouvidos e coração atentos ao chamado de protetor doméstico e transcendente de Jesus. Tudo faz, sem medida de esforços, para que a vida do menino seja preservada e, assim, o sonho de Deus – seu Reino de Justiça, amor e misericórdia – se torne uma realidade. Schökel ainda nos lembra que Mateus, para dar caráter solene e oportuno reconhecimento aos esforços de José, usa de díptico paralelo com o Primeiro Testamento, parafraseando o profeta Oséias. O texto de Os 11,1 é adaptado oportunamente no episódio do desterro da Família de Nazaré, como que se Jesus refizesse o caminho de seu povo, participando – em todos os sentidos – de sua história. Com isso, Jesus se faz o Novo Moisés, a comunidade de Jesus será o Novo Povo de Deus e o Reino, o Novo Êxodo. Caminho de resgate e ressignificação da história humana, rumo a relações mais fraternas e justas.
Como podemos observar, Mateus cita constantemente o Primeiro Testamento. Deseja mostrar que, em Jesus, as escrituras se cumprem. Nele, a História da Salvação se cumpre em plenitude. Storniolo [2] nos diz em seu comentário sobre o Evangelho de Mateus, que
“Jesus não só nasceu na e da história do seu povo. Também vai provocar uma grande transformação nessa história. Isso já havia acontecido no passado com o Êxodo (= saída) do Egito, terra da escravidão e morte, para a Terra Prometida, lugar da liberdade e vida. (…) Assim como o Povo de Deus do Antigo Testamento nasce da Libertação, o Novo Povo de Deus, que nasce do compromisso com Jesus, tem a libertação como ponto de partida de seu nascimento. Só existe Povo quando há liberdade. Do contrário, o que se tem é massa anônima de escravos.” (STORNIOLO: 1991, p. 30)
Portanto, a ação de Jesus e a fé que a comunidade deposita na pessoa dele, estão em continuidade com a história de Israel. O Evangelho mateano busca nas profecias a confirmação para a autoridade de Jesus e, ao mesmo tempo, apoio para a fé e a vida de suas comunidades.
As comunidades mateanas querem deixar claro que Jesus é Filho de Abraão, Filho de Davi, o Novo Moisés. É sob esta ótica e com esta chave de leitura que devemos trazer para nossas comunidades os relatos da infância de Jesus. Sobretudo Mt 2,13-23, texto sobre o qual nos debruçamos em estudo agora. Nesta perspectiva, compreendemos que ele é o Messias prometido que veio para todos, especialmente para os rejeitados pelo sistema político, econômico, social e religioso de seu tempo. Os líderes do judaísmo formativo nos tempos das comunidades mateanas rejeitam o anúncio do Reino e – mesmo antes – rejeitaram a Jesus, por não corresponder às expectativas triunfalistas da religião. As diferentes reações diante da chegada de Jesus, nos relatos de sua infância, são apresentadas por Mateus como ilustração da oposição sofrida pelas comunidades de Mateus a partir do ano 70 d.C. Aqui vale sublinhar a singularidade na narrativa da visita dos magos ao Menino. Enquanto os peritos da Lei recusam o verdadeiro Rei e as elites o procuram para matá-lo, os que não conheciam a fé – os gentios – procuram-no, acolhem-no e lhe oferecem presentes. Também é na terra dos antigos opressores que o Messias neonato encontrará refúgio, quando da perseguição de Herodes. Em Jesus se repete a história, sob a perspectiva da Libertação. E de uma liberdade plena.
Ainda como paralelo, podemos nos lembrar que na tradição dos Evangelhos Apócrifos se conservou mais de uma dezena de lugares que recordam a passagem da Família de Nazaré pelo Egito. Este oportuno tema pode ser aprofundado com a leitura da obra de Frei Jacir de Freitas Faria, OFM; sob o título: “A Infância Apócrifa do Menino Jesus” [3].
Jesus é Filho de Deus e da História Humana. Ele é a síntese do Mistério da Vida, onde Deus toma a iniciativa de oferecer vida e a humanidade, na pessoa de Maria, acolhe esta vida. O Espírito de Deus produz vida, quando há receptividade e abertura. Na pessoa de José nos deparamos com o símbolo de compromisso com o Reino, mesmo que – com isso – precisemos confrontar perigos para nossa vida.
Como Deus tem se manifestado na vida de nosso povo? Quais os sinais de acolhida e resistência a estas manifestações?
Em nosso tempo, a história se faz povo, assim como em Jesus, o Reino se fez história. O Evangelho de Mateus, pelas narrativas da infância de Jesus, nos apresenta a necessidade de compreender os sinais do Reino de Deus em nosso meio. Assim como a Família de Nazaré se manteve sensível e aberta ao projeto de Iahweh, devemos nos colocar à disposição dos projetos do Reino de Deus. Mesmo que, para isso, precisemos viver em constante desterro, em Novo Êxodo, rumo à Civilização do Amor.
Notas
[1] Schökel, Luís Alonso. Notas de rodapé. In: Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 2018, p. 2005.
[2] STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Mateus: O Caminho da Justiça. 1ª Ed. São Paulo: Paulus, 1991.
[3] FARIA, Frei Jacir de Freitas. A infância apócrifa do Menino Jesus: Histórias de ternura e travessuras. Petrópolis: Vozes, 2010.
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