São João, evangelista e apóstolo: sua história de fidelidade a Jesus! (Jo 20,2-8) | Reflexão com Frei Jacir de Freitas Faria, OFM



Por Frei Jacir de Freitas Faria[1]



O texto sobre o qual vamos refletir hoje é Jo 20,2-8. Trata-se da ida de Maria Madalena ao túmulo, mas não encontra o corpo de Jesus. No entanto, visto que hoje fazemos a memória de São João Evangelista, gostaria, primeiramente, de fazer algumas considerações sobre esse homem, um dos mais importantes apóstolos de Jesus. A tradição cristã se encarregou de lhe dar um destaque especial. João, nome que, em hebraico, Yohanan, significa “ternura de Deus” ou “Deus de misericórdia”, foi considerado apóstolo, evangelista, discípulo amado de Jesus e escritor. A João é atribuída a autoria do evangelho que leva o seu nome, de três epístolas e de um apocalipse.


Mesmo que a pesquisa atual coloque em xeque a afirmação de que ele era o discípulo amado, bem como a autoria dos livros acima citados, o apóstolo João se firmou como liderança importantíssima da primeira hora do cristianismo. João era irmão de Tiago Maior e, portanto, filho de Zebedeu e Salomé.


O evangelho de João apresenta Jesus de forma diferenciada dos demais. Jesus faz discursos, entra em confronto direto com o templo de Jesus, sete vezes usa a expressão “Eu sou” de Deus para referir-se a ele próprio. Em sete festas, Ele se revela. O evangelho de João é polêmico por causa de sua ligação e uso pelos gnósticos, grupo de oposição ao cristianismo que se tornou hegemônico, o apostólico. Até o ano de 270 E.C., a Igreja ainda tinha dúvidas se deveria considerar ou não inspirado o evangelho de João e o Apocalipse.


Segundo a tradição conservada na Bíblia Apócrifa, diferentemente dos outros apóstolos, João morreu sem sofrer o martírio. A tradição apócrifa conservou a memória de que ele pediu para ser enterrado vivo. Ele próprio, aos 97 anos, pediu que o seu próprio túmulo fosse cavado, em Éfeso, atual Turquia. Ali se deitou, ainda vivo, e pediu para que fosse enterrado. Antes, porém, ele declarou sua dedicação e adesão a Jesus, não contraindo matrimônio. João se recorda das palavras que Jesus lhe disse: “João, se não fosses meu, eu te permitiria tomar mulher”. Conta-se que de seu sepulcro surgiu maná.


Voltemos ao texto que também inspira a nossa reflexão, Jo 20,2-8. No primeiro dia da semana, isto é, domingo, ainda na escuridão da noite, Maria Madalena, que nunca foi prostituta, vai ao túmulo, como era o costume das mulheres judias, e não encontra o corpo de Jesus. Ela queria apenas derramar lágrimas para o amor de sua vida que tinha morrido. Para a tradição joanina, ela não foi ao local para embalsamar o corpo de Jesus, pois Nicodemos já o havia feito. Um detalhe, ela vê a pedra removida e não entra, mas volta para avisar aos apóstolos. Outro detalhe: dois e não três apóstolos, Pedro e João, correm para ver o que tinha acontecido. João chega primeiro, mas não entra. Terceiro detalhe: Pedro entra primeiro para averiguar o ocorrido. Ele vê os panos e lenço da cabeça em ordem, o que significa que o corpo não tinha sido roubado. Nasce, nesse momento, a fé na ressurreição, confirmada pelo Discípulo amado, que viu e acreditou.


Como interpretar esses detalhes na narrativa? Primeiro, o testemunho de uma mulher não era crível. Eram necessários dois homens. Segundo, Pedro era considerado o cabeça do grupo dos apóstolos, por isso, teria que comprovar, por primeiro, a situação. Terceiro, o evangelho de João termina com o capítulo vinte. Na sequência, ainda no túmulo vazio, Jesus aparece para Maria Madalena e para os apóstolos, os quais estavam fechados em uma sala, com medo. Isso quer dizer que evangelho de João não poderia terminar falando de Jesus e uma mulher. Não soa bem! Por isso, outros redatores acrescentaram o capítulo vinte e um, no qual fala de uma nova aparição de Jesus para os discípulos no lago de Tiberíades, confirmando a liderança de Pedro e a importância de João como discípulo amado, de quem, Jesus também diz que não morreria até a sua volta, o que é confirmado por Atos apócrifos de João, quando relata que João morreu em idade avançada.

Que a fé de João Evangelista ilumine nossa caminhada rumo a uma nova vida em Deus. Paz e bem!


[1] [1]Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (PIB). Professor de Exegese Bíblica há três décadas. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Professor de exegese bíblica EaD e no Seminário Sagrado Coração de Jesus. Referência no Brasil na pesquisa da literatura apócrifa do Segundo Testamento. Autor de treze livros e coautor de dezessete. Oferece curso on-line sobre a Bíblia Apócrifa. Disponível em: www.bibliaapocrifa.com  Última publicação: Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento. Canal no Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ  No Instagram e Tiktok @freijacir


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Frei Jacir de Freitas Faria: Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de doze livros e coautor de dezesseis. Publicou recentemente Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento sobre a infância de Jesus, Maria, José, Pilatos, apocalipses, cartas, atos etc.


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