Por Pe. Hermes A. Fernandes
Neste Domingo, dia 04 de janeiro, celebramos a Solenidade da Epifania do Senhor. A palavra Epifania vem do latim epiphania, que faz uma releitura do termo em grego ἐπιϕάνεια, de ἐπιϕανής, que pode nos significar “visível”, pois deriva de ἐπιϕαίνομαι, “aparecer”, ou mesmo, manifestar. Teologicamente, Epifania significa Deus que se manifesta em seu Filho Jesus.
A liturgia nos convida a contemplar o Evangelho de Mateus (Mt 2,1-12). As narrativas sobre a infância de Jesus não são biográficas. Elas nasceram das reflexões das primeiras comunidades cristãs, que procuravam compreender todo o significado da vida e ação de Jesus. É o caso da perícope de Mt 2,1-12. Mateus se serviu da reflexão das primeiras comunidades para mostrar que Jesus é o verdadeiro rei do Povo de Deus. A perícope também nos mostra que a sua vinda é ameaça para uns e salvação para muitos. Os poderosos se sentem ameaçados, como Herodes; mas o povo – tanto da palestina, como dos países estrangeiros – se alegra com Jesus, vendo nele o rei justo e salvador que fora profetizado por Isaías e outros profetas.
Antes de prosseguirmos em nossa reflexão, lembremo-nos que o povo esperava um libertador por cerca de mil anos. E que este iria libertar o povo dos opressores. Que opressores eram estes que se configuram no contexto do nascimento de Jesus? Vejamos!
O povo havia sofrido uma série de ameaças à liberdade e à dignidade humana após o fim da dinastia davídico-salomônica. No século VIII a.C., Teglat-Falasar III, imperador e hábil militar assírio, inicia um longo período de ocupação e dominação da Palestina. A capital de Israel, Samaria, foi conquistada por volta de 722 a.C. Sua população foi deportada para outras partes do império assírio. Samaria e redondezas foram ocupadas por povos estrangeiros, cerceando assim qualquer possibilidade de resistência.
No século VI, a Babilônia inicia seu projeto de domínio da Palestina. O Exílio da Babilônia durou aproximadamente 50 anos, de 586 a.C. a 538 a.C., quando o rei persa Ciro libertou os judeus, permitindo que retornassem à Jerusalém e reconstruíssem o Templo. Mesmo que muitos acreditassem que o rei persa foi uma espécie de instrumento de Iahweh para libertar o povo de seu sofrimento no tempo do exílio, o que se viu foi bem diferente. Saindo do domínio babilônico, passou às mãos opressoras persas. O domínio persa sobre a Palestina durou cerca de 200 anos, começando em 539/538 a.C. com a conquista da Babilônia por Ciro e terminando por volta de 333/332 a.C., quando Alexandre, o Grande, derrotou os persas, marcando o início do período helênico. A ocupação persa foi um período crucial para o judaísmo, caracterizado pelo retorno dos exilados, reconstrução do Templo e consolidação das tradições religiosas, com os persas permitindo relativa autonomia religiosa e cultural.
Logo após a ocupação persa, o Povo de Deus cai nas mãos do domínio helênico, conforme dito anteriormente. O tempo da ocupação helênica é de suma importância para entender a história do Povo de Deus até Jesus. Estendeu-se aproximadamente de 332 a.C. a 165 a.C. Esse período teve início com a conquista da região por Alexandre, o Grande, e foi seguido pelo domínio de dinastias helenísticas, inicialmente os Ptolomeus e depois os Selêucidas, até a Revolta dos Macabeus. Foi o período anterior à ocupação romana, e deixou grande riqueza de relatos no Primeiro Testamento que se faz importante para a compreensão dos Evangelhos e da história das primeiras comunidades cristãs.
Por fim, temos o tempo da ocupação do Império Romano na Palestina. Desde os tempos do Exílio da Babilônia (de 586 a 538 a.C.), os profetas anunciavam a vinda de um messias justo, que iria restaurar a dignidade de seu povo. A princípio pensava-se em um messias que restaurasse a glória da dinastia davídica, todavia o messias galileu revelou a ousadia suprema dos planos de Deus, restaurando a dignidade de toda humanidade. Para resgatar a esperança em tempos de sofrimento pela ocupação romana, a comunidade de Mateus escreve seu Evangelho, resgatando o esperançar que brotava no coração do povo, desde os tempos do Segundo Isaías.
Como dissemos na premissa inicial de nossa contextualização, assim como no tempo do Exílio da Babilônia, nos tempos de Jesus fazia-se imperativo restaurar a esperança. Por este motivo, a comunidade mateana reúne as memórias das palavras e ações de Jesus, organizando-as em um texto que deve sempre ser entendido a partir da perspectiva em que viviam estes seguidores e seguidoras de Jesus. Em 70 d.C. o Império Romano invadiu a Palestina, que já era sua colônia e lhe pagava tributos. Sufocou o movimento judaico revolucionário, tomou Jerusalém e destruiu o Templo. Os judeus tiveram que se dispersar e se reorganizar. As comunidades cristãs, que viviam nas imediações de Jerusalém, já haviam se dispersado. Algumas foram para Pela, no lado oriental do Rio Jordão, outras se espalharam pela Síria e Fenícia. De forma especial, se refugiaram junto à comunidade de Antioquia, na Síria. E foi em Antioquia, por volta do ano 80 d.C., que Mateus escreveu seu Evangelho para essas comunidades que haviam nascido nos recôncavos da Palestina. Diante destas referências históricas, se explicam as preocupações de Mateus e sua comunidade. Ele é um judeu convertido aos ensinamentos de Jesus e se dirige ao mesmo tipo de pessoas. Os destinatários primeiros de seu Evangelho são judeus que aceitaram a Palavra e a Ação de Jesus como caminho para suas vidas.
Neste sentido, a teologia mateana percorre um caminho criativo e profícuo. Primeiro quer mostrar que Jesus e sua ação realizam tudo que o Primeiro Testamento anunciava, pedia e prometia. Depois, que o cristianismo também é ruptura com a religião judaica oficial, cristalizada em formas de vivência religiosa que já estavam muito distantes do projeto de Deus revelado e realizado em Jesus. Finalmente, quer mostrar que as comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus não devem ficar fechadas em si mesmas, mas se abrir para todos e todas, levando em todos os tempos e lugares a Palavra e a Ação de Jesus que liberta para a Vida Nova.
Isto posto, compreendendo o contexto e objetivos do Evangelho de Mateus, fica-nos mais fácil entender a perícope mateana presente nesta liturgia da Solenidade da Epifania do Senhor, Mt 2,1-12.
Conforme nos apresenta o relato evangélico, o nascimento de Jesus em Belém foi anunciado por uma estrela no distante Oriente, e alguns magos, vendo esta estrela, vieram à Jerusalém em busca do rei dos judeus neonato. “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,2). Belém era a cidade onde havia nascido Davi, o rei justo. Há mil anos o povo esperava que um descendente de Davi, justo como ele, viesse para libertar o povo dos inimigos e para levá-lo a viver segundo a justiça e o direito. Segundo a sabedoria oriental, a estrela aparecia quando um personagem importante nascia: “Um astro nascido de Jacó se torna chefe; um cetro se levanta, saindo de Israel” (Nm 24,17).
Os magos chegam a Jerusalém, centro do poder político, econômico e ideológico-religioso da Palestina. E aí reina Herodes. Ele não é um rei legítimo dos judeus, pois era estrangeiro, e seu poder lhe foi instituído pelo Império Romano, por uma espécie de vassalagem. Tratava-se de um usurpador, uma espécie de testa de ferro, a serviço de seus próprios interesses e dos interesses de um poder maior, o Império Romano. Este Império reduzia o povo à miséria e promovia a escravidão.
Ao ser visitado pelos magos, que perguntam onde estaria o rei dos judeus recém-nascido, Herodes fica com medo. Não somente ele, o rei usurpador, mas todo o grupo que se beneficiava do sistema vigente que explorava e oprimia o povo simples e pobre. A tradição profética afirmava que viria um rei justo, o povo se alimentava desta esperança. O nascimento de Jesus ameaçava os privilégios e as mordomias das elites e – em contrapartida – fomentava o esperançar do povo simples e pobre.
Diante da ameaça do fim dos tempos de opressão, e com ele o fim dos privilégios dos opressores, Herodes consulta seus principais assessores: os sumos sacerdotes e os doutores da Lei. Todos estes pertencem à classe mais rica, dominavam a religião, através da qual mantinham o povo submisso. Os doutores da Lei, ou escribas, eram os intelectuais donos do saber. Neste tempo de opressão, estavam a serviço dos poderosos. Conhecendo as Sagradas Escrituras, certificam a Herodes que o Rei-Messias, descendente de Davi, iria nascer em Belém. É que esta pequena cidade, de fato periferia distante da capital Jerusalém, iria se tornar importante, porque dela sairia um chefe que se tornaria pastor do povo de Deus. Notícia perturbadora! O centro do poder (Jerusalém) se sente ameaçado pela periferia mais insignificante (Belém).
Diante da ameaça, os poderosos agem como sempre têm feito ao longo da história: “Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo” (Mt 2,8). A falsidade de Herodes é o sinal de que, ao longo da história, as elites estão dispostas a tudo, toda forma de perfídia e corrupção, para manter seus privilégios. Ele tencionava matar o menino nascido em Belém. O pedido dele aos magos é resultado do desejo de cooptá-los e os colocar a serviço de seu perverso plano. Um dos maiores perigos na relação com os poderosos é se deixar iludir por eles. Eles acham que podem comprar a tudo, a todos ludibriar. Foi assim antes, assim o é agora.
Em meio às tramas e sentimentos obscuros, havia uma luz. Se alguns ficam apavorados com Jesus e fazem de tudo para apagá-lo da história, outros se alegram porque veem nele o ressurgir da esperança, da liberdade e da vida. Esta esperança renasce toda vez que a justiça triunfa sobre a injustiça, e sempre que a liberdade e a vida triunfam sobre a escravidão e a morte. Nem que seja por um momento. O relâmpago momentâneo ilumina a noite inteira, e a lembrança é inesquecível para sempre. Assim se deu com o nascimento de Jesus.
No relato da Epifania em Mateus temos como protagonistas os três magos. Quem são eles e o que significam? Os magos que vieram de longe representam todos os povos que esperavam ardentemente pelo rei justo, pelo governante que os libertará dos inimigos e os ensinará a viver na justiça e no direito. Embora distantes da religião do Povo de Deus, os magos sabem reconhecer os sinais da chegada do Rei-Messias: a estrela. Nesta particularidade está uma orientação do Evangelho de que precisamos estar atentos aos sinais dos tempos. A estrela como sinal nos indica que precisamos estar atentos aos sinais que aparecem na história e na sociedade, apontando para aquele que fará justiça e levará o povo a uma vida melhor.
O encontro dos magos com Jesus é muito significativo. Jesus está com sua mãe, seu go’el (protetor) José e algumas pessoas do povo simples e pobre. A homenagem que lhe prestam, representa a esperança que se deposita nele. Os presentes que lhe dão, representam a submissão a ele, enquanto rei (ouro), o reconhecimento de que esse rei é divino (incenso) e o aviso de que este rei deverá ser morto por seus inimigos. Por isso, a mirra. Todavia, a morte do rei pelas mãos dos inimigos não triunfará. Será ressuscitado por Deus e reconhecido como seu Divino Filho. Neste sentido, podemos concluir que na visita dos magos se faz manifestar toda dinâmica do Mistério Pascal de Jesus. Daí o nome do que celebramos: Epifania, Manifestação!
A guisa de atualização do texto, somos convidados a estar ali, naquele cenário natalino. Enquanto seguidores e seguidoras de Jesus, somos chamados a reconhecer o Messias que nasce entre os pobres e sofredores para nos libertar de toda forma de sofrimento. Mais do que isso: devemos lhe honrar com nossos dons. Tais quais os magos, apresentemos a ele nossa vida a seu serviço. Por isso, devemos evangelizar, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao Reino definitivo.
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