“Para que se cumpra toda a Justiça” (Mt 3,15) | Reflexão para a Celebração do Batismo do Senhor – Ano A

Por Pe. Hermes A. Fernandes

“Para que se cumpra toda a justiça” (cf. Mt 3,15b). Com estas palavras podemos entender o cerne e o sentido da perícope mateana presente na Liturgia da Palavra em que Celebramos o Batismo do Senhor. Os quatro evangelhos lembram que Jesus foi batizado por João. A cena é importante, porque nela se define quem é Jesus e também o sentido de sua vida. Em Mateus encontramos neste cenário as primeiras palavras de Jesus, uma espécie de “programa” de sua vida e ação. Como a vida cristã de todos nós começa com o batismo, podemos ver nesta cena, também o sentido de nossa vida e ação, enquanto seguidores e seguidoras de Jesus. Somos batizados para ser sinal e testemunho de Jesus, cumprindo também em nossas vidas toda a Justiça.

No batismo de Jesus podemos perceber sua solidariedade com nossa vida, nossas dores e sonhos. Toda humanidade tem em si a mácula do pecado. Jesus é hipostaticamente ligado ao Pai. Portanto, sem pecado! Diante da realidade de sua natureza divina, por que seu batismo? João pregava o arrependimento e a conversão, preparando o povo para a chegada do Messias, que iria fazer o julgamento e trazer o Reino de Deus. Nas palavras de João, Jesus – o Messias – seria um juiz terrível. ‘‘Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo” (Mt 3,2) e “o machado já está posto na raiz das árvores. E toda árvore que não der bom fruto, será cortada e jogada no fogo” (Mt 3,10). Diante desta pregação, cujo conteúdo afirmava que o Messias seria um terrível divisor de águas entre o erro e a punição, o espanto de João é perceptível, quando vê Jesus chegar humildemente, como mais um candidato para o batismo de conversão, ao qual o povo estava se submetendo. O Messias Rei esperado, se solidariza com os pequeninos, suas dores, sofrimentos. O judaísmo normativo decretava a exclusão e a marginalização daqueles que eram considerados pecadores. Jesus, buscando o batismo do perdão, abraça a cada um que a religião e a sociedade desprezavam como ralé pecadora. Jesus se deixa batizar para ser sinal da misericórdia infinita de seu Pai. Por isso, diz: “é preciso que se cumpra toda a justiça” (Mt 3,15b). A Justiça do Abbá, o Paizinho de Jesus, não é o castigo ou a punição por erros cometidos. É a misericórdia, a reintegração, a ressignificação de cada vida humana.

Como dissemos no parágrafo anterior, João Batista resiste (cf. Mt 3,13-14). Não entende como o poderoso Messias se submeteria ao processo de conversão que deveria se submeter toda ralé pecadora. O Evangelho nos informa antes que João só era um Arauto do Grande Rei. Que sequer era digno de desatar suas sandálias (cf. Mt 3,11). Agora, diante de Jesus, não se considera digno de batizá-lo. Ao contrário, afirma que ele deveria ser batizado por quem havia trabalhado tanto, preparando-lhe os caminhos. Na atitude de Jesus, descobrimos a solidariedade de Deus com os homens. Deus vem até nós por seu Filho e, embora sem qualquer implicação do pecado, faz-se um de nós, sendo batizado para nos libertar do pecado e nos conduzir rumo a Reino de Deus. Descobrimos aqui a grandeza da solidariedade de Deus, cantada no antigo hino cristão: “Ele tinha a condição divina, mas não se apegou à sua igualdade com Deus. Ao contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,6-7). A trajetória de humildade e servidão deve ser nosso caminho, enquanto Igreja missionária, profética e samaritana. Devemos, tal qual o Messias, tomar sobre nossos ombros as dores da humanidade (cf. Is 53,4-5).

Como dissemos no início, podemos entender que Mt 3,15b é o ápice de nossa reflexão sobre a perícope de Mateus na Liturgia da Celebração do Batismo do Senhor. “Devemos cumprir toda a justiça!” A propósito disso, precisamos pensar: diante da resistência de João, a primeira palavra de Jesus – como que o prelúdio de toda sua ação messiânica – é Justiça. Segundo a teologia mateana, Justiça define toda a vida e missão de Jesus. Outrossim, precisamos nos perguntar: de que Justiça se trata? A Justiça é a vontade e o sonho de Deus para a humanidade desde o início dos tempos. Deus quer que todos possam usufruir de liberdade, conforme vemos no livro do Êxodo, e experimentar vida plena, conforme se nos faz apresentar o livro do Gênesis.

Liberdade é a capacidade de se descobrir, se aceitar, se amar e participar da própria história. Por isso, não há liberdade plena quando nossas origens étnicas, nossa terra, nossos sonhos e sentimentos de pertença à comunidade se fazem ameaçados. Não haverá liberdade enquanto um único ser Humano não tiver sua dignidade respeitada em plenitude.

Vida é o centro do projeto de Deus. Consiste em repartir tudo o que existe com todos. Assim, diante de muitos projetos egoístas que se fazem representar na sociedade, o sonho de Deus se faz ameaçado. Enquanto houver um único ser humano sem alimento, moradia, sem trabalho, sem direito à saúde, à educação, enquanto houver pessoas em situação de rua; o sonho de Deus não se realizou entre nós. Sua Justiça não foi cumprida, pois o bem viver de todos e todas, em uma Terra sem males, é a Justiça que Deus quer.

Importa que nos atentemos um pouco mais a Mt 3,15. Jesus usa o verbo dever no plural. “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!” Não é ele somente que deve cumprir esta Justiça. O verbo no plural quer dizer que também João deve fazer parte deste programa e, com João, todos nós que nos chamamos seguidores e seguidoras de Jesus. O que fazer? Primeiro, aprender com Jesus. Ver tudo o que ele disse e fez no Evangelho, e depois continuar em nossas vidas o que ele começou. Assim como João concordou com o desafio, devemos nós assumir a cada dia nossa missão. O Reino de Deus se constrói a cada dia. O Evangelho é anunciado a todo o tempo. Importa que cada um e cada uma de nós sejamos protagonistas nesta história.

Ao cumprir toda a Justiça de seu Pai, ressignificando a vida de toda a humanidade, o Céu se abraça à Terra em uma linda dança cósmica. Tendo Jesus se solidarizado com as dores dos pequeninos que eram excluídos e marginalizados pela religião e sociedade de seu tempo, passando pelo batismo de João, sinaliza sua futura Paixão redentora para todos e todas. Por isso, os céus se abrem em cúmplice participação nesta dança da vida entre o divino e o humano. “Então o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele. E do céu veio uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado'” (Mt 3,16-17). E aqui se inaugura a ação messiânica de Jesus, segundo o Evangelho de Mateus. Aqui se inicia o Evangelho propriamente dito.

Em nossas vidas, sejamos vivenciadores deste Evangelho a cada dia. Tal qual nos apresenta a perícope do Evangelho de Mateus que estamos a refletir, importa que estejamos comprometidos com a Justiça.  Ser discípula e discípulo de Jesus é fazer cumprir toda a Justiça. Para isso, precisamos anunciar o Evangelho, atuando de forma a acolher os vulneráveis, promovendo os Direitos Humanos e protegendo a Casa Comum. Viver o Evangelho de Jesus é defender a liberdade e a vida.

Ser seguidor e seguidora de Jesus é ser Igreja segundo nosso batismo. Para tanto, precisamos amar sempre, perdoar sempre e – dia após dia – colocarmo-nos ao lado dos pobres, nossos mestres, enquanto comunidades eclesiais missionárias, proféticas e samaritanas.


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