Com a festa do Batismo do Senhor, conclui-se oficialmente o tempo do Natal. Contudo, há estudiosos que defendem que o domingo em que se celebra esta festa já seja considerado o primeiro do Tempo Comum. O certo é que esta celebração funciona como transição entre os dois ciclos – ciclo do Natal e Tempo Comum. O evangelho desta festa varia conforme o ciclo litúrgico vigente. Como o batismo é um acontecimento narrado pelos três evangelhos sinóticos, a cada ano se lê o episódio segundo o evangelho predominante para o respectivo ano litúrgico. Neste ano, em decorrência do “ano A”, o texto proposto é Mt 3,13-17. Pelo fato de tratar-se de um dos poucos episódios da vida de Jesus atestado pelos quatro evangelhos, os estudiosos consideram o batismo um dos acontecimentos com mais probabilidade de ter sido mesmo um fato histórico, um evento real, embora cada relato esteja revestido de elementos teológicos e simbólicos. De fato, o batismo de Jesus é narrado explicitamente pelos três sinóticos – Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22 – e implicitamente pelo Quarto Evangelho – Jo 1,19-34. Além da ampla atestação literária, o que mais tem contribuído para a aceitação do batismo de Jesus como um acontecimento real são os problemas de interpretação deste evento, desde as primeiras gerações cristãs. Diante de tais problemas, os estudiosos consideram que, se não se tratasse de um fato histórico e importante da vida de Jesus, certamente os evangelistas o teriam omitido de seus escritos.
Os principais problemas e questionamentos suscitados pela presença do batismo nos evangelhos, observados por teólogos e exegetas, são os seguintes: sendo o batismo um rito de purificação destinado a pecadores arrependidos, por que Jesus passou por esse rito, uma vez que não era pecador? Supondo que o ministro do batismo tem autoridade sobre a pessoa batizada, porque Jesus aceitou ser batizado por João, se era superior a ele? Questões desse tipo surgiram muito cedo, principalmente na comunidade de Mateus. Por isso, entre as três versões do batismo nos sinóticos, a de Mateus é a mais rica; é a única que contém um diálogo entre João e Jesus, que funciona como resposta a questionamentos como esses recordados acima. Portanto, acredita-se que dificilmente os relatos evangélicos teriam recordado um evento tão problemático se não fosse realmente importante e histórico. A historicidade do evento, no entanto, não isenta o relato de conter artifícios literários e elementos simbólicos. Na verdade, os relatos evangélicos contêm a interpretação teológica do evento, e não uma mera crônica descritiva. Ao colocá-lo como marco inaugural do ministério de Jesus, os evangelistas – especialmente os sinóticos (Mt, Mc e Lc) – apresentaram o batismo como um evento de revelação, revestindo-o de elementos típicos de teofanias do Antigo Testamento. Além disso, cada evangelista relatou o evento à sua maneira conforme as informações recebidas de suas fontes e as necessidades de suas respectivas comunidades. A presença de tantos elementos comuns pode levar o leitor a pensar que os relatos são todos iguais. Por isso, enfatizaremos, ao longo da reflexão, as particularidades do relato de Mateus.
Olhemos para o texto, partindo o seu início: «Jesus veio da Galileia para o rio Jordão, a fim de se encontrar com João e ser batizado por ele» (v. 13). Essa informação é muito significativa, pois relata a primeira ação-movimento de Jesus no Evangelho de Mateus. Até então, no chamado “evangelho da infância” (Mt 1–2), Jesus não tinha feito nada por conta própria; todo o seu movimento fora conduzido por José e Maria, como na fuga para o Egito e o retorno à Galileia, para viver em Nazaré (Mt 2,13-19). Aqui, ele está saindo da vida oculta e anônima, vivida supostamente em Nazaré, e começa a assumir seu protagonismo, abandonando a passividade até então. Ao falar do deslocamento, o evangelista enfatiza a Galileia como lugar das origens de Jesus. Ele sai de lá com um objetivo claro: encontrar-se com João e ser batizado por ele, mas a Galileia é o seu lugar, é onde ele vai desenvolver sua missão, quando voltar do batismo e das tentações. É relevante que o primeiro movimento de Jesus seja em direção aos pecadores, pois eram esses que estavam sendo batizados por João, no Jordão (Mt 3,6). A passagem dele pelo batismo é um pretexto para estar junto dos pecadores, antecipando quem serão os destinatários prediletos da sua missão: as pessoas pecadoras, pobres e marginalizadas da sociedade e da religião em Israel.
A atividade batizadora de João estava gozando de grande aceitação popular, atraindo pessoas de toda a Judeia, inclusive gente da cidade de Jerusalém, o centro do poder político e religioso (Mt 3,5). A saída das pessoas de Jerusalém indo ao seu encontro para serem batizadas por ele, confessando os pecados (Mt 3,6), é um verdadeiro atestado de falência da religião centralizada no Templo. Até mesmo fariseus e saduceus, membros dos grupos religiosos mais influentes da época buscavam o batismo de João (Mt 3,7). Certamente, porque a religião institucionalizada do templo de Jerusalém já não correspondia mais às expectativas e necessidades das pessoas. Por causa disso, os profetas e pregadores carismáticos, como João e posteriormente Jesus atraíam muitas pessoas em seu entorno. De acordo com o evangelista, João tinha plena convicção da provisoriedade do seu batismo: era apenas um rito de purificação e um sinal de conversão (Mt 3,11). Ora, João sabia que estava para vir o Messias, portador de um batismo definitivo, no Espírito Santo e no fogo, quer dizer, com uma grande força transformadora, capaz de penetrar no íntimo da pessoa, o que as águas do rio Jordão não eram capazes de proporcionar. Consciente de que seu batismo era provisório, João prepara o caminho e a missão de Jesus. Por isso, além de marcar o início da vida pública de Jesus, o seu batismo marca também a transição entre a pregação de João e a sua.
O evangelista faz de tudo para deixar claro que Jesus não tinha necessidade de receber o batismo de João, mas o fez em solidariedade aos pecadores e em obediência ao projeto libertador do Pai. Inclusive, mostra que até mesmo João reconhecia isso: «Mas João protestou, dizendo: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”» (v. 14). Mateus é o único evangelista que traz essa objeção de João, o que dá uma riqueza ímpar ao seu relato, certamente para responder às necessidades de sua comunidade e destacar a superioridade de Jesus em relação ao profeta precursor. De fato, esse protesto de João deixa ainda mais claro que Jesus não tinha necessidade do batismo, pois não havia pecado nele. Quis recebê-lo em solidariedade aos pecadores, deixando claro desde o início de seu ministério que toda a sua práxis seria direcionada especialmente às pessoas mais necessitadas. Portanto, com essa objeção de João, o evangelista alivia o escândalo que o batismo de Jesus por alguém “menor” do que ele poderia causar na sua comunidade e nos futuros leitores. Por isso, ele recorda que o próprio João viu como absurda a ideia de batizar alguém maior do que ele e sem pecado.
À objeção de João, Jesus responde com uma síntese de todo o seu ministério: «Jesus, porém, respondeu-lhe: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!” E João concordou» (v. 15). Além do rico conteúdo, essa frase é bastante significativa também pelo fato de conter as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de Mateus. E são palavras programáticas, altamente significativas, pois contém uma verdadeira síntese da sua missão: “cumprir toda a justiça”. O verbo “cumprir” e o substantivo “justiça”são duas palavras-chaves para Mateus e sua comunidade. Pode-se dizer que resumem toda a teologia do respectivo evangelista. O verbo “cumprir” refere-se ao conjunto das Sagradas Escrituras judaicas (o Antigo Testamento), que encontra sua plenitude na vida e missão de Jesus. Da concepção até a paixão de Jesus, Mateus repete frequentemente que as Escrituras se cumprem nas palavras e atitudes de Jesus (Mt 1,22; 2,15.17.23; 4,14; 5,17; 8,17; 12,17; 13,35; 21,4; 26,54.56; 27,9). Se trata de um dos verbos mais repetidos ao longo do Evangelho. Não significa a execução de ações, mas de levar o projeto libertador de Deus à plenitude. Em outras palavras, é fazer a vontade do Pai. “Justiça”, por sua vez, é a conformidade à vontade de Deus; é todo o plano divino de salvação, compreendendo a predileção de Deus pelos pecadores, pobres e marginalizados. E João concordou com as palavras de Jesus, como deve concordar também a comunidade cristã em todos os tempos: é Jesus o cumpridor da justiça, por excelência.
Na continuidade, afirma o texto que, «Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele» (v. 16). A abertura dos céus é uma imagem comum na literatura judaica bíblica e extrabíblica. Significa, antes de tudo, a disposição de Deus de se comunicar com a humanidade. Quando os tempos estavam muito difíceis, imaginava-se que Deus tinha fechado os céus e não mais se comunicava com a humanidade. Quando o profeta Isaías (Terceiro Isaías) se lamenta do julgo da dominação persa, após o exílio, expressa o desejo de ver “os céus se rasgando para Deus descer em socorro” (Is 63,19). A abertura do céu no evangelho de hoje, portanto, significa que, em Jesus, a comunicação entre Deus e a humanidade é restabelecida definitivamente. No Evangelho de Mateus, isso se torna ainda mais evidente, por ser o “evangelho da presença”, o único que apresenta explicitamente Jesus como o Emanuel, ou seja, o Deus conosco (Mt 1,23). Em Jesus, portanto, Deus está, Deus é junto à humanidade. Já a imagem do Espírito de Deus descendo como uma pomba é uma novidade na linguagem bíblica, embora alguns estudiosos tenham tentado conciliar essa imagem com o “pairar” do Espírito de Deus sobre as águas no princípio da criação (Gn 1,2), ou com a pomba da paz cósmica, que Noé soltou da arca durante o dilúvio (Gn 8,8); essas interpretações, no entanto, já não são mais convincentes. O acontecimento é inovador em tudo, até mesmo na simbologia.
As imagens mais usadas para o Espírito de Deus na Bíblia são o fogo e o vento (At 2,1-13). Porém, tanto o fogo quanto o vento, simbolizam o Espírito Santo pela força e a capacidade de criação e transformação; em Jesus essas imagens não teriam sentido, pois o Espírito não desceu sobre ele para transformá-lo, mas apenas como sinal para confirmá-lo como o Filho amado do Pai, e para tornar pública essa confirmação. O Espírito preenche e transforma quem é carente dele; em quem já o possui em plenitude, como Jesus, apenas confirma. Desde a sua geração na eternidade e encarnação no ventre de Maria, Jesus já possuía o Espírito Santo em plenitude. A pomba evoca serenidade, tranquilidade, paz e consolo; não causa assombro algum; é esse o sentido da manifestação do Espírito com essa forma no batismo de Jesus: ele não foi transformado pelo Espírito naquele momento, porque já era fruto desse mesmo Espírito. Com isso, temos mais uma confirmação de que ele é mesmo Deus conosco, pois possui o Espírito de Deus em plenitude e, onde está o Espírito de Deus, está ele mesmo.
Contudo, mais importante que a imagem em si é a comunicação restabelecida entre a humanidade e Deus, não passando mais pela mediação das lideranças religiosas de Jerusalém, mas somente pela pessoa de Jesus. O céu se abre, Deus fala e afirma que o “seu bem-querer”, ou seja, a sua satisfação, não está nos inúmeros sacrifícios oferecidos no templo de Jerusalém, mas no seu Filho Amado. Mesmo com ecos veterotestamentários (Is 42,1; Sl 2,7), a afirmação de Deus aqui é completamente nova de significado, superando todas as expectativas e promessas: «E do céu veio uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”» (v. 17). O messias que o povo esperava era apenas um servo de Deus e filho de Davi, o que seria um mediador a mais. Deus envia o seu próprio Filho como único mediador. A voz que sai do céu significa Deus falando diretamente com a humanidade, dizendo que tem prazer por Jesus realizar a sua vontade; é isso o que significa pôr o agrado nele. Isso é realmente a inauguração de um novo tempo. Jesus agrada ao Pai à medida em que se mistura com os pecadores, plenamente inserido na história, acolhendo a todos sem distinção, embora com predileção clara pelos últimos, os mais necessitados e marginalizados. Todo o ministério de Jesus constitui o agrado ao Pai, especialmente por priorizar o amor e a misericórdia, ao invés dos sacrifícios e holocaustos. Enfim, ele se faz, de fato, o Deus conosco.
Que a recordação do batismo de Jesus reforce em nós a necessidade de estarmos em sintonia com o Pai, ouvindo a sua voz com sensibilidade aos impulsos do Espírito Santo que se manifesta nas diversas situações cotidianas. Que sejamos confirmados como filhos e filhas de Deus, em seu amor, para viver como irmãos e irmãs, à maneira de Jesus de Nazaré, o Filho Amado que fez apenas o bem por onde passou (At 10,38).
Sobre o Autor

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues nasceu em Apodi-RN e pertence ao clero da Diocese de Mossoró-RN. É licenciado em filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia (INSAF), bacharel em teologia pelo Ateneo Pontifício Regina Apostolorum em Roma e mestre em teologia bíblica pela Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino em Roma (ANGELICUM), com ênfase no profeta Amós e na literatura profética em geral. Atualmente é Doutorando em Teologia Bíblica na Pontificia Università San Tommaso d’Aquino. Reflexão publicada originalmente em www.porcausadeumcertoreino.blogspot.com.
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