Por Pe. Hermes A. Fernandes
Iniciamos em nossas liturgias o Ciclo Comum. Não se trata de um tempo venial, sem importância. Não podemos confundir Tempo Comum, com tempo banal. Ter consciência disso é muito importante, pois vivemos em tempos, nos quais as pessoas tendem a buscar o que é extraordinário, fantástico. Consequentemente, há uma cepa de cristãos e cristãos que vivem maratonando em busca de milagres, sinais fantásticos, vivências religiosas que rejeitam o que é real, ordinário. Esquece-se que Deus se revela na história. Nossa relação com Deus é real, não é mítica. Por isso, o Ciclo Comum na Liturgia significa bem o contrário de banal. É tempo de aprofundamento. Se no Ciclo do Natal somos brindados com o momento especial de se refletir e celebrar o Mistério da Encarnação, e no Ciclo Pascal refletimos e celebramos o Mistério que leva seu nome: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o Mistério Pascal; o Ciclo Comum é o tempo do aperfeiçoamento do viver e do celebrar cristãos. Este é tempo de aprofundamento da fé e da vida, tempo de catequese, tempo de caminhar com os discípulos de Jesus, construindo nosso próprio discipulado. No Ciclo Comum da Liturgia somos chamados a caminhar com Jesus, conhecendo sua Palavra e experimentando mais profundamente sua messianidade.
Por este motivo, o Evangelho da Liturgia deste Segundo Domingo do Tempo Comum traz em sua identidade, sua mensagem especial, o testemunho. No domingo passado, celebrando o Batismo do Senhor, aprofundamos o sentido do batismo de Jesus. Neste domingo, em Jo 1,29-34, João Batista dá seu testemunho sobre o Messias Galileu. “João viu Jesus aproximar-se dele e disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Dele é que eu disse: Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim. Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel’” (Jo 1,29-21). Neste bloco da perícope joanina temos dois movimentos distintos.
Primeiramente, João Batista plenifica toda a ação profética presente na Bíblia. Desde os primeiros profetas e profetisas do Primeiro Testamento, homens e mulheres do povo eram suscitados para falar e agir em nome de Deus. Agora, João Batista – o último dos profetas – aponta para o próprio Deus encarnado. Não se trata mais de tempo de promessa. É tempo de realização. Consequentemente, em segundo lugar, encerrando-se o tempo da promessa, percebendo em Jesus o cumprimento de todas as promessas de Deus, passa-se da Antiga para a Nova Aliança. Se antes Deus suscitava profetas e profetisas para falar e agir em nome dele, agora ele mesmo está no meio de nós. Jesus é o Verbo encarnado. Como nos disse o Evangelho de João, “e a Palavra se fez homem e habitou entre nós” (Jo 1,14). É sobre este Mistério, o cumprimento das promessas feitas ao Povo de Deus através de profetas e profetisas, que João Batista dá testemunho. Se o povo de Deus até aquele momento esperava seu messias, alguém que iria transformar a realidade de sofrimento em alegria, conforme nos anunciou toda a profecia de Isaías, João Batista, de forma peremptória afirma: “Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!” (Jo 1,34). O tempo do Messias chegou!
E o que significa a chegada do Messias, o Filho de Deus?
Desde os tempos do Exílio da Babilônia (de 586 a 538 a.C.), os profetas anunciavam a vinda de um messias justo, que iria restaurar a dignidade de seu povo. A princípio pensava-se em um messias que restaurasse a glória da dinastia davídica, todavia o messias galileu revelou a ousadia suprema dos planos de Deus, restaurando a dignidade de toda humanidade. A messianidade de Jesus, seu Reino, instaura uma revolução em nossa condição humana. O nascimento de Jesus, agora apontado por João Batista como o Filho de Deus, resgata o esperançar que brotava no coração do povo, desde os tempos do Segundo Isaías.
Assim como no tempo do Exílio da Babilônia, nos tempos de Jesus fazia-se imperativo restaurar a esperança. Por este motivo, a comunidade joanina reúne as memórias das palavras e ações de Jesus, organizando-as em um texto que deve sempre ser entendido a partir da perspectiva em que viviam estes seguidores e seguidoras de Jesus. Em 70 d.C. o Império Romano invadiu a Palestina, que já era sua colônia e lhe pagava tributos. Sufocou o movimento judaico revolucionário, tomou Jerusalém e destruiu o Templo. Os judeus tiveram que se dispersar e se reorganizar. As comunidades cristãs, que viviam nas imediações de Jerusalém, já haviam se dispersado. Algumas foram para Pela, no lado oriental do Rio Jordão, outras se espalharam pela Síria e Fenícia. Parte das comunidades cristãs se refugiaram junto à comunidade de Antioquia, na Síria. As comunidades associadas ao Evangelista João viveram principalmente na região da Ásia Menor (atual Turquia), com destaque para a cidade de Éfeso.
Dito isto, bebendo do texto joanino que nos oferece a liturgia, somos todos chamados a testemunhar Jesus, assim como o fez João Batista.
Durante nossa caminhada cristã, nos deparamos com muitas situações, nas quais os piores sentimentos se nos fazem apresentar. São as violências muitas, as injustiças, os atentados à Dignidade Humana em nome do Capital, do Prestígio (autopromoção), do Poder. Vivemos como testemunhas, espectadores de um mundo culpado. Culpado por esquecer os valores de Deus, aderindo – cada dia mais – às tentações diabólicas que seduzem homens e mulheres com prestígio, riqueza, poder. Como consequência, temos sofrimento, miséria, violência.
Mesmo no ambiente eclesial tais tentações nos chegam. São as muitas formas de tradicionalismo que privilegiam as escaladas pelo poder e prestígio. São as “virtuosas desculpas” que favorecem o acúmulo de riquezas, em nome de Deus. Quem se esqueceu dos clérigos que acumularam bens e riquezas, ostentando luxo, porque sua ação evangelizadora está intimamente ligada aos métodos de marketing religioso? Esse mecanismo de comércio não deseja promover o sonho de Deus para a humanidade. Promove figuras sacerdotais que arrebanham pessoas, enchendo espaços de shows, ou motiva as vigílias insones com aquele sacerdote piedoso das madrugadas. Enquanto isso, cristãos e cristãs que escolhem doar a vida promovendo caridade e justiça social, são chamados de comunistas. Pode parecer belo e piedoso o modelo de ser Igreja midiática. Todavia, enquanto a fé glamour se expande cada dia mais, a fé comprometida com os projetos do Reino se atrofia; relegando profecia e engajamento à condição de exclusão. Quem nunca viu pregadores confundir (propositalmente) justiça social, profecia, opção preferencial pelos pobres; com ideologia marxista? Revestem a Igreja em Saída com o espectro do bicho-papão do comunismo. Enquanto isso, os pobres ficam cada vez mais pobres e, muitas vezes, quem os oprime e explora são os mesmos que rezam as insones Ave-Marias madrugueiras.
É fato que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tem nos advertido herculeamente sobre a necessidade de uma Igreja comprometida com os apelos das realidades que nos cercam. As Campanhas da Fraternidade, a cada ano, nos apontam um foco de reflexão e ação em prol de uma sociedade mais humana e solidária. E mesmo sendo diretriz da Conferência Nacional dos Bispos, ou seja, Magistério oficial da Igreja; há quem simplesmente as ignore. E mais: não são raras as publicações nas mídias de opositores às Campanhas da Fraternidade. Com isso, busca-se uma Igreja presa no passado, apregoando espiritualidades atrofiadas, anacrônicas; cheias de devoção, mas vazias do Evangelho.
Na atualidade do que vivemos, quando o cristão e a cristã se cala diante do sofrimento de seus irmãos e irmãs, corrobora para que tais sofrimentos se perpetuem. Há culpabilidade na omissão. Ser profeta, agir em profecia, não é facultativo ao discípulo e discípula de Jesus. Ao contrário, trata-se de um imperativo. Nosso batismo nos impele à missão de testemunhar Jesus profeta, sacerdote e rei. O discipulado nos faz continuadores da Ação e Mensagem de Jesus. O silêncio diante das injustiças é cumplicidade, é revestir-se do espectro do opressor, em detrimento dos oprimidos. Faz-se imperativo agir como João Batista, testemunhando Jesus, o Filho de Deus. Testemunhar Jesus é promover a vida e denunciar a tudo que ameaça o bem viver. Com João Batista, apontemos para Jesus, construindo seu Reino aqui e agora.
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