Por Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Nos últimos anos, em alguns contextos pastorais, tem-se difundido a expressão “primícias sacerdotais” associada à primeira Missa de um presbítero recém-ordenado. Em certos discursos, essa linguagem é usada como se a primeira Missa fosse uma espécie de “primeiro sacrifício oferecido por ele a Deus”, em analogia às primícias do Antigo Testamento.
Embora essa terminologia tenha nascido, em parte, de um imaginário devocional, é importante esclarecer (pastoral e teologicamente) que essa associação não corresponde à teologia católica do sacramento da Ordem e pode gerar equívocos no modo de compreender o ministério presbiteral e a própria Eucaristia.
I- As primícias na Escritura: um símbolo agrícola e cultual antigo
No Antigo Testamento, as primícias eram:
•a primeira parte da colheita,
•fruto do trabalho humano,
•oferecida no templo em sinal de gratidão (cf. Ex 23,19; Dt 26,1-11).
Portavam o sentido de: “Do que é meu, do que produzi, ofereço a Deus.”
Esse horizonte simbólico pertence à economia cultual anterior a Cristo, vinculada ao sacerdócio levítico e ao sistema sacrificial veterotestamentário.
Quando essa categoria é aplicada diretamente à Missa — especialmente à “primeira Missa” — corre-se o risco de transpor ao ministério presbiteral uma lógica que já foi superada em Cristo.
II- O sacerdócio cristão não prolonga o sacerdócio antigo
O Novo Testamento afirma que:
•Cristo é o único Sacerdote e Mediador (Hb 7,23-27),
•Seu sacrifício é único, perfeito e irrepetível (Hb 10,10-14),
•Nele se cumpre e supera todo o sistema antigo.
O Concílio Vaticano II explicita que: “O sacerdócio ministerial participa do sacerdócio de Cristo, não para acrescentar novos sacrifícios, mas para tornar presente o único sacrifício da cruz.” (Presbyterorum Ordinis, 2; Lumen Gentium, 28)O presbítero, portanto:
•não oferece um sacrifício próprio,
•não inaugura uma série de “sacrifícios pessoais” ao celebrar,
•mas age in persona Christi capitis, tornando presente sacramentalmente o único e definitivo sacrifício pascal. Além disso age in persona ecclesiae, que oferta com ele o único sacrifício, que ele por si só, não realiza primeiramente, nem na sua primeira missa. Ou seja: o primeiro sacrifício ofertado no seu início de ministério não é o primeiro, mas o único que se atualiza. E seu ministério não pode ter primícias, já que não lhe pertence, mas a Cristo e para a Igreja.
O que se quer destacar é um princípio de serviço, mas com linguagem dignitária que atrapalha o sentido real da Ordem.
Por isso, falar da primeira Missa como “primícias de sacrifício ou primícias sacerdotais” sugere, ainda que de modo implícito, uma visão em que o padre aparece como sujeito-sacrificante, retomando simbolicamente uma lógica cultual pré-cristã.
III- O que de fato ocorre na primeira Missa
A primeira Missa não é:
•o “primeiro sacrifício oferecido pelo novo padre”,
•nem a “primeira parcela” de algo que ele passa a produzir para Deus.
Ela é, teologicamente, a primeira vez que o presbítero participa ministerialmente da atualização sacramental do mesmo e único sacrifício de Cristo, in persona Christi et in persona ecclesiae. O que se inaugura não é um sacrifício, mas o exercício de um serviço:
•serviço à Palavra,
•serviço à comunidade,
•serviço à Eucaristia,
•serviço ao Povo de Deus.
Assim, a primeira Missa é motivo de alegria e ação de graças — não porque seja “primícia de sacrifício ou primícias sacerdotais”, mas porque marca o início de um ministério pastoral a serviço do Mistério pascal.
IV- Riscos pastorais do uso teologicamente impreciso de “primícias”
Quando a linguagem de primícias é aplicada à Missa:
•pode reforçar uma imagem sacralizante e funcionalista do padre,
•pode sugerir um retorno simbólico ao culto antigo,
•pode espiritualizar práticas sociais ou econômicas revestindo-as de retórica bíblica.Além disso, ela pode distorcer a compreensão da Eucaristia:
•como se o padre “oferecesse algo seu”, em vez de tornar presente aquilo que Cristo oferece de uma vez para sempre.
A teologia da Ordem recorda que o verdadeiro sujeito do sacrifício é Cristo; o presbítero participa ministerialmente desse ato, em nome da Igreja.
Outro problema é a narrativa prepotente que essa terminologia esconde: como se algo começasse com o ordenado. Como se o início de seu ministério fosse o início da ação sacerdotal de Cristo. A primeira missa de um novo padre é motivo de alegria, de ação de graças e o nascimento de um presbítero é alegria para a Igreja, mas a linguagem incide num clericalismo corrente, com poderes sobre-humanos, elevado a um patamar distinto, começando agora uma nova rota. Nada contra o imaginário do começo, pois é o começo de um novo ministério, mas contra a lógica embutida aí, de que ser padre tem outra dignidade que ser cristão. Um a-mais de dignidade em relação ao batismo.
V- Uma linguagem pastoral mais fiel ao Evangelho e ao Concílio
É pastoralmente mais adequado falar da primeira Missa como:
•primeiro exercício do ministério presbiteral,
•primeiro serviço à comunidade na Eucaristia,
•primeira participação ministerial na celebração do Mistério pascal.
Ou só primeira missa. Já é suficiente. Essa linguagem:
•respeita a cristologia,
•preserva a eclesiologia do Vaticano II,
•evita confundir devoção com teologia do sacramento.
Assim, a comunidade pode celebrar com alegria, mas com uma alegria enraizada na fé da Igreja:Não celebramos um novo sacrifício, mas damos graças pela vocação daquele que, em Cristo, servirá à atualização sacramental do único sacrifício redentor.
A primeira Missa é motivo de festa, comunhão e gratidão — mas não deve ser teologizada como “primícias”.
O presbítero não inaugura um novo culto; ele é incorporado ao ministério que torna presente, na história da Igreja, o único sacrifício de Cristo pela humanidade.
Colaborou: Fique Firme
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