“O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz!” (Mt 4,16)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
O Evangelho de Mateus situa o início do ministério de Jesus de forma geográfica e temporal a partir do sofrimento humano. Ele experimenta a dor da notícia da morte de João Batista. No Evangelho de Lucas temos os relatos paralelos dos nascimentos e das infâncias de Jesus e João Batista (cf. Lc 1,5-80; 2,1-52). Somos informados da proximidade parental de Maria e Isabel, e consequentemente, de Jesus e João. Por isso, a notícia da morte de João Batista impele ao luto lancinante, pois trata-se da morte de um familiar. Além disso, sabemos que João Batista tombou sob a tirania de Herodes. A partir desse fato temporal, Jesus segue em direção às periferias e – junto dos marginalizados – inicia sua missão messiânica. Ele experimenta a dor dos que sofrem sob a tirania e identifica-se com aqueles e aquelas que – assim como sua família de Nazaré – estão em situação de sofrimento. É o Evangelho sendo anunciado preferencialmente aos pobres, conforme havia profetizado Isaías (cf. Is 9,1-2).
A atividade de Jesus se inicia na Galileia, ao norte da Palestina (cf. Mt 4,12-17). Trata-se de uma região mal vista pelos habitantes do sul, da Judeia, desde o Primeiro Testamento. Com efeito, o Norte havia sido tomado pelo Império Assírio em 722 a.C. Desde esta época, o povo que habitava aquela região era discriminado, pois ficou em contato com civilizações pagãs, com costumes e religiões diferentes. Também se trata de uma região que era caminho entre o Egito e o Oriente. As influências de todas as etnias que faziam uso desta rota comercial, deixavam reminiscências de suas culturas e costumes. É a miscigenação dando seu toque natural na construção das sociedades. Ali também era a região das tribos de Zabulon e Neftali, especialmente atingidas e corrompidas pela ganância dos estrangeiros. Muitas vezes, povos estrangeiros desejam explorar as terras que ocupam, destruindo a tudo, como gafanhotos; atentando contra a vida e a segurança dos povos originários. O povo de Deus dessa região estava sendo roubado em sua verdadeira identidade, pelo menos há 700 anos. Assim como antes, ainda hoje, há um sentimento imperialista em algumas nações. Acham-se superioras, em razão de suas armas. E o que pretendem é explorar e destruir. Anulando a autonomia dos territórios por onde passam. Querem as riquezas locais, a submissão política, econômica e cultural dos povos originários. Assassinos, devoradores das riquezas naturais e da consciência étnica. Aconteceu com o reino do Norte, Israel. Acontece em nossos tempos. Na América Latina, na África etc.
Jesus vai para Cafarnaum. É nesta região, distante do centro econômico, político e religioso (Jerusalém), que Jesus começa a desenvolver sua atividade. O início de sua missão, como dito acima, se dá após a prisão e morte de João Batista. O batizador anunciava a todos e todas a vinda do Reino da Justiça, que iria libertá-los. Não tinha medo de criticar os poderosos, principalmente aqueles que praticavam a injustiça, que deixava o povo na miséria e escravidão. Resultado: foi preso, e mais tarde, morto. Então entra em cena Jesus, proclamando o mesmo anúncio: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). O Evangelista Mateus cita o profeta Isaías de 8,23 a 9,1 para clarear o que estava acontecendo. Aquela região sofrida, lugar de trevas, região escura onde reinava a morte por causa da opressão e exploração, agora – com Jesus – vai ver a luz da vida. Com a justiça, anunciada e realizada por Jesus, todos irão se libertar e começar vida nova. Não há mais diferenças: judeus e pagãos terão o mesmo direito à vida, que Deus prometeu a todos. O Reino dos Céus abraça a todos os povos e suas culturas na Terra. Sem distinção.
Esta boa notícia vai se espalhando e logo se juntam ao pregador galileu outras pessoas. Ansiosas por um novo tempo. Pelo fim dos sofrimentos advindos da marginalização, opressão e exploração. A cidade de Cafarnaum, ponto de partida da ação de Jesus, ficava às margens do lago de Genesaré, também chamado de Mar da Galileia (cf. Mt 4,18-22). É aí, entre os pescadores, que Jesus encontra seus primeiros colaboradores: Simão (Pedro) e André, Tiago e João. Dois pares de irmãos, sinal de que o Reino de Deus significa fraternidade. No anúncio da Boa Notícia, não há lugar para individualismos. Importa sublinhar que Jesus escolhe trabalhadores, pois ele não precisa de teorias, mas de ação. Na construção do Reino de Deus, precisamos nos lançar ao trabalho. Não se trata de abstração, e sim, ação.
Na sequência do relato vocacional dos apóstolos em Mateus, os dois primeiros são chamados sob o anúncio do que lhes aguardava o caminho que iriam seguir: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4,19). À segunda dupla de irmãos, bastou o convite. Sem argumentações, sem propostas. As palavras de Mateus são claras: “Jesus os chamou” (Mt 4,21). Sem Porquê ou para quê. Eles largaram tudo e o seguiram (cf. Mt 4,22). Os quatro deixam tudo, o trabalho que faziam para seguir a Jesus. Antes trabalhavam para si e suas famílias. Agora encontram algo mais importante. Isso não significa que deixaram suas famílias “a Deus dará”, mas que encontraram um novo sentido para suas vidas. Os dois últimos deixaram o pai, conforme nos informa Mateus, porque agora vão estar a serviço do projeto do Pai de Jesus. Começa desde já a família universal, reunida em torno do único Pai de todos, conforme nos explica Mateus 23,9: “Na terra, não chamem a ninguém de pai, pois um só é o Pai de vocês, aquele que está no céu…”
Para a missão, aqueles que seguem a Jesus levam suas histórias, sonhos e dores. Jesus parte da vida de cada um, dando sentido novo para o que cada um faz. Os quatro chamados pelo Mestre, na perícope que estamos a refletir, eram pescadores. Jesus lhes promete que de agora em diante seriam pescadores de homens. Em outras palavras, Jesus não pede que façam algo totalmente diferente do que faziam, não pede que anulem suas histórias de vida, seus valores, seus dons. Pede que façam novos propósitos de vida, mais audaciosos diante da vontade de Deus para a realidade humana. E que façam, valorizando suas histórias, seus valores e seus dons. É pensar a vida de uma forma mais grandiosa. Entendendo sua missão tendo o bem da humanidade toda como objetivo e não somente os desejos pessoais, ou daqueles que nos cercam por afinidades ou relações parentais. No projeto de Deus, toda a humanidade é família do discípulo e discípula de Jesus.
Ao lermos de forma atenta Mt 4,12-23, somos convidados a ver a realidade de Jesus a partir de nossa própria realidade. Após a prisão e assassinato de João Batista pela tirania herodiana, Jesus inicia sua missão. A dor do luto e a indignação diante das realidades de opressão foram fatores de ruptura para que se iniciasse a atividade pública de Jesus. Diante do testemunho de muitos mártires da caminhada, também nós somos convocados a pôr os pés a caminho. Não podemos nos esquecer do sangue derramado de Pe. Josimo Tavares, Ir. Dorothy Stang, São Romero das Américas (Oscar Romero), Pe. Camilo Torres, Margarida Maria Alves, Frei Tito de Alencar, entre outros e outras, irmãos e irmãs, que tiveram suas vidas ceifadas pelos impérios de morte de nossos tempos. O sangue destes mártires fecunda a semente do Evangelho. O testemunho deles deve nos impelir à missão. Também nós devemos ser pescadores de homens, ou seja, anunciarmos o Evangelho e denunciarmos a tudo aquilo que é contrário à Boa Nova de Jesus.
Conforme vemos no relato de Mateus, após o violento fim de João Batista, Jesus foi para as periferias geográficas e existenciais. A partir dali, se inicia a grande jornada para o Reino de Deus, cumprindo-se as profecias (cf. Is 8,23-9,1; 61,1-3). A messianidade de Jesus está intimamente ligada à realidade dos pobres e marginalizados. Neste sentido, toda a ação da Igreja deve ter estas mesmas referências. Evangelizar a partir dos pobres e com os pobres, construindo uma nova sociedade mais justa e fraterna, o Reino de Deus, na expectativa do Reino definitivo. Quando os pobres saem de perspectiva na ação evangelizadora, também Jesus se faz ausente dela. É como se dizer cristão, sem o Cristo.
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