Por Solange Maria do Carmo
Se algum versículo bíblico tem sido mal interpretado e manipulado pelos vendedores da fé é o que diz respeito à punição de Deus até a terceira e quarta geração. As religiões mercantilistas – e isso não abrange somente alguns grupos da vertente neopentecostal, mas também muitos grupos católicos – têm usado esses textos para manipular as consciências e amedrontar nossa gente. Não é de hoje que o medo tem sido utilizado como arma poderosa contra os mais incautos, inclusive pelas religiões. No atual momento, não faltam líderes – inclusive nas mídias sociais – que, utilizando-se desses versículos bíblicos, têm feito reuniões de livramento das maldições hereditárias e outras bobices do tipo. Padres e pastores “profetizam” aos gritos que as barreiras das maldições familiares estão sendo derrubadas “em nome de Jesus”, enquanto a assembleia em transe assimila essa mensagem e se deixa enganar.
De fato, há mais de um versículo bíblico em que aparece a expressão de que Deus castiga até a terceira ou quarta geração. Tomemos dois deles, que estão presentes no livro do Êxodo: “Castigo a culpa dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam, mas uso de misericórdia por mil gerações para com os que me amam e guardam os meus mandamentos” (Ex 20,5). E outro: “O Senhor, Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, conserva a misericórdia por mil gerações e perdoa culpas, mas não deixa nada impune, castigando a culpa dos pais nos filhos e netos, até a terceira e quarta geração” (Ex 34,6-8).
Observe que se trata de um recurso literário muito conhecido na cultura hebraica da época chamado paralelismo numérico. O escritor cita um número menor para colocar a ênfase no maior. Para pôr força no maior, ele precisa afirmar algo com um número menor. Deste modo, se ele não diz que Deus castiga até a terceira ou quarta geração, como poderá afirmar que Deus é misericordioso, clemente, bom e ama e perdoa até a milésima geração? Num paralelismo numérico, isso seria impossível.
Assim, é preciso tomar cuidado com o literalismo bíblico, coisa de fundamentalistas e fanáticos que não enxergam um palmo na frente do nariz. O que o autor quer dizer não é que Deus castiga até a terceira, quarta ou qualquer outra geração, punindo em filhos, netos etc. a culpa de seus antepassados. Isso é totalmente irracional e contrário à fé cristã, que nos anuncia um Deus misericordioso e bom, ao modo do seu filho Jesus, que nos revelou a face divina. É exatamente o contrário. O que são quatro gerações perto de mil? A intenção do texto é mostrar a clemência divina, o perdão de Deus, a sua capacidade de amar e perdoar sempre, em qualquer circunstância e a todos sem exceção.
Infelizmente, muita gente de má fé tem se arvorado em interpretar a bíblia e a subir no púlpito com autoridade de um doutor, sem nunca ter estudado de fato a Escritura. Mesmo padres, que fizeram o curso de teologia, não são biblistas para se darem o direito de afirmar tão peremptoriamente tais asneiras, especialmente os presbíteros da mídia, a quem o povo escuta como se fosse a voz de Deus. É muita responsabilidade falar asneiras bíblicas em rede, pois elas se multiplicam como vírus e criam narrativas que são muito difíceis de desmentir.
A bíblia é clara quanto ao amor e ao perdão desmesurados de Deus, porque ele é amor. Nós nem precisaríamos de versículos que contradizem isso para afirmar que esse tal castigo de Deus até a quarta geração é uso da bíblia em prol do medo: da coerção das consciências e do domínio dos corpos. Mas vamos lá! Se nossa gente só conhece esses versículos soltos, aleatórios, sem uma visão global da Escritura, na próxima curiosidade bíblica, vamos mostrar que cada um só pode ser punido por seus próprios erros, e nem é por Deus: é por si mesmo e pela vida que nem sempre são tão bondosos como o Deus de Jesus Cristo.
Colaborou: Fique Firme
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