Por Yuri Lamounier Mombrini Lira
O Papa Bento XVI, na encíclica Deus caritas est, diz: “No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”1. Ao nos encontrarmos com Jesus, desdobra-se diante de nossos olhos, um belo e novo horizonte; encontramos o rumo de nossa vida, a meta de nossa existência. O encontro com Jesus nos faz perceber que não estamos nesse mundo por acaso, que nossa vida faz sentido.
Inúmeras vezes nos perguntamos: “O que estou fazendo aqui?”. Podemos chamar o sentido de nossa vida de vocação, missão ou ainda de propósito. O Papa Francisco, na exortação pós-sinodal Evangelii gaudium reflete sobre o sentido da vida. “Eu sou uma missão nesta Terra, e para isto estou neste mundo. É preciso considerarmo-nos como que marcados a fogo por esta missão de iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar”2 .
A pergunta pelo sentido da vida também está presente nos quatro Evangelhos. No Sermão da Montanha, Jesus mostra que o sentido da vida é ser sal e ser luz.
Vós sois o sal da terra. Se o sal perder o sabor, com que será salgado? Não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e pisado pelos passantes. Vós sois a luz do mundo. Uma cidade situada sobre a montanha não pode ficar escondida. Nem se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo da caixa, e sim sobre o candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão na casa. Assim também brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus (Mt 5,13-16).
Jesus nos mostra que podemos encontrar o sentido de nossa vida fazendo o bem. A função do sal é conservar, preservar, saborear, temperar. E a tarefa da luz é iluminar, irradiar, brilhar, clarear. Assim acontece com o discípulo de Jesus, que é chamado a temperar o mundo com o tempero do Evangelho e a irradiar a luz de Cristo por onde for. O sal não salga a si mesmo; a luz não ilumina a si mesma. Ambos existem para o outro. O sal existe para dar sabor ao alimento que alguém vai comer; a luz existe para iluminar a vida de alguém. Viver para fora de si, para o outro: eis a missão do cristão.
Van Thuan disse: “O Evangelho revela-nos o sentido profundo de nossa vida, de forma que sabemos finalmente o porquê de nossa existência; os ensinamentos de Cristo dão-nos novamente esperança”3. O encontro com Jesus e com seu Evangelho desperta nossa consciência para a descoberta do sentido de nossa vida: viver para fazer a vida do outro mais plena, mais bela, mais saborosa, mais iluminada. Nossa existência não é em vão.
O sentido da vida não se fecha em nós próprios, mas nos abre para nossa relação com os outros. Está interligado com a dimensão do servir. Por isso, Jesus disse: “Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja aquele que vos serve, da mesma forma que o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgaste por muitos” (Mt 20,26-28).
Inspirando-se nas palavras de Jesus, São João Bosco, o santo que se dedicou a evangelizar os jovens, ensinava: “O Senhor nos colocou no mundo para os outros”4. Deus nos colocou no mundo para os outros e com os outros. Para ab-sorver o sentido da vida, não podemos deixar de pensar que somos seres relacionais.
Viktor Frankl disse que, para descobrirmos o sentido da vida, deveríamos nos perguntar não sobre o que esperamos da vida, mas sim sobre o que a vida espera de nós. Diz o pensador austríaco: “Não se deveria procurar um sentido abstrato da vida. Cada qual tem sua própria vocação ou missão específica na vida; cada um precisa executar uma tarefa concreta, que está a exigir realização”5. Para Frankl, o sentido da vida não é imutável; ele muda frequentemente à medida que alcançamos nossos objetivos.
A vida possui sentido em si mesma. Encontramos sentido em viver para servir e fazer o bem. Como disse Adélia Prado, numa entrevista ao programa Sempre um Papo6: “O que dá sentido à vida vale mais do que a própria vida”. Para nós cristãos, o que dá sentido pleno à vida é maior do que a própria vida. Não se trata de uma coisa, uma ideia, um sentimento, mas de uma pessoa. No Evangelho de João, Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Encontramos o sentido da vida em Jesus. É Jesus o sentido último de nossa existência.
Um dos grandes males de nosso tempo é a depressão, a angústia existencial, que nos provoca a sensação de que a vida é um vazio sem sentido. O encontro com Jesus nos ajuda a aceitar a vida como ela é, com seus fracassos e suas vitórias, seus sorrisos e suas lágrimas, luzes e sombras. A Constituição Pastoral Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, afirma:
As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma que não encontre eco no seu coração7.
No coração de Cristo, ecoa e reverbera a nossa vida. Não há nenhum ser humano que fique distante desse seu amor. Todos podemos viver essa aventura com Cristo e redescobrir a cada dia aquele sentido que nos motiva e que nos coloca em movimento. Nossa vida tem sentido, mesmo quando nos sentimos desanimados, frustrados e sem sentido algum para a vida.
Notas
_______________1 Deus caritas est, n. 1. In: BENTO XVI, Papa. Deus Caritas est. São Paulo: Loyola, 2006.
2 Evangelii gaudium, n. 273. In: FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium: a alegria do Evangelho. São Paulo: Paulinas, 2013.
3 VAN THUAN, François Xavier Nguyen. Testemunhas da esperança. São Paulo: Cidade Nova, 2022. p. 74.
4 BEZUTTE, Osmar A., SDB. O Senhor colocou-nos no mundo para os outros. Disponível em: https://boletimsalesiano.org.br/materias/acao-social/item/11629-o-senhor-colocou-nos-no-mundo-para-os-outros. html. Acesso em: 08 jan. 2024.
5 FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. 58. ed. Petrópolis: Vozes, 2023. p. 133.
6 Adélia Prado participou do programa Sempre Um Papo em Belo Horizonte, em 16 de março de 2016
7 Gaudium et spes, n. 1. In: CONCÍLIO VATICANO, 2., 1962-1965. Constituições, Decretos, Declarações. Petrópolis: Vozes, 1968.
Colaborou: Fique Firme
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