Por Karina Moreti
Deus nos chama a partir da história. Não fora dela. Não acima dela. Ele nos chama no meio da história! Em tempos confusos, frágeis e de espiritualidade corrompida. Em nossa viagem pelas vocações bíblicas, conhecemos Ana, uma mulher que sofreu durante anos por ser estéril, mas Deus ouviu suas orações e lhe deu um filho. Esta criança é Samuel. Ele será um grande juiz, mas não só, ele também será a voz de Deus para o povo de Israel. Povo desobediente que exigirá um rei. Tirará Iahweh do centro de sua vida. E assim, Samuel unge o primeiro e o segundo rei de Israel: Saul e Davi.
A vocação de Samuel se insere em um período de profunda instabilidade política, religiosa e social na história de Israel. O contexto narrado em 1 Samuel revela um povo fragilizado internamente, com um sacerdócio corrompido e uma compreensão distorcida da ação de Deus. “Naqueles dias, a palavra do Senhor era rara” (1Sm 3,1), o que indica não a ausência de Deus, mas a incapacidade humana de escutá-lo. É nesse cenário que Samuel surge como resposta histórica e teológica ao silêncio provocado pela infidelidade institucional.
Samuel nasce do clamor de Ana, cuja oração expressa a experiência dos pequenos e marginalizados. Sua consagração antecede sua maturidade e revela que a vocação não nasce da força, mas da entrega. Ainda menino, Samuel é inserido no serviço do santuário de Silo (1Sm 1,24-28), lugar onde o culto permanece ativo, embora esvaziado de justiça e escuta. O chamado que ele recebe não o conduz às armas, mas à palavra; não ao domínio, mas ao discernimento.
Neste período Israel estava em conflito com os filisteus. Este conflito não pode ser compreendido apenas como embate militar ou religioso. Trata-se também de uma disputa econômica e tecnológica. Os filisteus detinham o domínio da metalurgia do ferro, o que lhes conferia superioridade bélica e controle sobre a produção de armas e ferramentas (cf. 1Sm 13,19-22). Israel, privado desse conhecimento, encontrava-se em posição de dependência e vulnerabilidade. A guerra, portanto, expressa o desejo israelita de romper essa assimetria, não apenas para se defender, mas principalmente para subjugar seus inimigos e aqueles que detinham o poder tecnológico daquele tempo.
Nesse contexto, Israel busca vencer os filisteus que estavam em Ebenezer, mas perdem a batalha. Por isso, os anciãos mandam buscar a Arca da Aliança que é retirada de Silo e levada ao campo de batalha como tentativa de assegurar a vitória (1Sm 4,3). O gesto revela uma grave distorção teológica: Iahweh é reduzido ao “Deus dos Exércitos”, convocado para legitimar projetos de dominação. A Arca deixa de ser sinal da presença de Deus no meio do povo e passa a ser tratada como instrumento mágico – um talismã –, capaz de garantir sucesso militar.
Muitos podem acreditar que a derrota de Israel e o roubo da Arca pelos filisteus (1Sm 4,10-11) representam o fracasso de Deus. O que acontece realmente é o colapso de uma imagem equivocada de Deus. Iahweh não se submete às estratégias humanas, nem se deixa aprisionar por objetos sagrados. A captura da Arca desmonta a teologia da força e expõe a pretensão de um povo que tenta utilizar Deus para seus próprios fins.
O desenvolvimento da história reforça essa verdade ao mostrar que a Arca, mesmo em território inimigo, não permanece sob domínio filisteu. A presença de Iahweh provoca desordem, enfermidades e instabilidade aos filisteus (1Sm 5,1-12), revelando que Deus age sem mediação humana. Por fim, a Arca retorna sozinha a Israel, conduzida não por exércitos, mas pela própria ação divina (1Sm 6,7-12). Não há batalha, negociação ou conquista. Há apenas a soberania de Iahweh. Ele apresenta toda sua magnificencia!
Esse retorno autônomo da Arca constitui uma das afirmações teológicas mais fortes do texto: Deus não precisa de ninguém para realizar sua vontade na história. Iahweh não depende de reis, sacerdotes ou soldados. Ele age livremente, colocando-se ao lado dos oprimidos e não dos projetos de dominação. A iniciativa é divina; a história não é controlada pelas armas, mas pela fidelidade de Iahweh à sua própria identidade.
É nesse horizonte que a vocação de Samuel se consolida. Seu chamado nasce entre a ruína do sacerdócio, a falência da teologia da guerra e a revelação de um Deus que fala no silêncio. Samuel aprende que a verdadeira autoridade não provém do ferro, do poder militar ou da imposição, mas da escuta obediente. Sua missão é reconduzir Israel a uma relação autêntica com Iahweh, não como Deus dos exércitos humanos, mas como Deus da história, livre e soberano.
Assim, Samuel se torna o profeta da transição. Ele marca a passagem de um Deus instrumentalizado para um Deus que interpela; de uma fé baseada na força para uma fé fundada na escuta. Sua vocação proclama que Iahweh não legitima projetos de dominação, mas se revela como aquele que age em favor da vida, sem depender de ninguém, absolutamente ninguém, para realizar sua ação no mundo. Ele nos chama porque acredita que devemos fazer parte de seus projetos e não porque necessita.
A experiência vocacional de Samuel permanece profundamente atual em um mundo marcado por relações assimétricas de poder, onde grandes potências econômicas, políticas e militares continuam a impor suas vontades sobre povos menores e vulneráveis. Assim como no conflito entre Israel e os filisteus, também hoje o domínio tecnológico, econômico e armamentista se converte em instrumento de dominação, controle e exploração. A lógica do ferro permanece ativa, ainda que sob novas formas.
Governantes, em diversos contextos, passam a se perceber maiores que o próprio povo que deveriam servir. O poder deixa de ser mediação e se transforma em fim. A força substitui a escuta. A imposição toma o lugar do cuidado. Repete-se, assim, a antiga tentação de instrumentalizar Deus para legitimar projetos de dominação, violência e exclusão. Deus acima de tudo?
A narrativa da Arca da Aliança, porém, continua a oferecer um forte contraponto teológico a essas pretensões. Iahweh não se alia automaticamente aos poderosos, nem abençoa estruturas que oprimem. O Deus revelado na história de Samuel não depende de exércitos, governos ou impérios para agir. Ele não se deixa capturar por discursos religiosos que sustentam a violência. Sua ação permanece livre, soberana e, sobretudo, comprometida com a vida.
A Arca que retorna sozinha continua a denunciar toda tentativa de aprisionar Deus em sistemas de poder. Ela proclama que Iahweh age à margem das grandes forças, desmonta impérios e desautoriza líderes que se colocam acima do povo. O Deus bíblico não legitima a dominação dos fortes sobre os fracos, mas se revela como aquele que escuta o clamor dos pequenos, como escutou a oração de Ana.
Nesse sentido, a vocação de Samuel interpela o presente ao convocar homens e mulheres à escuta crítica da história. Em tempos de ruído, propaganda e autoritarismo, Samuel recorda que a Palavra de Deus não nasce do grito dos poderosos, mas do silêncio atento dos que se dispõem a ouvir. Sua missão continua sendo a de desmascarar falsas imagens de Deus e de anunciar que nenhum poder humano é absoluto.
Atualizar Samuel para nossos dias é afirmar que Iahweh não está a serviço de impérios, ideologias ou governos, mas permanece fiel à sua identidade: o Deus que age na história sem precisar de ninguém, o Deus que não se confunde com a força, e o Deus que caminha ao lado dos oprimidos. Onde houver escuta, discernimento e compromisso com a vida, ali o chamado de Samuel continua ecoando.
Senhor Deus da história,
que falas no silêncio
e chamas pelo nome,
ensina-nos a ouvir a tua voz
em meio aos ruídos do nosso tempo.
Livra-nos da tentação da força,
do desejo de controlar,
da ilusão de que precisamos dominar para vencer.
Que não te usemos para justificar nossos projetos,
nossas guerras,
nossos poderes.Dá-nos um coração atento,
como o de Samuel,
capaz de discernir tua palavra
quando ela parece rara
e quase apagada.Que saibamos dizer, com humildade e coragem:
“Fala, Senhor, teu servo escuta.”E que, ao escutar-te,
não busquemos a glória dos exércitos,
mas a fidelidade ao teu Reino,
onde os pequenos são ouvidos,
os oprimidos são levantados
e a vida sempre tem a última palavra.Amém.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
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