No texto anterior, tratamos do tema da punição divina que, segundo intérpretes mal avisados, se estende até a terceira e/ou quarta geração conforme textos do Êxodo. Vimos que se trata de um paralelismo numérico que tem a intenção de afirmar exatamente o contrário: Deus não vinga nem pune jamais, quanto menos ainda o pecado dos pais nos filhos, netos etc., mas ele perdoa e ama infinitamente, na linguagem bíblica “até a milésima geração”.
Se já nos parece absurdo que Deus vingue o pecado de alguém em vez de perdoá-lo, quanto mais vingar o pecado de um pecador (no caso, os pais) em um inocente (a sua descendência até 3ª e/ou 4ª geração). Tomemos Ez 18,20 como ponto de nossa reflexão: “Um filho não carregará a culpa do pai e um pai não carregará a culpa dos filhos. A justiça do justo sobre ele mesmo estará e a impiedade do ímpio sobre ele mesmo estará”. Ezequiel, que viveu na época do exílio na Babilônia – tempo em muitos entendiam esse evento como castigo divino por erros de seus antecedentes – sabia bem que cada pessoa só deve responder por seus atos e que essa história de maldição familiar, de herança de pecado, não se sustenta. O exílio definitivamente não era punição divina, pensava o profeta, pois os filhos não podem pagar pelos erros dos pais nem herdar maldições pelos seus malfeitos. Cada um que arque com a responsabilidade de suas decisões.
Outro profeta, também do tempo do exílio, Jeremias, insiste que isso é um absurdo. Para combater essa ideia, ele usa um provérbio da época: “Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram” (Jr 31,29), ou seja, os pais fizeram besteira e os filhos “pagaram o pato”, diríamos aqui em Minas Gerais. Jeremias continua: “Cada um morrerá por sua própria culpa. Embotados (no sentido de estragados, sem ponta, sensíveis) ficarão os dentes de todo aquele que comer uva verde” (Jr 31,30).
É claro que herdamos a genética familiar, tanto no campo biológico (de doenças hereditárias ou propensão a diversas doenças) quanto no campo psíquico (dores existenciais, angústias etc.). Tudo que nossos pais, e ancestrais em geral, viveram está inscrito em nós, por meio de práticas insistentemente repetidas e estruturadas no corpo e na alma. Cultivamos uma psique coletiva, uma espécie de corrente familiar que nos é constitutiva e que depende de nós para ser interrompida. Haja terapia e vontade de superação! Mas quanto a dizer que isso é castigo divino por algum pecado de nossos ascendentes, há uma distância enorme. Deus é amor e não vingador. E todo aquele que, em assembleias numa espécie de transe religioso, profetiza que essas maldições familiares são derrubadas está se aproveitando da boa fé do povo: são falsos profetas, que manipulam a Escritura para ganhar autoridade e poder.
Colaborou: Fique Firme
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