São João Bosco e o Tesouro da Igreja

Por Karina Moreti

Os pobres são o tesouro da Igreja porque foi no meio deles que Deus escolheu fazer morada. O Verbo não visitou a humanidade de passagem: Ele armou sua tenda no meio de nós (Jo 1,14). Desde o Êxodo, quando o Senhor escuta o clamor do povo hebreu escravizado (cf. Ex 3,7), até o Evangelho, quando Jesus proclama bem-aventurados os pobres (cf. Mt 5,3), a Escritura insiste numa verdade desconcertante: Deus se deixa encontrar onde o mundo menos valoriza. Essa escolha não é acidental; ela permanece como critério para a fé cristã.

Celebrar São João Bosco, no dia 31 de janeiro, é reconhecer que essa lógica do Reino atravessou sua vida inteira — desde a origem. Giovanni Melchior Bosco – João Bosco – não nasceu entre privilégios. Filho de camponeses pobres, perdeu o pai muito cedo e conheceu, desde menino, a precariedade do trabalho rural, a insegurança do pão diário, a dureza de uma vida marcada pela luta. Sua infância foi tecida por esforços silenciosos, fé simples e uma mãe — Margarida — que lhe ensinou que a confiança em Deus não elimina a pobreza, mas a enfrenta com dignidade.

As origens de São João Bosco não são de meros dados biográficos. Trata-se de lugar teológico, escolhido por Deus. João Bosco aprendeu cedo que a pobreza não é uma abstração moral, mas uma condição concreta que marca o corpo, o tempo, as relações e o futuro. Talvez por isso tenha compreendido, com tanta clareza, que não existe evangelização verdadeira onde não há condições mínimas para viver.

Quando Deus o chama, não o envia a espaços protegidos, mas à Turim ferida pela industrialização do século XIX. Uma cidade onde o progresso produzia riqueza para poucos e abandono para muitos. Jovens pobres, migrantes, órfãos, trabalhadores explorados — corpos cansados e almas sem horizonte. Deus não o chama para amar a humanidade à distância, mas para construir morada no meio dela: morada concreta, de portas abertas, pátio cheio de vozes, chão gasto, pisado por sapatos velhos, calçados por jovens pobres.

Na Turim daquele tempo, milhares de jovens viviam sem moradia estável, sem família, sem proteção. Dormiam onde dava, trabalhavam quando conseguiam, sobreviviam como podiam. Dom Bosco compreendeu algo decisivo: a pobreza mais profunda não era apenas material, mas humana. Eram jovens sem casa, sem nome, sem pertencimento. Por isso, sua missão não se limitou a tirar meninos da rua, mas a devolvê-los à dignidade de filhos.

Seu pátio, primeiro espaço onde reunia os jovens, tornou-se lugar onde Deus podia agir. Ali, o Evangelho ganhava corpo em gestos simples: escuta paciente, alegria compartilhada, correção feita com amor. Não havia romantização da miséria, mas compromisso concreto com a vida. Para João Bosco, Deus educa salvando e salva educando — não pelo medo, mas pela confiança; não pela violência, mas pela experiência concreta de ser amado.

Essa intuição atravessa o magistério recente da Igreja. O Papa Francisco insistiu incansavelmente que os pobres não são apenas destinatários da caridade, mas lugar privilegiado da revelação de Deus. Eles nos evangelizam porque nos obrigam a abandonar abstrações e tocar a realidade. Uma Igreja que se afasta dos pobres, advertia ele, corre o risco de se tornar autorreferencial, esquecendo-se de que Cristo se identifica com os pequenos (cf. Mt 25,40).

O Papa Francisco também denunciou com clareza que a falta de moradia não é apenas um problema social, mas um escândalo espiritual. Uma sociedade que normaliza pessoas vivendo nas ruas revela uma grave fratura ética. E uma Igreja que não se deixa ferir por essa realidade corre o risco de anunciar um Cristo desencarnado, distante da carne ferida do povo.

Dom Bosco viveu essa verdade antes mesmo que ela fosse formulada enquanto axioma teológico. Ele sabia que um jovem sem moradia dificilmente acreditaria num Deus que o ama. Por isso, sua fé foi profundamente concreta: oferecer chão firme para que a esperança pudesse nascer. Sua obra se construiu entre dormitórios simples, mesas compartilhadas e noites sem garantias humanas, sustentadas apenas pela confiança radical na Providência.

Na Exortação Apostólica Dilexi te, o Papa Leão XIV aprofunda essa mesma verdade ao recordar que o amor à Igreja se prova na fidelidade aos seus membros mais frágeis. Amar a Igreja é amar aquilo que nela é vulnerável. Quando a comunidade cristã desloca seu centro para a autopreservação, perde contato com o coração do Evangelho. Mas quando se deixa ferir pela pobreza do outro, reencontra sua verdade.

Nesse horizonte, a Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), não surge como um acréscimo circunstancial, mas como continuidade viva da espiritualidade salesiana. Em Dom Bosco, essa espiritualidade brota da convicção de que não há fraternidade verdadeira sem um lugar onde a vida possa ser acolhida. Por isso, sua fé não se expressou em discursos, mas em casas abertas, pátios habitados e presença fiel. Não se trata apenas de pensar estruturas ou políticas, mas de reconhecer que a fé cristã, vivida à maneira salesiana, compromete-se com aquilo que sustenta a dignidade humana: ter onde morar, pertencer e permanecer. Onde a espiritualidade salesiana cria morada, a fé deixa de ser palavra e se torna carne.

Dom Bosco ajuda a compreender que moradia não é apenas teto, mas pertença. Não é apenas abrigo, mas possibilidade de futuro. Onde não há casa, dificilmente há sonho; onde não há chão firme, a fé encontra dificuldade para florescer.

Celebrar São João Bosco hoje é aceitar uma pergunta que atravessa o tempo: onde está o tesouro da Igreja? Onde estiver o tesouro, ali estará também o coração (cf. Mt 6,21). Se o tesouro for apenas estrutura e segurança, o coração se endurece. Mas se forem os pobres, os jovens abandonados, os que não têm casa, então a Igreja permanece fiel ao Deus que escolheu morar conosco.

São João Bosco nos recorda que a fé cristã começa quando abrimos espaço: espaço no coração, nas estruturas, na cidade. Porque o Deus que veio morar entre nós continua, hoje, esperando um lugar onde possa ser acolhido.


Oração

Senhor Jesus,
que te fizeste pobre por amor,
ensina-nos a reconhecer nos pequenos
o tesouro que sustenta a tua Igreja.

Dá-nos um coração como o de São João Bosco,
capaz de educar com amor,
corrigir com esperança
e confiar na tua Providência.

Que nunca nos afastemos dos pobres,
pois é neles que tu nos esperas.
Amém.


Karina Moretié bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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