“Bem aventurados os pobres, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,1-12a)

Por Pe. Eduardo César Rodrigues Calil

A religião pode mesmo se tornar o ópio do povo, como disse uma vez Marx, se continuarmos a levar à falência a mensagem de Jesus, sobretudo a das bem-aventuranças. Fazer os pobres, os oprimidos, os famintos acreditarem que sua condição é privilegiada, porque o sofrimento nesta terra merecerá a glória infinita dos céus é trair a mensagem de Jesus, é glorificar o sofrimento, é manipular consciências. 


Não seriam as bem-aventuranças, ao invés de a máxima condição do homem, sofrimentos e penares que deveriam ser evitaados? Não nos tornaram, quando distorcidas, eternamente fracos, resignados, um pobre rebanho? Quem quer ser pobre e aflito, mísero e oprimido e ousa chamar isso de felicidade, como as bem-aventuranças insinuam? Quem na primeira oportunidade não deixaria essa condição?  


Mesmo Israel não cansava de proclamar com suas vozes proféticas: “as riquezas do mar se derramarão sobre ti” ou ainda: “desfrutareis os bens das nações, tirarei vantagem das riquezas deles”, afirmava Isaías. Como Jesus pode então afirmar “bem-aventurados os pobres”? O Messias não viria para restaurar o domínio de Israel? Então, que tipo de coisas está pedindo Jesus nessa sua teologia anti-domínio? 


No lugar das dez palavras, o decálogo, Jesus apresenta suas bem-aventuranças e, aqui, o evangelista resume toda a mensagem de Jesus. Ele sobe a montanha do mesmo modo que Moisés o fez e se senta para ensinar como um mestre. Daí proclama a nova aliança; feita entre os filhos e seu Pai. E são oito bem aventuranças, porque é no oitavo dia que Jesus ressuscitará, o primeiro dia da semana, ou seja; é por meio das bem-aventuranças que a vida supera a morte. 


Mas, talvez, só talvez, pudéssemos falar de uma única bem-aventurança, da qual todas as outras são um desdobramento e consequência: bem aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus! Do mesmo modo como Deus se fez pobre para nos enriquecer, o convite é que entremos todos, pelo espírito, não na esteira da miséria, não somando o número de pobres, mas na defesa do pobre, ajudando a eliminar as causas da pobreza, renunciando a tudo que causa divisão e ódio entre os homens. Assim, o Reino de Deus, ou seja, o Reino que é dos céus, se fará presente. O Reino dos céus não será dos pobres, ele é dos pobres! 


Depois, todo o resto das bem-aventuranças serão proclamadas como futuro possível, quando os seguidores de Jesus defenderem os queridos de Deus: os oprimidos e aflitos redescobrirão a dignidade. Os mansos possuirão a terra, porque é sem violência que se deve construir um mundo mais humano. Será preciso ter fome e sede de justiça para construí-lo, e essa justiça é o coração do Reino dos céus, e da vontade de Deus, por isso ela não é o contrário da misericórdia. Na verdade, uma se dá na outra. E a verdadeira pureza, que faz ver a Deus, é não rejeitar ver o irmão que sofre. 


E essa vida, assim doada, não é indolor.  Talvez por isso Jesus não proclame bem-aventurados os pacíficos, mas os que constroem a paz, os que promovem a paz. Não são felizes os que procuram conservar a própria paz evitando toda situação de conflito… É preciso estar disposto a inquietar-se na construção da paz. E é claro que esse modo de viver irá desatar todo tipo de perseguição. Entretanto, Deus mesmo se coloca ao lado dos derrotados e, mesmo quando os dominantes usam o nome de Deus para legitimar seu poder, é ao lado dos pobres que Deus fica, e desde já, não só no futuro. 


Quem quiser estar com Jesus e seu Pai, já sabe, portanto, de que lado deve ficar.

Colaborou: Fique Firme


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