“Feliz o homem que teme a Iahweh
e se compraz com seus mandamentos!
Ele brilha na treva como luz para os retos,
ele é piedade, compaixão e justiça.”
(Sl 111/112, 1.4.)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introduzindo
Estamos no 5º Domingo do Tempo Comum. A Liturgia nos apresenta no Evangelho de Mateus uma das mais das belas palavras de Jesus, em Mt 5,13-16. Uma exortação aos seus discípulos e discípulas para que possam ser sinal de alegria e transformação nas comunidades, construindo uma nova sociedade, mais justa e solidária. Ser sal é ser tempero. O alimento, quando não temperado devidamente, fica insosso. Sem graça. Aos discípulos e discípulas de Jesus, na perícope de Mateus que estamos a refletir, há uma exortação para que possam levar sabor à vida das pessoas. Há também a exortação para ser luz. A luz ilumina, trazendo segurança para nosso caminhar. Também pode significar discernimento em nossas palavras e ações. Vamos refletir um pouco mais, aprofundando esta Palavra de Jesus, colocando-nos ao lado de seus discípulos e discípulas que – naquele monte – ouvindo o sermão inaugural do ministério messiânico do Pregador Galileu, recebem pistas para bem viver, segundo o sonho de Deus.
Bebendo das Fontes da Palavra
A perícope do Evangelho de Mateus que temos na liturgia do 5º Domingo do Tempo Comum é uma continuidade do Evangelho do domingo anterior. Antes, Jesus disse que felizes sãos os pobres, os sofredores, os injustiçados, os pacíficos, os vulneráveis (cf. Mt 5,1-12). Neste domingo, continuamos esta mensagem a partir do versículo seguinte, v. 13. Se antes Jesus mostrou o paradoxo das Bem-aventuranças, onde pobres, excluídos e injustiçados – estes todos que estão às margens da sociedade – são de fato os prediletos de Deus e – por isso – verdadeiramente felizes; agora Jesus conclama às comunidades para que possam ser agentes desta mensagem de bem-aventurança. Não se pode compreender as Bem-aventuranças de forma fatalista, conformada. É preciso entender que a felicidade dos pobres e marginalizados está na ação de Deus, em restaurar sua dignidade e vida. São felizes os vulneráveis, porque têm Deus como seu grande parceiro na caminhada de libertação, por um mundo mais justo e humano. Os pobres e marginalizados precisam da justiça de Deus para viver. Se não buscam a justiça, não haverá esperança para ninguém, pois os ricos e poderosos não entenderão que a segurança deles, sustentada por acúmulo e dominação, não oferece verdadeira vida. Enquanto ricos buscam se tornar cada vez mais ricos, os pobres são subjugados à miséria. Não há como viver com equidade caindo na tentação da riqueza e do poder. Quando alguém almeja cegamente a riqueza, só conseguirá alcançar seu sonho pela exploração dos pobres, sonegação de seus direitos, praticando a injustiça. Aquele que busca o poder precisa subjugar os pequenos. Estes males da sociedade são exatamente o contrário do Evangelho que Jesus anuncia. Às comunidades de Jesus foi confiado o anúncio das Bem-aventuranças, como inspiração para se construir um mundo mais justo e humano. Precisamos ser missionários da justiça e do amor. É neste sentido, na missão de transformar as tristes realidades em que ainda hoje vivemos, onde pessoas humanas são condenadas a viver sem dignidade, que se insere a conclamação para que todos e todas sejam Sal e Luz.
Os pobres e marginalizados precisam ser sal e luz do mundo (Mt 5,13-15). É através deles que o projeto de Deus pode se realizar. Por isso é preciso manter a qualidade do Sal e não esconder a Luz. Aqui vale uma observação: Mateus é ousado! Traz a questão da luz para a realidade concreta, de forma a transformá-la. Os discípulos de João diziam que “Deus é luz” (cf. 1Jo 1,5) e que Jesus é a “Luz do mundo” (cf. 1Jo 8,12). Mateus horizontaliza a questão, dizendo que todos aqueles e aquelas que se comprometem com Deus e Jesus são luz. É Deus quem brilha, quem ilumina, através de todos e todas que se comprometem com o Evangelho de seu Filho. Na pessoa do discípulo e da discípula, do missionário e da missionária, Jesus continua proclamando a Boa Notícia e edificando o Reino aqui e agora.
Pensando nisso, há que se sublinhar a exortação de Jesus para que os discípulos e as discípulas se comprometam verdadeiramente com o Evangelho. Não basta dizer que está na comunidade cristã. É preciso protagonismo comprometido. Ousadia e coragem. “Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lâmpada, e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim, num candeeiro, onde brilha para todos que estão na casa” (Mt 5,14-15). No versículo seguinte (v. 16), Jesus insiste: “Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus”. De fato, não há como pertencer à comunidade de Jesus sem pleno comprometimento com os valores do Evangelho. Ser Sal e Luz é ser agente transformador da sociedade, semeando a Boa Notícia da Libertação (cf. Is 61,1-3; Lc 4,16-21).
A Palavra de Deus em nossas vidas
Assim como no tempo de Jesus e seus discípulos e discípulas, quando o Império Romano exercia sua tirania sobre a Palestina, produzindo exploração, marginalização e injustiça; também nós somos muitas vezes colocados sob o fardo da opressão. Ao longo de nossa história, novos impérios se levantam, oprimindo os pequeninos. No meio rural vemos o latifúndio construir suas riquezas pelo acúmulo de terra, exploração injusta do trabalho dos pequenos camponeses, espoliação da agricultura familiar, invasão de territórios indígenas, agressão ao bem-estar da Casa Comum, pelo desmatamento ilegal e por exploração de recursos naturais de forma predatória. Nas cidades vemos as elites relegando as minorias à marginalidade. A aporofobia tem se manifestado de forma mais violenta a cada dia. Pessoas em situação de rua, moradores de comunidades periféricas – entre outros indesejáveis de uma sociedade plutocrática – são vítimas da tentativa de se criminalizar a pobreza. Não são raras as iniciativas das elites de se proibir ações solidárias destinadas aos vulneráveis. Há quem queira proibir a ajuda aos pobres, criminalizando a solidariedade de quem se identifica com eles. Somos igualmente escandalizados ao ver um governador de estado, que promoveu uma chacina pela violência policial, sendo aplaudido em uma igreja, como se matar pessoas pobres e pretas fosse ato heroico. Lamentável! Vivemos em tempos de insanidade!
Diante deste contexto, precisamos dar especial atenção a Jesus e sua exortação em Mt 5,13-16. Não há como se comprometer com o Evangelho e não se indignar com as injustiças e a violência que têm nos cercado. Os discípulos e as discípulas de Jesus precisam anunciar o Reino de Deus, onde injustiça, violência e marginalização das minorias não tenham lugar. Ser Sal e Luz significa contrapor essa insana sociedade que propõe valores contrários aos do Evangelho de Jesus. Amor, paz, solidariedade e partilha são alvos desta sociedade que busca poder, riqueza, privilégios. E, com isso, temos resultados lamentáveis como violência, marginalização das minorias, sonegação de direitos fundamentais. Anunciar o Evangelho da Vida significa ser Sal e Luz, enquanto profetas da Alegria, do Direito e da Justiça.
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